sábado, abril 30, 2005

Arte não é política

Costumo ouvir com muita frequência:

«Não vejo filmes americanos». São as mesmas pessoas que gritam «foi bem feito». É triste ver as pessoas confundir política com arte. Normalmente, preocupo-me em perceber o porquê de tamanhas barbaridades. Mas aqui não vale a pena. Só posso dizer o seguinte:

Sim, Garcia Marquez tem tanta sabedoria política como um burro coxo, mas escreve com a pena de deus.

Sim, Eisenstein e Vertov legitimaram a URSS, mas fizeram filmes para o espaço.


Às vezes, não é possível compreender. Às vezes, só é possível mostrar o caminho.

Espanhóis estereofónicos

Lisboa. Ontem. Uma livraria do costume. Entrei. Estranheza súbita: alguma coisa estava errada. Alguma coisa estava a perturbar um hábito de anos. Mas não sabia bem o que era. A atmosfera estava estranha, como se aquela livraria fosse virgem para os meus sentidos.

Um pouco depois, após a rendição ao facto do costume (não ter dinheiro para comprar livros), percebi finalmente o que se passava: havia espanhol no pedaço. Dois espanhóis, para ser exacto. Era essa a estranheza. Os tipos, como bons espanhóis, faziam mais barulho que autocarro checoslovaco em terceira mão. A estranheza transformara-se em certeza científica: uma atmosfera colorida e carregada de festa é uma inevitabilidade quando um espanhol está presente.

O espanhol nasce estereofónico. Alimenta-se de decibéis. Fala como se cantasse. Pensa como um dançarino. E, acima de tudo, escreve como Baco. Sim, a língua espanhola, quando atinge aquela fluidez lânguida, é o idioma do arrebatamento.

Synaesthesia e Morricone-Leone

Caro António Amaral,

Kandinsky? Nunca atingiu a minha «frequência». Aliás, qualquer pintor que desconstrua a figura humana não tem o meu voto.

Mas esse termo (synaesthesia) fez-me lembrar uma coisa.


Às vezes costumo dizer que o cinema, quando atinge certos patamares, é a arte perfeita. E que patamares são esses? Simples: quando a imagem e a música casam na perfeição, quando a cor e o movimento das personagens encaixam, numa perfeição quase sexual (fluida, carnal, que nos suga para o interior do filme), com a música. Há uma fusão de sentidos que nos deixa embriagados.

Exemplos?

Temos de falar das grandes duplas. Quando outrora pensava em estudar cinema, tinha sempre este título em mente: «Hitchcock-Hermann e Leone-Morricone, a música e imagem».

Os filmes do Hitchcock não teriam metade do suspense se não tivessem a banda sonora do Hermann. Mas, atenção, Hitchcock filmava daquela maneira já a pensar na música de Hermann. Ou seja, são inseparáveis. O mesmo se passa com o duo Leone e Morricone.

Aliás, estou a redescobrir a obra de Leone. Merece entrar no cânone. É um dos maiores de sempre. O “Bom, o Mau e o Vilão”, mas sobretudo o “Era uma Vez na América” e “Aconteceu no Oeste” são clássicos para o Olimpo.

E a música de Leone transforma um duelo de pistoleiros numa experiência religiosa.

Tenho as bandas sonoras em “cd”. E digo-lhe uma coisa: mesmo sem a imagem, choro que nem um subsídiodependente sem o estado-providência.

Um abraço,
Henrique Raposo

O Francisco, Nova Iorque, Londres e… Lisboa

Francisco,

o que acabaste de descrever tem um nome: Cosmopolitismo. Algumas pessoas confundem isso com Multiculturalismo. Estão completamente erradas. O Cosmopolitismo junta as pessoas numa plataforma comum. O Multiculturalismo tem o condão de separar as mesmas pessoas, criando plataformas separadas. Cria guetos. Guetos financiados... mas guetos.

Reconheço a emoção que estás a sentir. Senti-a quando deixei Londres, depois de uma semana mágica (algures no final de 2004; sozinho na LSE e percorrendo a Charing Cross todos os dias, comprando livros até cair de indigestão bibliómana). Londres, tal como Nova Iorque, acolhe-nos de imediato. Assim que saímos do aeroporto já estamos em casa. Não nos sentimos estrangeiros. Somos, de imediato, vizinhos das gentes locais. É essa a grandeza anglo-saxónica: transforma “estranhos” em “vizinhos”.

Não sou nada de viagens. Acho que o actual culto turístico é só mais uma forma de fuga à realidade. Mas há sítios e sítios. Nunca pensei que alguém se pudesse apaixonar por uma cidade. Mas eu estou literalmente tomado de beicinho por Londres. Tal como tu “estás de quatro” por NY.

Camarada: o Homem só inventou ainda uma forma segura de curar a coita amorosa: copos e amigos. E Lisboa até pode não ser a melhor cidade do mundo, mas é a cidade dos copos e dos amigos. E tem esse estranho condão: é a nossa casa.

«E no final, voltamos sempre para casa» (Hesse; algures)

Um abraço,
Henrique Raposo

Thank you New York


Empire State Building


It's the end! Depois de ter passado os últimos meses da minha vida em Nova Iorque, chegou o momento de regressar a casa.
É impossível descrever por palavras a experiência que passei nesta cidade. Estive aqui 3 meses e parece que dei uma volta ao mundo em 90 dias. Tive o privilégio de conhecer pessoas dos mais variados cantos do mundo: americanos, portugueses (somos bastantes por aqui), chineses, coreanos, japoneses, israelitas, alemães, espanhóis, italianos, canadianos, australianos, turcos, libaneses, iraquianos, iranianos, mexicanos, sei lá...Tantos! Penso que saio daqui enriquecido por todas estas diferentes culturas e não tenho dúvidas que o "mundo" que ganhei ser-me-à muito útil no futuro. Descobri também que aquela velha máxima de que somos todos diferentes e todos iguais, é, sem dúvida, uma realidade.
Aqui pude ver Árabes e Judeus numa convivência sã; pude ver Chineses e Taiwaneses descontraídamente a falar sobre o que os separa e une. Não sei porquê, mas parece que as pessoas ficam todas embebidas por um "New York State of Mind".
Sem querer que isto pareça uma cerimónia dos óscares, não posso deixar de agradecer publicamente aos meus pais por me terem sempre incentivado a abrir os olhos ao mundo e, claro, por me terem ajudado a concretizar isso mesmo.
Fica também um agradecimento a todos os "Sinédrios" por me terem feito sentir mais perto do meu querido país.
Que me perdoem os meus amigos anti-americanos, but "God Bless America"!

