terça-feira, dezembro 06, 2005

MFM


Depois da biografia de Eça de Queiroz, que tem antecedentes familiares parecidos com os da biógrafa, como a própria só agora veio a descobrir, Maria Filomena Mónica volta a surpreender relatando desta feita a sua própria vida. Mais do que um retrato da sua cama, como muitos o têm chamado, o livro revela a história de uma mulher sempre dividida entre dois mundos diferentes num período de grandes mutações na sociedade portuguesa. As contradições entre a sua origem social e as do grupo em que cresceu, a forte presença da mãe e o apagamento do pai, marcaram de forma indelével o percurso de alguém que julgava ter construído o seu próprio caminho de maneira completamente independente. A vontade da mãe, de que a filha convivesse com a elite económica e social do seu tempo, fez com que Filomena tenha procurado depois dar-se com a elite intelectual. Embora diferentes, são ambos dois tipos de snobeira. No livro, tirando os seus antepassados, não há gente comum. Ou se fala nas grandes famílias de Lisboa, Cascais e Estoril e mesmo de Espanha, ou dos intelectuais e artistas da sua geração. Tudo o resto é paisagem. Faltam ali pessoas sem apelido. MFM conseguiu, tal como a sua mãe, entrar num mundo que à partida, dada a sua educação, não era o seu, tendo nisso todo o mérito. No entanto, MFM parece não ter conseguido livrar-se completamente dos ensinamentos da mãe que ela tanto se gaba ter combatido. Ao legendar uma fotografia do baptizado do seu filho identifica todos os retratados e acrescenta um título nobiliárquico revelando desse modo que o seu filho é bisneto de uma baronesa. Este é pois mais do que um bilhete de identidade, é um retrato de um país e um grito de alguém que tinha de deitar para fora todas as suas contradições, fragilidades e angústias. Um grande livro.