quarta-feira, junho 22, 2005

Conversas de Café

No outro dia fui tomar um café à pastelaria da esquina. Cheguei lá, sentei-me e tinha na mesa do lado o típico português revoltado: encalorado, mangas de camisa arregaçadas, imperial na mão e discursando umas quantas banalidades para os amigos. Falava de política, economia, futebol. Falava dos malandros dos deputados que dormem no parlamento, falava dos embustes da banca, falava da incompetência dos empresários portugueses, falava dos frangos do Ricardo.
Ontem liguei a televisão e vi o Sr. Presidente da República, sem casaco, de mangas arregaçadas, discursando umas generalidades para 10 milhões de portugueses. É certo que não bebia imperial e não falava do Ricardo, mas lembrei-me logo do meu companheiro de café. Só que este pode dizer o que lhe vem à cabeça como quiser e onde quiser, pois no dia seguinte não tem o país inteiro a comentar as suas banalidades.
Do Sr. Presidente da República talvez se espere um pouco mais...
Ou não?

3 Comments:

Blogger Henrique Raposo said...

grande.

2:26 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

As consequências da parvoíce do ataque à banca - em que Sampaio se limita a seguir o Hadem Coelho - vão custar-lhes (nos) caro.

3:25 da tarde  
Blogger Paulo Trezentos said...

Há 3 ou 4 semanas num bar de Miami, e enquanto passava no ecrã gigante o 3º jogo da final da costa Leste, discutia com um New Yorker sobre a possibilidade de Hillary Clinton ganhar as primárias e eventualmente vir a ganha a Casa Branca.
Ele não acreditava minimamente nessa possibilidade. Não por ela ser mulher, mas porque não era o tipo de pessoa com quem o eleitor tipo gostava "de ir beber um copo".
Apesar de ele ter trabalhado na campanha do Kerry e detestar o Bush, achava que os Bush's (pai e filho), o Clinton, etc... encaixavam nessa categoria. "Tipos porreiros" para beber um copo...

O Jorge Sampaio preenche esse perfil. É um "tipo porreiro" para se tomar um copo. E um "tipo porreiro" é o que arregaça as mangas.
Ser "um tipo porreiro" não é de todo depreciativo. Um "tipo porreiro" pode ainda ser profundo na análise e acutilante nos ataques que faz.
Jorge Sampaio preenche essas duas vertentes. Como eu vejo, o PR tem um saldo de capital político que vai gastando em cada intervenção. Assim, as intervenções têm de ser tiros certeiros para não despediçar esse capital.
Claramente que a Banca portuguesa, ao contrário talvez de uma banca pós-25 de Abril nos ínicios do BCP ou BPI, é uma banca "gorda" e inerte.
Chamemos as "coisas" pelos nomes. É uma banca que não inova, não arrisca e com margens de negócio altíssimas.
As empresas acabam por ter dificuldade de obter financiamento de risco porque os bancos / capital de risco não precisam de arriscar para obter lucros. O mercado de retalho ainda é suficiente e como todos têm participações no capital dos outros existe uma certo "fundo de garantia" e não interessa deitar o parceiro do lado abaixo.
Quem fica a perder se a banca mantiver esta atitude, e em final de linha, é a própria banca. A venda do Totta pelo Champalimaud foi um aviso: ou somos competitivos ou somos rapidamente abalroados pelos espanhois. E não há ministro das finanças que o impeça.

Voltando ao PR. Ele tem uma capacidade de intervenção superior ao comum, apesar de não ser um estadista-tipo. Os discursos são circulares e nada empolgantes, é verdade, mas ele toca em alguns pontos fortes.
Um caso desses foi a A Sociedade em Rede e a Economia do Conhecimento do CCB em Março.
O PR convidou 40 dos mais importantes "players" das TI e meteu-os a ouvir Castells e Lessig. Estavam lá os patrões (Artur Santos Silva, Horta e Costa, Faria de Oliveira, Zeinel Bava, ...), os políticos (Manuel Pinho, Pacheco Pereira, José Magalhães, Bruno Dias,...) e os sindicatos (Carvalho da Silva, João Proença...). Durante 2 dias tiveram que gramar sobre Comunidades virtuais, Agenda de Lisboa, TIC, open-source, etc...
Este tipo de eventos é menos mediático que uma presidência aberta a Bragança mas com muito mais impacto.
Para minha surpresa, o PR foi durante todo o f-d-s o 1º a chegar e o último a sair. Eu não aguentei aquela resistência e sou da área...

IMHO, o sentido de presença e estado mede-se menos pelas mangas de camisa e mais pelas acções. Falta de sentido de estado é sair de um conselho de ministros e dormir uma soneca antes de ir a uma passagem de modelos. De mangas ou sem mangas. Afinal, o hábito faz o monge?

1:02 da manhã  

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