segunda-feira, abril 11, 2005

O Culto dos Deuses


Os "Deuses"

Continuando a análise do Gonçalo Curado sobre o editorial de José António Saraiva, acrescentaria um pouco mais:
José António Saraiva não vê razões para o endeusamento de personalidades como António Vitorino ou António Borges. Concordo, por princípio, não devemos endeusar ninguém. No entanto, consigo entender o sentimento que se tem generalizado em torno destas personalidades.
Todos nós conhecemos os resultados de vários anos de governação por parte de políticos profissionais. Pessoas que fizeram uma carreira política dentro do sistema assente: começaram cedo numa Jota, presidiram a uma secção do partido, no fundo, fizeram uma carreira de funcionalismo partidário, até chegarem a um lugar de destaque num qualquer governo ou município. Uma grande parte dos políticos de hoje, nunca construiu uma carreira, para além da política. Nunca geriu um negócio, uma empresa, nunca sequer trabalhou por conta de outrém, que não o Estado ou o partido. Até há pouco tempo tivemos um 1º ministro que se gabava de não ter casa, nem carro próprio, como prova de dedicação à causa pública. Sinceramente, não vejo nada de positivo nisto. Infelizmente, olhando também para o que se passa nas juventudes partidárias, não se vislumbra um futuro diferente.
Na verdade, o país necessita de pessoas cujo talento, trabalho e mérito, tenham possibilitado a compra de uma casa ou de um bom carro. Não é condição essencial serem ricos, mas se o forem, qual é o problema?
O que tem faltado à causa pública portuguesa nos últimos tempos, são homens e mulheres de sucesso. Homens e mulheres com uma visão mais abrangente do que a da simples construção de uma carreira política.
Os dois Antónios são, de certa forma, a personificação deste género. São homens que se têm destacado pelo mérito, construindo carreiras de sucesso além fronteiras. Mas, não deixam de ser também, apenas, dois exemplos, dos muitos portugueses de valor que têm vingado em Portugal e no mundo e que poderiam enriquecer a nossa actividade política.
No estado em que as coisas estão, é difícil a política atrair este tipo de pessoas: um sistema partidário fechado pelos profissionais, uma comunicação social que vasculha a vida pessoal e profissional das pessoas e que não suporta sinais de riqueza; uma remuneração muito abaixo das que as pessoas de sucesso recebem normalmente.
Uma larga maioria dos portugueses já entendeu que o sistema do carreirista político puro e duro tem sido mau para o país e daí o tal “endeusamento” destas personalidades.
José António Saraiva termina o seu artigo, dizendo que o endeusamento “Revela uma sociedade frágil, carente e ansiosa, pronta a correr atrás da primeira ilusão“.
Eu pergunto: porque será que a nossa sociedade está frágil, carente e ansiosa?