O 25 de Abril e a minha geração

Praticamente não se falou do 25 de Abril no Sinédrio... Mea Culpa. Mas, por aqui não foi feriado e não arranjei tempo para escrever sobre a nossa revolução. Penso, no entanto, que é um acontecimento que não pode passar ao lado de um blog cujo objectivo principal é discutir política. Assim, chego atrasado um dia, mas mais vale tarde do que nunca.
Sou um sortudo. Nunca vivi numa ditadura e também não vivi os conturbados tempos do PREC. Sou um produto dos loucos anos 80. Assim, aquilo que sei do pré e pós 25 de Abril é fruto do que li e do que me contam os mais velhos. Sempre ouvi de tudo: desde ferverosos saudosistas do Salazarismo, até ferverosos saudosistas do 11 de Março. Acredito que o que sei sobre este tema, é, no essencial, o mesmo que os jovens da minha geração sabem.
Eu sou daqueles que aprecio a liberdade e a democracia acima de tudo, pelo que me posso considerar, indubitavelmente, um adepto do 25 de Abril, pois colocou um ponto final a várias décadas de um regime anti-democrático. Pelas mesmas razões, considero o dia 11 de Março de 1975 um dia triste na História de Portugal, pois quis retirar aquilo que os portugueses tinham conquistado. Felizmente, o 25 de Novembro voltou a colocar Portugal no caminho certo.
E o que pensa a minha geração disto tudo?
- 60% ou mais não faz ideia;
- 20% pensa como eu;
- 20% são reaccionários.
É verdade! Existem " meninos de direita" que detestam o 25 de Abril e falam do Salazarismo como se tivessem pertencido à Mocidade Portuguesa e existem "meninos de esquerda" que idulatram o 11 de Março como se tivessem sido membros activos do Conselho da Revolução.
Fico espantado com estes meus companheiros de geração.
Têm tudo: liberdade para pensar, dizer e fazer; consomem com gosto a globalização; têm automóvel próprio; Game Boy; Playstation... São uns mimados! Ou melhor, somos uns mimados!
Ainda assim, há meninos que gritam vivas a Salazar e outros a Vasco Gonçalves.
Conselho: tenham juízo e aprendam a valorizar duas coisas que infelizmente os nossos pais não tiveram o privilégio de gozar durante grande parte das suas vidas: democracia e liberdade.
Paulo de Carvalho, "E Depois do Adeus"
9 Comments:
Muito bem Dr. Francisco!
Sou daqueles que acredita e se bate diariamente por uma direita sem complexos de esquerda e definitivamente longe dos saudosimos de outrora.
Como nasci depois de Abril de 1974 nao me passa pela cabeça perder a liberdade individual conquistada, em favor de uma qualquer utopia de esquerda ou de direita que, invariavelmente, resultam nos piores totalitarismos.
Abraço. Volta rápido.
Bernardo Pires de Lima
A conversa eternizava-se. Pedi a pistola a Salgueiro Maia e dirigi-me a Pato Anselmo: "Deste lado estão o povo português, o nosso general Spínola e as forças da EPC. Agora decide - ou passas para este lado e aderes, ou rendes-te, ou dou-te um tiro".
Excerto de entrevista de Brito e Cunha, ex-alferes miliciano, a Adelino Gomes, citada no livro: O DIA 25 DE ABRIL DE 1974 - 76 FOTOGRAFIAS E UM RETRATO, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes.
Coisa bonita a liberdade...
Não sou reaccionária, sei o que foi o 25 de Abril e não penso exactamente como tu. Em que percentagem da nossa geração me incluo? Falar assim em percentagens é um pouco redutor.
Entretanto, deixo aqui uns versos da Sophia para quebrar um pouco a linguagem "à la technocrat" deste blog ;)
Um abraço para ti Francisco
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas (1977)
RaqueL Gomes Freire (irmão do André...)
Caro Francisco
Infelizmente o 25 de abril que para mim é que realmente conta não conseguiu limpar uma pagina da nossa história psiquica. Ou seja, os métodos que se usavam na ditadura absolutistas, que usam a ignorancia como modo previligiado de atingir o poder, o compadrio, a corrupção aliada a um sistema de justiça viciado e injusto e uma ideia fulcral de dividir para conquistar continua a ser usado pelos nossos governantes e que fez que tudo roda-se 360º para ficar na mesma.
Ainda não atingimos a maioridade democrática e somos erráticamente infantis. Ainda temos de entender que a democracia e a liberdade advêm de educação, consciencialização e responsabilidade dos individuos e de deixá-los tomar as suas decisões em respeito por eles e pelos outros.
Cumprimentos
Boa posta
Cara Raquel,
Muito obrigado pelo comentário e pelo poema...Apreciei! Mas, parece-me que esse romantismo todo tem qualquer coisa de Ana Drago :).
Espero poder voltar a contar com os teus comentários e sugestões...
E já agora: porque não és "Ponte"?
Os melhores Cumprimentos transatlânticos para ti...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Fico contente em ver alguém de direita (se não me engano) a valorizar o 25 de Abril sem complexos. O 25 de Abril não é o PREC, não é o 11 de Março. É apenas o dia em que tudo o resto se tornou possível e foi apenas isso: o dia em que caiu a ditadura.
Acho que atitudes sensatas como a tua ajudam a separar as águas e a possibilitar que uma Esquerda e uma Direita democráticas e liberais (penso que neste blog posso usar o termo esquerda liberal sem que soe a paradoxo)debatam e convivam civilizadamente. Com discordância, certamente, mas sem ódio. É que diabolizar ou menorizar o 25 de Abril -como se fez no Blasfémias- não contribui em nada para o debate político, mas ajuda a polarizar e a distanciar cada vez mais transformando adversários políticos numa espécie de inimigos que se procura hostilizar.
Carl Schmitt disse que a essência do fenómeno político era a relação amigo-inimigo e deu no que deu. E é isso que posições como a tua ajudam a evitar, para benefício de todos.
Joao Galamba
Francisco, sabia que era uma questão de tempo até concordar contigo em alguma coisa... Se pensarmos que antes de 74 ter um blog destes era motivo de prisão, temos todos muito que celebrar. O que a mim me assusta na nossa geração é estarmos tão longe daquilo que para nós os nossos pais sonharam. Tenho em casa milhares de livros em francês (Camus, Sartre, Kafka), trazidos em segredo de França, lidos em "pecado" e que hoje são facilmente trocados por uma PS ou afins. A Liberdade deixou-nos orfãos de desculpas para a nossa mediocridade. Beijos para o outro lado do Atlântico.
Joana Mil-homens
Também eu dou graças a todos aqueles que tornaram possivel a democracia em Portugal, pelo que me incluo nos 20% que pensam como tu. Considero apenas lamentável que se utilize incessantemente o 25 de Abril como bandeira para legitimar certos e determinados direitos adquiridos, negligenciando porém os deveres que lhes são incontornavelmente inerentes. Liberdade e responsabilidade continuam a ser conceitos mutuamente exclusivos no dicionário de muitos portugueses, liberais e conservadores, pré e pós 25 de Abril...
PS - Hoje há futebolada ou não?
André Ponte
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