segunda-feira, abril 18, 2005

A Culpa é do Sistema!

Escrevo sobre o que considero ser um dos principais responsáveis pelos portugueses andarem desiludidos nos últimos tempos e por Portugal se encontrar na cauda de uma Europa, também ela um pouco perdida - o nosso sistema! Nesta altura já estarão os leitores a pensar que também eu estou com delírios de tipo Dias da Cunha. Estejam descansados! Penso que ainda não cheguei a esse ponto (embora um maluco nunca tenha consciência que o é). Falo-vos do Sistema, enquanto conjunto de princípios que têm regido Portugal. Um Sistema baseado num Estado empregador e prestador de serviços, na antiguidade enquanto fonte de progressão na carreira, num conceito abstracto chamado "direitos adquiridos", numa desvalorização do mérito (ou pelo menos, numa não valorização). Este Sistema tem provocado uma estagnação assustadora na nossa sociedade. O português médio tem um objectivo: arranjar um emprego para a vida, através de um Contrato de Trabalho que o proteja contra qualquer tipo de despedimento (seja ele justo ou injusto), que contemple uma progressão na carreira com o passar dos anos e que não ponha em causa os tais direitos adquiridos, não se sabe bem por quem e porquê. É isto que faz o português feliz? Não! Permite, apenas, que tenha uma vida estável e previsível.
Será que a culpa desta situação é do português médio? Será que nós somos um povo preguiçoso e acomodado? Não, Não e Não! Salvo as devidas excepções, integrados num sistema que os incentive, os portugueses são tão empenhados, produtivos e trabalhadores como qualquer outro cidadão do mundo (muitas vezes até somos mais). Além disso, temos uma vantagem que muitos povos não têm: temos uma extraordinária capacidade de adaptação a novas realidades e de relacionamento com outras culturas.
Digo isto com esta certeza, porque estou a viver nos E.U.A. (por apenas mais duas semanas). Aqui, não existem empregos para a vida - hoje estou a trabalhar em Nova Iorque, amanhã poderei estar na California; aqui, um direito adquirido hoje, pode ser perdido amanhã; aqui, o ordenado ao fim do mês varia consoante a produtividade do trabalhador; aqui, a progressão na carreira consegue-se, apenas e só, através do mérito; aqui, não vale a pena ficar sentado numa secretária a contar os dias que faltam para o fim-de-semana, à espera que os anos passem para sermos promovidos, porque não seremos; não vale a pena ficar à espera que o dinheiro caia do céu por obra de um qualquer santo milagreiro chamado Estado, porque não cai. Aqui, o sucesso, a realização pessoal e profissional, conquista-se com mérito. Perante este cenário horrendo para uma CGTP, muitos pensarão: Coitados! Que maldade! Vive-se muito mal por aí! Lamento, por acaso, este sistema, não sendo perfeito (como nada na vida), até funciona. É um sistema motivante e desafiante. E o que é a vida sem desafios?
É também por causa deste sistema, que os E.U.A. são a maior potência nos mais diversos campos: economia, ciência, cultura (sim cultura), etc., etc. Esta potência não tem sido construída apenas pelos Americanos, mas também por cidadãos do mundo que encontram aqui as condições ideais para desenvolverem o seu trabalho. E porquê? Porque o sistema Americano é o melhor!
Também por aqui tenho encontrado portugueses com capacidades extraordinárias e reconhecidos pelo seu mérito: desde simpáticos e eficientes empregados de mesa, até professores catedráticos com posições de destaque no mundo académico.
Do outro lado do Atlântico, o meu rico país, continua amarrado a um sistema absolutamente desmotivante, defendido por interesses corporativos egoístas e suportado por uma Constituição redigida no tempo em que o país ainda falava em "abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno" (in preâmbulo da CRP).
Até quando?

2 Comments:

Blogger Henrique Raposo said...

Grande "post". É isso mesmo. A Europa (e Portugal), mais cedo ou mais tarde, vai mudar no sentido do liberalismo. Resta saber se será a bem ou a mal...

1:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Talvez por me encontrar também a saborear um pouco do "American Dream", revejo-me por inteiro no teu "post". É sem dúvida uma experiência de valor inestimável, a todos os níveis. Espero pelo menos não perder os hábitos que aqui adquiri quando regressar à pátria amada... e der de caras com o sistema...

9:24 da tarde  

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