Ps: desculpem o tom mais pessoal deste post, mas todos nós sabemos como são difíceis as despedidas.

sexta-feira, abril 29, 2005

Gonçalo, o teu último “post” é de 14 de Abril!!!

N.º2 da "Atlântico": Portugal, um país sem conflitos

A historiadora Fátima Bonifácio acerta no alvo: Portugal é um país sem conflitos.

A cidadania em Portugal

(Bernardo, isto aconteceu mesmo)

Ontem, passei junto do estádio do Sporting. Havia uma multidão de seres com escamas. Barulho e cerveja a rodos. O povo sportinguista descomprimia. E, do meio da multidão, saem dois seres. Sem escamas, é certo.

O primeiro joga o guardanapo do courato para o chão. O outro vira-se e diz:

- Não és nada bom cidadão!

O desleixado, talvez ainda anestesiado pelo barulho, responde desta forma antológica:

- Ah? Cidadão? Joga aonde?

"Oito Mulheres" - Ozon e as Mulheres

Para o meu amigo Felipe Diogo,
o meu pós-moderno preferido.


Por norma, não consigo gostar de filmes marcadamente pós-modernos. Não aprecio aquela ideia de fundir géneros. Gosto ainda menos da fractura do fio narrativo. É por isso que Clint Eastwood, o último grande clássico, tem um pequeno altar lá em casa.

Mas, claro, nada é absoluto. A minha recusa do cinema pós-moderno não é radical. Tenho em alta consideração dois cineastas pós-modernos. O Tarantino e o Ozon.

Aliás, o Ozon é, talvez, o único cineasta francês que… faz filmes. Ozon não filma… literatura. Filma mesmo. Filma personagens e não palavras. Mais: é provavelmente, o homem vivo que melhor sabe olhar e filmar a Mulher.
Vejam, hoje, o “Oito Mulheres” (RTP 1). Completamente pós-moderno, é certo (musical/suspense), mas respira cinema.

"Era uma vez o... Espaço"

Dando seguimento à nostalgia, lanço aqui uma oferta pública de… compra:

Quero comprar a série “Era Uma vez o… Espaço”, na versão portuguesa. (“Lá em cima há planetas sem fim, cá em baixo…”).

Quem é que quer vender? Alguém, com certeza, gravou aquilo.

É pá...Deixem lá comentar...pá


É pá Posted by Hello

Bernardo Pá,
Tu sabes que eu sou teu amigo pá, mas estou um bocado chateado contigo pá. Um gajo vê os teus belos posts invocando a memória de tanta gente fixe pá: desde os DaVinci até ao Raul Durão, passando pelo enorme Eládio e dando um saltinho ao Loureiro... E um gajo quer comentar e dizer um "bem-haja" a esta gente toda e tu não deixas pá. Ou pá!!! Vá lá! Deixa lá a malta dizer umas barbaridades...
Ouve lá pá: imagina lá tu que até aqui na América, o Jorge, mesmo à frente da própria casa, permite que esta senhora de bigode diga as maiores fantasias sobre ele... E tu pá?
Um amigo de um amigo meu até me disse que até " O Acidental" se abriu ao mundo pá... E nós pá?

É pá acho que disse muitos pás... pá...Tenho que perder este velho hábito... pá.

Um abraço amigo e fraterno do teu camarada

quinta-feira, abril 28, 2005

Só mais um!

Por hoje chega! São os últimos, prometo.
A «Árvore dos Estapafúrdios» e as «Fábulas da Floresta Verde».
E porque não, o «Sebastião Come Tudo», com o Manuel Luís Goucha de bigode!

Da Vinci e Bananas!

Eis dois grandes ícones dos 80's nacionais. Os saudosos Da Vinci (onde pontíficavam temas do calibre de "Hiroshima" ou "Conquistador") e os não menos importantes Bananas, vulgo Ban. Neste conjunto musical portuense brilhava um João Loureiro, hoje presidente do clube de uma rotunda, no Norte do país. Temas como "Irreal Social", "Surrealizar", "Dias Atlânticos" ou "Mundo de Aventuras" continuam no nosso imaginário.
Saudade para o verdadeiro João Loureiro!

Joel Branco «Mítico Nº 7»



Adolfo! Um dos maiores! Lembras-te?

«Uma árvore é um amigo...
Que devemos bem tratar...»

80's sempre!

Bem haja Adolfo!
Assim vale a pena estar na blogosfera!

Hoje acordei assim... como todos os dias, aliás

terça-feira, abril 26, 2005

O 25 de Abril e a minha geração




Praticamente não se falou do 25 de Abril no Sinédrio... Mea Culpa. Mas, por aqui não foi feriado e não arranjei tempo para escrever sobre a nossa revolução. Penso, no entanto, que é um acontecimento que não pode passar ao lado de um blog cujo objectivo principal é discutir política. Assim, chego atrasado um dia, mas mais vale tarde do que nunca.
Sou um sortudo. Nunca vivi numa ditadura e também não vivi os conturbados tempos do PREC. Sou um produto dos loucos anos 80. Assim, aquilo que sei do pré e pós 25 de Abril é fruto do que li e do que me contam os mais velhos. Sempre ouvi de tudo: desde ferverosos saudosistas do Salazarismo, até ferverosos saudosistas do 11 de Março. Acredito que o que sei sobre este tema, é, no essencial, o mesmo que os jovens da minha geração sabem.
Eu sou daqueles que aprecio a liberdade e a democracia acima de tudo, pelo que me posso considerar, indubitavelmente, um adepto do 25 de Abril, pois colocou um ponto final a várias décadas de um regime anti-democrático. Pelas mesmas razões, considero o dia 11 de Março de 1975 um dia triste na História de Portugal, pois quis retirar aquilo que os portugueses tinham conquistado. Felizmente, o 25 de Novembro voltou a colocar Portugal no caminho certo.
E o que pensa a minha geração disto tudo?
- 60% ou mais não faz ideia;
- 20% pensa como eu;
- 20% são reaccionários.
É verdade! Existem " meninos de direita" que detestam o 25 de Abril e falam do Salazarismo como se tivessem pertencido à Mocidade Portuguesa e existem "meninos de esquerda" que idulatram o 11 de Março como se tivessem sido membros activos do Conselho da Revolução.
Fico espantado com estes meus companheiros de geração.
Têm tudo: liberdade para pensar, dizer e fazer; consomem com gosto a globalização; têm automóvel próprio; Game Boy; Playstation... São uns mimados! Ou melhor, somos uns mimados!
Ainda assim, há meninos que gritam vivas a Salazar e outros a Vasco Gonçalves.
Conselho: tenham juízo e aprendam a valorizar duas coisas que infelizmente os nossos pais não tiveram o privilégio de gozar durante grande parte das suas vidas: democracia e liberdade.

