segunda-feira, novembro 07, 2005

O Contrato

Há dias fui veemente criticado por ter feito uma referência aos acontecimentos que se têm passado em França através do título "O Exemplar Estado Social Francês". Reconheço que a crítica é em parte merecida, pois, infelizmente, por falta de tempo, não tive oportunidade de me explicar. Assim, deixo aqui hoje o meu pensamento sobre o assunto.
Primeiro que tudo, quero que fique claro que não tenho absolutamente nada contra os imigrantes. Aliás, sendo um total defensor da globalização, estranho seria se tivesse alguma coisa contra o fenómeno migratório. Além disso, eu próprio já fui emigrante (pouco tempo) e tive contacto com muitos emigrantes portugueses (e também de outros países, culturas e religiões) que, no geral, são pessoas honestas e trabalhadoras.
A meu ver, a emigração/imigração deve ser entendida como um contrato entre o imigrante e o país que o acolhe. Contrato esse que, como qualquer outro, atribui direitos e deveres a ambas as partes e que caso não seja cumprido deve implicar uma qualquer punição para o infractor.
Na minha opinião, a forma como a generalidade dos estados europeus tem lidado com o fenómeno migratório está errada. Os países europeus acolheram-nos, deram-lhes trabalho, casa, educação e saúde gratuitas, no fundo, condições de vida muito superiores àquelas que teriam nos seus países de origem, mas, esqueceram-se de lhes exigir o cumprimento da sua parte no contrato. E a parte que os imigrantes têm que cumprir é, pelo menos, fazerem um esforço sério para se integrarem nas sociedades em que escolheram viver, respeitando os princípios e valores fundamentais dessas sociedades. O que acontece em muitos países receptores de imigração é que os imigrantes, principalmente aqueles provenientes de países cujos valores são muito diferentes, pura e simplesmente, fecharam-se em guetos e quiseram trazer todos os seus hábitos e costumes, sem fazerem qualquer esforço de adaptação. Mas o problema maior não é esse. Pior, acontece quando, para além disso, movidos por um enorme ódio em relação à civilização que os acolheu, procuram atacar e destruir os valores fundamentais dessas sociedades.Os estados não podem ser tolerantes com isso, sob pena de fazerem nascer uma bolha de tensão enorme entre imigrantes e não imigrantes que a qualquer momento pode rebentar e também sob pena de prejudicar os imigrantes que se integraram nas sociedades para onde foram (ou os seus ascendentes) em busca de uma vida melhor.
O medo que os governos têm ao lidarem com as comunidades imigrantes de ultrapassar a fronteira do xenofobismo e do racismo, faz com que as prioridades sejam esquecidas. O caso francês é um bom exemplo:2 marginais em fuga da polícia trepam uma vedação de arame farpado e entram para dentro de uma central eléctrica; morrem electrocutados. Perante a estupidez do acto, as autoridades francesas apressaram-se a instaurar um inquérito para apurar responsabilidades, quando a responsabilidade parece óbvia.Depois, gera-se um enorme escândalo porque um ministro apelida de "escumalha" os indivíduos que têm destruído escolas, automóveis, agredido pessoas, disparado contra polícias, etc. Independentemente da expressão poder não ser a mais feliz, a verdade é que os responsáveis pelos distúrbios, sejam brancos, pretos, amarelos, católicos ou muçulmanos, são de facto "escumalha" ou algo semelhante. Qual deverá ser a prioridade: exigir a demissão do ministro, ou combater veemente os responsáveis por aqueles actos?
O maior escândalo é o facto de a França se encontrar há 11 dias em verdadeiro estado de sítio e, por se encontrar embrulhada em inúmeros equívocos, não conseguir ter uma resposta clara para repor a ordem pública.
A maior responsabilidade do estado social encontra-se no facto de dar cegamente e não exigir nada em troca.
Os E.U.A. arranjaram uma forma politicamente incorrecta, mas minimamente eficaz de lidar com o incumprimento do contrato: deportação para o país de origem.

5 Comments:

Blogger Joao Galamba said...

Caro Francisco,

Eu apenas critiquei o teu post por achar que o titulo era algo oportunista. Repara que a minha critica so faz sentido porque o associo a tudas as diatribes contra a europa e estado social que blogs de direita tem andado por ai a escrever (a meu ver de uma forma um pouco monolitica e algo simplista)...A europa tem muitos problemas. O Estado Social ate pode ser demasiado generoso (em certas areas sim, noutras nao, e em certos paises como portugal nao o e certamente), mas o que nao suporto e a tendencia de alguma direita fazer o mesmo que os deserdados do marxismo: arranjar um inimigo unitario que e a causa de todo o mal. Neste sentido acho que os ultimos posts do HR no Acidental sao bastante sensatos. O problema da emigracao na europa e a bomba relogio que temos a nossa porta (portugal inclusive) nao tem de ser integrado na problematica do estado social...

Um abraco,
Joao Galamba

3:28 da tarde  
Blogger Ricardo Alves said...

A maior parte dos imigrantes cumprem a parte deles do «contrato»: respeitam as leis e trabalham, mesmo tendo menos direitos do que têm os indígenas europeus. Os «insurrectos» dos subúrbios de Paris são uma minoria.

5:05 da tarde  
Blogger Joana said...

Bem, daquilo que eu vi dos suburbios de Paris (e é uma cidade de que não gosto particularmente e que fui forçada a visitar algumas vezes...), acho que este é também um problema de urbanismo. Aqui em Portugal também andamos com a moda de criar pequenos guetos nos arredores das grandes cidades. Integrar alguém significa acolhe-la no meio, não nos arredores.

Concordo plenamente com o que dizes Francisco (infelizmente, porque gosto de discutir contigo ;op), mas ando numa de dar na cabeça dos arquitectos e autarcas...

Bjks

J

5:15 da tarde  
Blogger FV said...

"Aqui em Portugal também andamos com a moda de criar pequenos guetos nos arredores das grandes cidades."

Mas será o prório país que escolhe fazer guetos ou os imigrantes?

Para além do óbvio desejo de um imigrante poder viver num ambiente cultural o mais próximo possível do país de origem ainda há o facto de os guetos serem a única chance para um emigrante ilegal poder estar "seguro".
Quanto muito será possível criticar os governos pela passividade perante a geração de guetos, mas é uma questão bastante delicada onde não é propriamente fácil de mexer

9:49 da tarde  
Blogger Henrique Raposo said...

Grande Francisco. Grande.

Sabes por que razão há medo de falar a sério disto? Porque há uns meninos ditos progressistas que, na verdade, são uns reaccionários do pior, a dominar a "moralidade" da situação. São os ditos multiculturalistas.

10:28 da tarde  

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