Congresso

O que aconteceu no Sábado, na antiga FIL, merece duas leituras, na minha opinião.
Em primeiro lugar, no que diz respeito à forma: foi um Congresso marcado pelo civismo, pela educação, pela vitalidade do debate e por um normal jogo de apoios aos candidatos.
Em segundo lugar, no que diz respeito ao conteúdo: para quem, como eu - e julgo que não são assim tão poucos, pelas conversas que pude ter - não alinha por uma matriz marcadamente democrata-cristã, o Congresso resultou naquilo que eu mais temia, isto é, numa blindagem ideológica. Passo a explicar o meu argumento.
O reforço da matriz democrata-cristã e os arrepios de pele sempre que se falou em abrir o CDS a conservadores/liberais e liberais levam-me a concluir que, das duas uma, ou não se sabe para onde se vai ou não se quer perceber que caminho tomar para crescer eleitoralmente. Isto porque nem a nova liderança - que me merece o mair respeito e consideração, saliento - nem a linha preconizada por Telmo Correia - com a qual mais me identifiquei - souberam responder aos anseios de um eleitorado que facilmente poderia ser, num futuro próximo, eleitorado do CDS: falo dos jovens que votarão pela primeira vez em 2009 e de uma classe média desamparada ou indecisa e que se situa entre o PSD e o CDS, tradicionalmente.
Como é que se cativam empresários, trabalhadores não socialistas, jovens quadros entre os 25 e os 35 anos, rapazes e raparigas dos liceus e universidades se não se tiver um dicurso mais abrangente ideologicamente? Será com a linha da doutrina social da Igreja, exclusivamente, que se abarcará um eleitorado que se quer assumir de direita e que vê a sua pretensão esbarrada num conservadorismo sectário, invariavelmente de expressão reduzida? Quantos empresários não se voltaram para o PSD a seguir ao discurso de Luís Nobre Guedes no Sábado à noite?
A direita portuguesa precisava de um CDS de maior amplitude ideológica. Não alinho com aqueles que identificam isto com a sigla PP. Aliás, nunca suportei o PP nem tão pouco Manuel Monteiro. Acho mesmo que presta um serviço ao país aquele que tirar o tapete a Manuel Monteiro e a todos os nacionalistas-não-europeístas-novos/velhos que abundam neste país.
Continuo a acreditar numa direita arejada. Oxalá saiba o CDS representá-la bem.

Renovação Anunciada

Ela aí está: o nº 2 do CDS/exclusivamente democrata-cristão, é......... Miguel Anacoreta Correia.

segunda-feira, abril 25, 2005

Site da "Atlântico"

Dêem um olhadela no site da revista "Atlântico", a revista que promete agitar águas em Portugal.

O segundo número (é mensal) estará nas bancas na próxima quinta-feira. São 3 euros. Vale bem o dinheiro. Terão uma boa companhia para o resto do mês.

sábado, abril 23, 2005

Muita Fruta


Pinto da Costa

Consta por aí que o presidente do FCP gosta de oferecer "fruta para dormir" aos árbitros.
Já não se pode ser simpático?

sexta-feira, abril 22, 2005

O Surrealista

Eu sabia que ele não podia andar muito tempo afastado destas andanças. É bom saber que o Afonso Vaz Pinto também está na blogosfera. Para além do talento para a escrita que tem, faz o favor de ser meu amigo.

Entretanto, Afonso, já leste o Acidental em livro? Que tal?
Grande Abraço!

Alô Alô?

Pede-se a comparência de um tal de GONÇALO CURADO à redacção!
Este Sr. anda desaparecido há já algumas semanas. Se não der sinal de vida durante este fim de semana teremos que lhe descontar no ordenado de Abril.
Ai Abril, Abril....

Táva a ver que não, pá!

Mítico Nº 6

Adolfo, conto com a tua cultura made in 80's para glorificarmos a história televisiva nacional!
Aqui fica mais um: Raul Durão.

Míticos Nº 5



Boa noite srs. telespectadores. Bem vindos a mais uma noite europeia no Estádio José Alvalade.
O Sporting apresenta-se com Rodolfo Rodrigues na baliza, um quarteto defensivo composto por João Luis, Venâncio, Morato e Fernando Mendes; na zona intermédia está o capitão Oceano Cruz, bem acompanhado por Carlos Xavier, Litos e Mário Jorge. Na frente, duas setas apontadas à baliza do Grashoppers: são eles Ralph Meade e Marlon Brandão.
O tempo está quente.

No meu Imaginário...



Sempre tive no meu imaginário descer a Avenida da Liberdade em cima de uma chaimite. De preferência de mão na anca e bigode farfalhudo.
Para já vou-me contentado com isto e isto.
Obrigado camaradas Acidentais, pá!

Portentoso:

«Lá onde desponta a alvorada do Bem, crianças e velhos morrem e o sangue jorra».

VASSILI GROSSMAN

Quando falamos de Hitler, temos de ler Primo Levi

Hitler vai voltar a estar na berra. Pelo menos, enquanto o filme estiver em cena. Para quem vai entrar na sala, recomendo a leitura de “Se Isto é um Homem” de Primo Levi, a descrição do horror de Auschwitz.

E qual é a grande lição de Levi, um sobrevivente? Usando termos não-políticos (Bem e Mal – afinal, não estamos a falar de política, mas de um buraco negro ético), diria que a lição sensata de Primo Levi é a seguinte: a grande tarefa dos homens não é a construção do Bem, isto é, do HOMEM. A grande empresa dos homens é, precisamente, evitar que outros homens projectem o “mal” para esferas políticas.

Se queremos ser agentes benignos, não devemos criar utopias (jusante). Temos, apenas, que proteger a dignidade humana (montante).

Burke dizia qualquer coisa parecida - o Mal só precisa de uma coisa para triunfar: a inércia dos homens bons.

Sim, Hitler, infelizmente, era um homem

Novamente no 38. Novamente com meninas do Piaget. Duas. Convenientemente armas com Freud e Foucault, e, claro, ostentavam aqueles óculos de massa escura. O acessório típico da mente iluminada da Era Pós-Moderna.

Declamavam:

- Não gostei nada o filme do Hitler.

Como as percebo, minhas queridas. Nós, as mentes iluminadas, colocamos sempre Hitler no panteão de seres malévolos, situado para lá do nosso entendimento, para lá da nossa espécie humana. É como se Hitler fosse uma personagem de ficção sem existência histórica. Para o sossego das nossas consciências humanistas, caracterizamos Hitler como um monstro desumano, com a superficialidade de um vilão que tenta bater em Steven Seagal. Dizemos: “não é dos nossos; não era um homem”. Enganamo-nos, minhas queridas. É dos nossos. Era um homem. Por ser apenas um homem, Churchill, Roosevelt puderam destruí-lo. Se fosse um anjo luciférico, teria, simplesmente, esvoaçado para os quintos dos infernos.

Como afirmava Hannah Arendt, temos de nos reconciliar com um mundo onde “coisas” como Hitler são possíveis. Se não compreendermos Hitler enquanto homem, enquanto alguém que seguia ideias e não pulsões extra-humanas, estamos destinados a lutar com outro Hitler no futuro.

quinta-feira, abril 21, 2005

Saudade para Denis!




Como era bom, Henrique, ouvir o apito do Denis após ordem de Eládio - "un, deux, trois Denis!" - e vibrar com Ana do Carmo a puxar pela Sónia Vanessa e o Bruno Wanderlei de Algueirão de Baixo!

Granja, Sousa Veloso e Clímaco

Com Vasco Granja, aprendi que para lá do Muro de Berlim “só” havia bons desenhos animados. Mais: descobri que a Checoslováquia, afinal, era um país e não uma marca estranha de roupa.

Com Sousa Veloso, aprendi que, afinal, as laranjas não vinham do supermercado.

Com Eládio Clímaco, aprendi a torcer por Alverca, Amadora e Carrazeda de Anciães.

PS: Lamento, Bernardo, mas não aprendi nada com Vasco Lourinho.

Mítico Nº 4



Daqui Vasco Lourinho em directo de Madride!

Mítico Nº 3



E já de seguida um desenho animado na Checoslováquia, do conhecido Zvonimir Zabadupotchenko!
Até já amiguinhos!

Mítico Nº 2



E biba o Eng. Sousa Veloso!

Espaço Apresentadores / Comentadores de TV Míticos



Saudade para Eládio Clímaco!
O meu preferido.

O secretismo do Vaticano “versus” A Sociedade sem segredos.

Foi interessante ver o contraste entre a fúria da sociedade mediática e o secretismo do Vaticano. A nossa sociedade, viciada na informação rápida e no pronto-a-pensar, não suporta a existência de locais e instituições fechadas e com rituais que não se coadunam com a intromissão da câmara.

A nossa sociedade caminha para o pesadelo de Zamiatine: uma sociedade sem segredos, na qual as paredes são de vidro, onde tudo é público e nada é privado.

O segredo, mais cedo ou mais tarde, vai dar direito a prisão. Será de lei o seguinte: «qualquer acto, público ou “privado”, carece da presença obrigatória de uma câmara». Código de lei, algures em 2045.

Foi bom assistir ao secretismo do fumo branco. O mundo inteiro parecia plateia de Hitchcock.

A direita da calculadora

Hoje encontrei um amigo (de direita) no 38. No meio dos solavancos e das meninas do Piaget, ele lançou a farpa impertinente:

- É pá! Pensava que o vosso blog era de política. Andas para lá a escrever sobre música e arte. Quê isso?!!!

Vou fazer uma confissão: rompi os votos budistas e bati-lhe. As meninas do Piaget já queriam fazer uma sessão terapêutica, logo ali no 38. Disse que estavam a exagerar. Afinal, foi só um “caldo”. Sonoro, é certo, mas só um caldo.

E o meu amigo até merecia mais. Este meu amigo é um exemplar perfeito da direita da calculadora, a direita maioritária em Portugal. Esta gente pensa que a “cultura” é coisa para esquerdistas ou para homossexuais. Esta gente não é de direita. Esta gente só sabe o que são contas, raízes quadradas e saldos. Esta gente é positivista. Nunca leram nada liberal ou conservador. Têm Comte na mesa-de-cabeceira.

Se alguém quiser ajudar o meu amigo, ele está estendido à porta do Piaget. É que depois do caldo, entreguei-o à meninas do Piaget.

quarta-feira, abril 20, 2005

La Politica




Desculpem a insistência.
Este é o país onde se respira política por todos os cantos, cafés, livrarias, Câmaras, Senado, táxis, comboios, trams.
Ontem elegeu-se um Papa. Hoje cai um Governo. Por sinal o mais duradouro em 60 anos de democracia parlamentar.
Quest' è la Bella Italia!!

Atacar a esquerda não é o mesmo que defender a igreja

Para o meu grande amigo David,

Não sou, nem nunca seria jacobino. Se quiseres, serei maquiavélico. Ataco qualquer pretensão política da “Cristandade”, mas não tenho qualquer problema com a fé privada de cristãos. Se quiseres, sou um céptico que tem David Hume na mesinha de cabeceira. Está descansado. A Bíblia está na prateleira. Não tem grande destaque lá em casa.

E, de facto, quero continuar a ser dos poucos a separar “política de “religião”. Mas isto não significa que não ataque o espírito progressista. Não defendi a Igreja. Apenas ataquei a esquerda. É uma coisa bem diferente.

Calma com essa coisa dos aliados. Ratzinger até pode atacar o relativismo. Mas executa essa tarefa a partir de pressupostos completamente diferentes dos meus (liberalismo clássico). Ao contrário da esquerda radical, não sacrifico os princípios em nome de aproveitamentos tácticos circunstanciais.

Outro exemplo: imagina que Ratzinger apoiava a guerra do Iraque. Grande problema. Ratzinger estaria a apoiar uma acção política que conta com o meu apoio, mas estaria a fazê-lo pelas razões erradas (choque civilizacional). Enquanto apoiante da acção política que decorre no Iraque, criticaria este hipotético apoio de Ratzinger.

Já me viste mais longe da Igreja, porque quando era puto tinha a mania que Nietzsche era Deus na Terra. Mas não me aproximei em termos de fé. Passa-se apenas o seguinte: tenho mais frieza analítica. Só. Quando se lê muito, perdemos grande parte das nossas certezas de adolescência diletante. Quando era puto, dizia que era “ateu”. Hoje, concordo com Steiner: a resposta mais razoável é dizer que sou agnóstico. Ser-se ateu também implica uma fé.

Um abraço,
Henrique Raposo

PS: para quando uma noite de copos e política?

terça-feira, abril 19, 2005

O ruído progressista em torno de Ratzinger

Saúdo os meus amigos católicos. Como sabem, o meu problema não é com Cristo, mas com os velhos sonhos da Cristandade como projecto político.

Não conheço Ratzinger. Dizem-me que é um teólogo de mão cheia. Provavelmente o maior vivo. Pois bem, tentarei ler qualquer coisa saída da sua pena. Mas, por enquanto, quem não conhece o Vaticano, em geral, e Ratzinger, em particular, não deve fazer grandes comentários substantivos. É esperar para ver.

Mas, mais uma vez, os progressistas não conseguem ficar calados. Ratzinger é “isto” e “aquilo”. Calculo que alguns até devem usar o termo “fascista”.

A relação dos progressistas com a Igreja é, no mínimo, curiosa. Fazem lembrar aquelas pessoas que afirmam desconhecer o “Big Brother”, mas que, curiosamente, sabem os nomes de todos os participantes.

Devido à expectativa dos últimos dias, foi possível traçar o perfil da relação do progressista com a Igreja. As conversas começam sempre da mesma maneira: os progressistas lançam desprezo sobre a igreja, qual força das trevas. Mas, depois, no decorrer da contra-argumentação, os progressistas começam a dar palpites em relação ao objecto odiado. No final, já traçam o glorioso caminho… progressista da dita Igreja.

No fundo, gostavam de ter uma Igreja de esquerda. Compreendo: “se não podes vencê-los, junta-te a eles”.

Se desprezam a Igreja, porquê tantos palpites? Porquê tanta desilusão com o nome do novo Papa?

Benedetto XVI




Como católico que sou, saúdo o novo Papa. Benedito XVI é o seu nome.
Aspecto curioso, apenas, é que a um Papa polaco suceda um alemão.
Talvez esteja na altura de o povo alemão - e também as novas gerações - deixar de ter o peso da História nos seus ombros e se reconciliar definitivamente com aquilo que em 1989 desejou ser: uma democracia pluralista ocidental, respeitadora dos direitos humanos.
Que muitos Estados possam dizer o mesmo de hoje em diante.

O Mundo Unipolar



Na minha opinião, o mundo é unipolar porque Roma continua a ser a cidade mais poderosa do mundo e Itália o país mais fantástico de todos.

segunda-feira, abril 18, 2005

A Culpa é do Sistema!

Escrevo sobre o que considero ser um dos principais responsáveis pelos portugueses andarem desiludidos nos últimos tempos e por Portugal se encontrar na cauda de uma Europa, também ela um pouco perdida - o nosso sistema! Nesta altura já estarão os leitores a pensar que também eu estou com delírios de tipo Dias da Cunha. Estejam descansados! Penso que ainda não cheguei a esse ponto (embora um maluco nunca tenha consciência que o é). Falo-vos do Sistema, enquanto conjunto de princípios que têm regido Portugal. Um Sistema baseado num Estado empregador e prestador de serviços, na antiguidade enquanto fonte de progressão na carreira, num conceito abstracto chamado "direitos adquiridos", numa desvalorização do mérito (ou pelo menos, numa não valorização). Este Sistema tem provocado uma estagnação assustadora na nossa sociedade. O português médio tem um objectivo: arranjar um emprego para a vida, através de um Contrato de Trabalho que o proteja contra qualquer tipo de despedimento (seja ele justo ou injusto), que contemple uma progressão na carreira com o passar dos anos e que não ponha em causa os tais direitos adquiridos, não se sabe bem por quem e porquê. É isto que faz o português feliz? Não! Permite, apenas, que tenha uma vida estável e previsível.
Será que a culpa desta situação é do português médio? Será que nós somos um povo preguiçoso e acomodado? Não, Não e Não! Salvo as devidas excepções, integrados num sistema que os incentive, os portugueses são tão empenhados, produtivos e trabalhadores como qualquer outro cidadão do mundo (muitas vezes até somos mais). Além disso, temos uma vantagem que muitos povos não têm: temos uma extraordinária capacidade de adaptação a novas realidades e de relacionamento com outras culturas.
Digo isto com esta certeza, porque estou a viver nos E.U.A. (por apenas mais duas semanas). Aqui, não existem empregos para a vida - hoje estou a trabalhar em Nova Iorque, amanhã poderei estar na California; aqui, um direito adquirido hoje, pode ser perdido amanhã; aqui, o ordenado ao fim do mês varia consoante a produtividade do trabalhador; aqui, a progressão na carreira consegue-se, apenas e só, através do mérito; aqui, não vale a pena ficar sentado numa secretária a contar os dias que faltam para o fim-de-semana, à espera que os anos passem para sermos promovidos, porque não seremos; não vale a pena ficar à espera que o dinheiro caia do céu por obra de um qualquer santo milagreiro chamado Estado, porque não cai. Aqui, o sucesso, a realização pessoal e profissional, conquista-se com mérito. Perante este cenário horrendo para uma CGTP, muitos pensarão: Coitados! Que maldade! Vive-se muito mal por aí! Lamento, por acaso, este sistema, não sendo perfeito (como nada na vida), até funciona. É um sistema motivante e desafiante. E o que é a vida sem desafios?
É também por causa deste sistema, que os E.U.A. são a maior potência nos mais diversos campos: economia, ciência, cultura (sim cultura), etc., etc. Esta potência não tem sido construída apenas pelos Americanos, mas também por cidadãos do mundo que encontram aqui as condições ideais para desenvolverem o seu trabalho. E porquê? Porque o sistema Americano é o melhor!
Também por aqui tenho encontrado portugueses com capacidades extraordinárias e reconhecidos pelo seu mérito: desde simpáticos e eficientes empregados de mesa, até professores catedráticos com posições de destaque no mundo académico.
Do outro lado do Atlântico, o meu rico país, continua amarrado a um sistema absolutamente desmotivante, defendido por interesses corporativos egoístas e suportado por uma Constituição redigida no tempo em que o país ainda falava em "abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno" (in preâmbulo da CRP).
Até quando?

Coragem Intelectual

Na mesma página do “Público”, dois exemplos de coragem intelectual:

Luís Salgado de Matos mete o dedo na ferida europeia: «não é de excluir que o Modelo Social Europeu impluda como implodiu o Comunismo».

Graça Franco recorda que um liberal clássico tem pouco a ver com a lógica exclusivamente economicista de certos neo-liberais de hoje: «Adam Smith […] era um simples professor de Moral […] Na sua busca das causas da riqueza das nações estava, exactamente, preocupado em estudar normas de moral social».

A música é igual para homens e mulheres

Caro AA,

Em relação à sua simpática amiga:

Tenho sérias dificuldades em aceitar essas diferenças entre “géneros”. Elas existem. Felizmente. Mas ocorrem em “fóruns” específicos... Transportar essas diferenças para áreas de apreciação puramente intelectual é uma acção, em meu entender, pouco rigorosa.

Não acredito nessa dicotomia. Não acredito que haja uma forma feminina e outra masculina de apreender algo que é abstracto, como, por exemplo, uma ideia política ou, neste caso, uma concepção estética. Ainda para mais, estamos a falar de música, provavelmente o elemento humano (a par da matemática) mais universal possível.

Já agora qual é a sua posição sobre esta pequena discórdia?

Um abraço,
HR

domingo, abril 17, 2005

O Papa Português e o novo D. Sebastião

Não se fala de outra coisa: o Cardeal D. José Policarpo poderá ser Papa.

Mais uma vez, Portugal está a criar um D. Sebastião.

Meus caros, não interessa se “temos” um Papa. Não interessa se “temos” um Presidente da Comissão Europeia.

“Mas não gostavas de ter um Papa português?”, perguntam. É-me indiferente enquanto cidadão de Portugal. Se D. José Policarpo for empossado, ficarei contente por ele. É um homem brilhante. Pode dar vida nova à igreja europeia. Mas só isso.

Se D. José Policarpo chegar realmente a Papa, Portugal voltará a estar na moda por um ou dois meses. E depois? Depois voltaremos ao novo desporto favorito – encontrar o novo D. Sebastião. Eu já tenho o meu: Mourinho para Presidente.

D. José Policarpo, enquanto Papa, não vai mudar nem melhorar Portugal. Portugal só vai mudar quando deixarmos de pensar a política e a sociedade como categorias dependentes de pessoas concretas. Um país deve depender de ideias e de instituições. Em Portugal, os “D. Sebastiões” passam, mas as ideias e as instituições ficam na mesma. É esse o nosso problema.

sábado, abril 16, 2005

Beethoven e U2: o Sublime e o Bom

Depois do diálogo agradável sobre Beethoven, um amigo telefona:

- Lá ‘tás tu com a música clássica.

Respondi:

- Pois, não fui dormir ao relento para conseguir um bilhete para a banda/consciência do globo, não é?

Retorquiu de imediato:

- “Os gajos da música clássica têm a mania que só eles é que sabem o que é bom”. E, depois, claro, lá surgiu a tirada relativista:

- Ninguém pode dizer o que é "música boa".

O que é "boa música"? Bom, essa é para a eternidade. Cada cabeça terá a sua sentença, aqui e agora, acolá e no passado, ali e no futuro. Mas, meus caros, existe um critério ou um chão comum que permite produzir uma escala gradativa de qualidade. A minha escala é esta: a “marselhesa” no sopé que causa náuseas e a “nona” no topo do êxtase. Os U2 ficam algures no meio.

Mas, então, qual é o critério? Resposta: a boa música é uma tirana. Retira-nos qualquer liberdade. Tornamo-nos títeres de colcheias. Explico melhor:

- Quando conduzia, tinha sempre o rádio do carro na “Antena 2” e na outra do Montijo (não me lembro do nome). Se, por acaso, as simpáticas senhoras resolviam colocar no ar a “nona”, a “quinta” ou a “sétima”, eu, então, mudava de estação. Porquê? Não se pode ouvir Beethoven e conduzir ao mesmo tempo.

Não se pode fazer a cama enquanto se escuta a “quinta”. Nem sequer se pode fazer amor ao som do "hino da alegria". Beethoven exige submissão total. Os órgãos passíveis de actividade enquanto Beethoven está no ar são apenas três, a saber: os tímpanos, os neurónios e o saco salgado no canto do olho. O resto está quedo, inerte, morto-vivo. É isso: somos múmias auditivas quando “Ludwig” está no ar.

A boa música é aquela que nos escraviza.

É por essa razão que não me rendo a U2 e afins? Enquanto oiço os irlandeses, posso estar a falar da epistemologia dos aborígenes da Austrália ou da caneca de leite azedo do pequeno-almoço. São apenas um acompanhamento. Quando os ouvimos, não ficamos petrificados. A sua música permite distracções. Podemos olhar para o lado (ninguém olha para o lado num concerto de Beethoven).

Os U2 (ou qualquer outra banda) até podem ser bons, mas não são sublimes.

Não estou à espera que muita gente concorde com esta defesa da cultura clássica. Também não quero convencer ninguém. Só pretendo uma coisa: explicar aos defensores da pop a razão da continuidade da música clássica, em particular, e da sensibilidade clássica, em geral. Mais importante: gostava que entendessem por que razão se pode chorar com uma música que não tem letra.

sexta-feira, abril 15, 2005

Uma crónica à Nelson Rodrigues

Tenho falado aqui de Nelson Rodrigues. As suas crónicas são deliciosas. Como costuma estar inscrito nas contra-capas dos livros do “Anjo Pornográfico”, essas crónicas destilam «filosofia do cotidiano» (gosto da rebeldia brasileira contra o “q”. O “q” não tem dignidade; é uma excrescência da nossa língua. E, ainda por cima, ajuda a criar a maior bengala – o “que”. Durante anos, recusei-me a escrever com o “que”. Hoje, já me reconciliei com o tipo, mas ainda não somos amigos).

Mas, voltando a Nelson Rodrigues, a blogosfera lusa tem um Nelson Rodrigues em potência. Chama-se Bruno Vieira, o proprietário do “julioiglesias”.

Aqui fica um exemplo da chamada «filosofia do cotidiano».

«Telenovelas

As melhores telenovelas são as planas. Personagens atormentadas, ambíguas, hesitantes, são boas em romances russos. Aguinaldo Silva não é Dostoievski mas eu tenho vontade de matar a Nazaré como nem Raskolnikoff a velha. Os bons são bons. Os maus são maus. Quem é que disse que a telenovela tem de se parecer com a vida? A telenovela não imita a vida. Imita a outra telenovela com mais audiência. Para ser mais exacto, imita os contos de fadas. Telenovela séria não é só um oxímoro. É um grande aborrecimento. O maior de todos. Maior do que o Mário Crespo a apresentar o Batatoon (bem, isso até podia ser divertido). Escrever cento e tal episódios de telenovela deve ser pior do que partir pedra numa prisão romena. Conseguir que em todos esses episódios nenhuma personagem sofra a mais ligeira alteração é digno dos maiores louvores. Eu, por exemplo, não consigo escrever um conto sem que ao segundo parágrafo tenha alterado o nome à personagem principal. Talvez seja por isso que a Globo ainda não me contactou»

Esteja onde estiver, Nelson Rodrigues está a brindar a este texto.

Bach, Kubrick e Borges “versus” Beethoven, Fellini, Garcia Marquez

Caro AA,

Concordo em absoluto: «Bach é sublime, uma experiência intelectual […] Beethoven destila Humanidade; ouvir Beethoven é uma experiência emocinal, primária, primordial».

Certa vez, li algures que Kubrick era o Borges do cinema. Ou seja, ambos são (nunca morrem) absolutamente cerebrais. O seu universo é apenas e só o da abstracção. Ou seja, repetiram no cinema e na literatura, aquilo que Bach fez na música. É como se a matemática e a arte se fundissem numa única peça.

Ex: Kubrick filmou a guerra do Vietname em Inglaterra. Não lhe interessa filmar os homens reais de carne e osso num cenário real. Apenas lhe interessava o tema da “guerra”. O grupo de actores, para Kubrick, era… gado. As personagens de Borges são também uma “porta” para as dissertações sobre os labirintos, etc.

Beethoven é, como V. diz, a plenitude da humanidade. Arriscando comparações “impossíveis”, diria que a fúria, o fausto, a voluptuosidade emotiva de Beethoven têm o seu paralelo na escrita turbulenta de Garcia Marquez e na volúpia humana do cinema de Fellini.

No cinema de Fellini e na escrita de Marquez, as personagens são tudo. Nós revemo-nos na humanidade emocional com que eles tratam as personagens. Como não chorar quando aquela personagem (não me lembro do nome) do “Cem Anos de Solidão” sobe aos céus? Como não sentir pena do “Patriarca”? Como não sentir uma volúpia terminal e lasciva pela Anita Ekberg na fonte romana? Em suma, como não chorar quando se ouve a “quinta”, a “sétima” e a “nona”?

Sinto um respeito intelectual inquebrantável por Bach, Kubrick e Borges. Mas aqueles que enviaria para o espaço para comunicar com quem quer que seja, aqueles que levarei comigo, só podem ser Beethoven, Fellini e Marquez. As linhagens românticas são uma desgraça na política, mas são divinas da arte (Roger Scruton).

Um Abraço,
HR

Bach e Beethoven

Um simpático visitante, António Costa Amaral, escreveu a seguinte resposta a um post sobre Beethoven:

"Bethoven: "the immortal God of Harmony" -- referindo-se a Bach... :)"

Percebo, meu caro. Bach é, de facto, a harmonia, a circularidade. Num concerto de
Bach, nós começamos num ponto e, no final, regressamos a esse mesmo ponto. É um círculo de harmonia.

Mas, Beethoven, se me permite, é o oposto: é o conflito e a ira, que depois são recompensadas pela redenção.

Um abraço,
HR

quinta-feira, abril 14, 2005

Nelson Rodrigues, a múmia e a filha desdentada

Às vezes, penso que os portugueses não lidam bem com a própria língua. Às vezes, parece que não nos sentimos bem quando falamos o “português”. Por vezes, parece que gostaríamos de falar e escrever em francês, alemão ou, mais recentemente, inglês. É como se não nos sentíssemos em casa. É como se o “português” não fosse um habitat confortável. É como se o “português” fosse uma samarra em dia de verão. É como se o “português” não fosse a nossa língua materna. Somos rígidos a falar. Falamos literalmente para dentro, como se tivéssemos vergonha de falar uma língua com séculos de história.

Uma “estória” para ilustrar. Estava em Londres com um grande amigo, a conversar num pub. Uma senhora senta-se na mesa ao lado. Às tantas, com aquela cordialidade curiosa dos ingleses, faz a seguinte pergunta: “os senhores são russos?”

Ah?!!! Como é que dois latinos podem parecer dois eslavos a conversar? Isto nunca aconteceria com dois espanhóis, italianos ou franceses. Porquê? Os espanhóis, os italianos e os franceses não têm vergonha da sua língua. Falam como vencedores, mesmo que não o sejam. Falam com amor à língua. Às tantas, o acto de falar é um acto de celebração nacional (sobretudo para os espanhóis. Em Espanha não há diálogos, apenas monólogos. São quantos os espanhóis? 50 milhões? Pois bem, então há 50 milhões de monólogos todos os dias do outro lado da fronteira).

Mas, por que “carga de água” estou a escrever estas barbaridades? Resposta: estou a ler, a sério, a obra do grande escritor brasileiro Nelson Rodrigues. A par do Millôr Fernandes, do Eça e do Pessoa, Nelson Rodrigues é, porventura, o maior fazedor de frases da língua portuguesa dos últimos 200 anos (peço desculpa pelo exagero… Mas será mesmo exagero?)

Com Nelson Rodrigues, sentimos orgulho no “português”. Aqui, percebe-se a grandeza da nossa língua. Aqui, o português tem potencialidades infinitas. Aqui, o nosso idioma é um barro macio, uma argila de elasticidade faraónica. Aqui, não há limites. Nelson Rodrigues (tal como Raduan Nassar, Guimarães Rosa, Manuel de Barros, etc), sente-se em casa quando escreve em português. Não pensa em francês para depois traduzir para português. Não. É português do princípio ao fim. Desde a nascente, no neurónio, até à foz, na ponta da caneta, é sempre o português que manda.

Ler o português brasileiro do Nelson Rodrigues pode ser uma boa terapia para a nossa timidez linguística. Proponho uma excursão à Fnac da Baixa. Está lá uma estante cheia de livros brasileiros. Vamos lá esgotar esse bendito móvel.

Quando acabar de ler a obra do Nelson Rodrigues (ou seja, quando for velho), vou outra vez a Londres. Vou para o mesmo pub. Vou ficar à espera da mesma senhora. Vou ficar à espera nem que seja da sua múmia ou da sua filha desdentada. E só vou sair de lá, quando ouvir: “os senhores são portugueses, não é?”.

Ode a Judite de Sousa

A Judite de Sousa é das pessoas mais úteis dePortugal. Fazer entrevistas-chave às 10 da noite é um luxo.

Obrigado pelo charme, inteligência e impertinência q.b.

Beethoven: um pingo de Deus

Não acredito em Deus. Melhor: sou agnóstico (o ateísmo também é uma fé). Mas, por vezes, tenho a impressão que Deus deixa cair um pouco de si. Para estes pingos de Deus inventámos um nome: “Arte”. Quando vejo um filme do Leone com a música do Morricone, sinto-me esmagado. Deus olha para o mundo da mesma forma que Leone olhava para um duelo ao pôr do sol.

Mas, o maior pingo de Deus é Beethoven. Se Deus, algum dia, usar da palavra, falará pela música de Beethoven. A “quinta” é a voz de Deus. Está lá tudo. Arrebatamento e o seu oposto: Melancolia. Ou seja, a “quinta” assenta na única dimensão que é exclusivamente humana: o recomeço, a redenção, a cura, isto é, a passagem da Melancolia para o Arrebatamento.

Schopenhauer dizia (já não sei onde) qualquer coisa como isto: se o mundo acabar, só uma coisa ficará a pairar no vazio - a “nona”. (Só trocava a “nona” pela quinta).

Portanto, vamos lá invadir o CCB. Os bilhetes são baratos. Se alguém quiser ser ungido pelo líquido divino, passe por lá. Quando as sinfonias de Beethoven estão no ar, “Deus” escreve-se com uma colcheia ou com uma clave de sol.

Outras refundações

"Expanding trade, fighting terrorism, building democracies, working together to fight against poverty and disease - these are some of the main goals that a strong trans-Atlantic partnership must have. But it is also very important to strengthen public support. In the last few years, for various reasons, the views of the American and European publics have drifted apart. We need to show our citizens the importance of nurturing this trans-Atlantic understanding. If America is the indispensable nation, Europe is the irreplaceable partner. "

Miguel Angel Moratinos (MNE espanhol), "It's time to renew the trans-Atlantic partnership", IHT

Pessimista ou Plural?

Alguém grita num colóquio: “mas Maquiavel era um pessimista e um autoritário”.

Os clichés, de facto, não morrem.

Resposta: Maquiavel era um pluralista.

O cliché diz que Maquiavel é o autor que inaugura o pessimismo antropológico. Seguindo Berlin e Skinner, preferimos dizer que Maquiavel abriu as portas ao pluralismo. Quando Maquiavel destruir a Cristandade como projecto político, destruiu uma concepção absoluta de HOMEM. Maquiavel é a primeira trave-mestra do pluralismo existente no Ocidente. Sem Maquiavel, Hobbes não seria Hobbes. Sem Hobbes, Locke não seria Locke. E sem Locke, os Iluminismos não teriam sido o que foram (o alemão – Kant; o francês – Voltaire; o americano – Madison; o escocês – Hume). Aquele senhor deu aquele grito anti-maquiavélico porque cresceu num ambiente intelectual criado, em grande medida, por Maquiavel. Paradoxo notável.

Por outro lado, Maquiavel recuperou a visão da antiguidade clássica: a “liberdade” e o “pluralismo” têm um preço: o conflito. A “unidade” e a “harmonia” têm outro preço: a tirania. Só há uma coisa a fazer: temos de escolher um dos lados. Maquiavel escolheu o primeiro. Ainda bem. O espírito maquiavélico é um dos grandes responsáveis pela destruição do mito da Cristandade. Das cinzas da Cristandade una, saiu o Ocidente plural.

Uma palavra final para os ditos optimistas antropológicos. Estes saem sempre impunes das asneiras que cometem. Criam uma utopia. A utopia massacra milhões. Não faz mal: cria-se outra utopia.
Por que razão as doutrinas ditas optimistas resultam sempre em massacres históricos? Porque têm uma única e maiúscula definição de HOMEM. O dito optimismo antropológico só pode existir se negar a pluralidade dos HOMENS. E se só há um HOMEM, então, só pode haver um Poder.

“Ó beleza futurista das mercadorias”*

Quiero decirte adiós

Aquí me encuentro en este monte
mirando abajo
Veo verdes de cien colores
que son árboles, ríos, huertos, campos.
Tú estás allí en aquel monte
yo diría que solitario.
Miras verdes de cien colores
y el mar abajo.
Quiero decirte adiós en esta tarde,
los verdes ya casi apagados.


Rafael Alberti

Os leitores do Sinédrio que não esperem de mim muitos momentos Abruptos como este, mas penso que esta será a forma mais pacifica de comunicar a minha resolução de terminar com as opções de comentários aos meus post. Não há muito mais a dizer e a decisão é tão unilateral quanto irreversível. Entre a colina e o vale a noite já cai escura e chegou a hora de voltar para casa.

* Copyright: Mário de Sá-Carneiro

Um Desafio a Bruno Vieira

Caro Bruno,

Pelo que li no seu blog, V. não parte de Rousseau. Por isso, já sei de uma coisa: V. não é da direita nacionalista nem das esquerdas que buscam incessantemente a “Unidade”. Outra consequência que advém da sua recusa de Rousseau é a seguinte: não se julga o centro do mundo. Nos tempos que correm, só isso é digno de registo.

V. é um pluralista.

Ora, o que eu gostava de saber é se V. é um pluralista de direita ou um pluralista de esquerda. Parte de Maquiavel? É bom relembrar que Maquiavel era um pluralista e não o monstro amoral do cliché. Parte de Voltaire (sim, é sempre bom fincar as diferenças abissais que existem entre Voltaire e Rousseau) ?

Um abraço,
Henrique Raposo

Para um Anónimo

Caro António Moniz

V. ainda não percebeu que a votação acabou. Já não há concurso, meu caro. Com aquela “qualidade” de intervenções, não era possível manter a coisa a funcionar condignamente. Começo a perceber a sua forma de estar aqui: V. lê a primeira e última linha. É chato ler, não é?

V. é o típico indivíduo que usa a “net” para descarregar a raiva que tem do mundo. Ou será que só tem raiva em relação a tipos de direita? Se quer ser homenzinho, pare de dizer coisas sem pé nem cabeça. O seu ego não me interessa para nada. Só quero saber das suas ideias. Onde estão?


Um abraço,
HR

PS: mas agradeço a atenção que dispensa ao Sinédrio. O meu ego está contentíssimo com a sua insistência de central de marcação.

PS: agora vou saber se V. é ou não funcionário da RTP, que gasta o dinheiro que eu dou ao estado na tarefa primordial de insultar o Sinédrio.

Direito de resposta: Afirmar não é Argumentar

Caro “Neuro Glider”

1 : nunca apaguei nada seu. V. não é mal-educado.

2 : Eu não tenho “verdades”. Já o escrevi aqui. Tenho apenas a humildade de me inserir numa determinada corrente política. Uso este “blog” para transmitir essa corrente. Só. Sei que hoje as pessoas não gostam de se confrontar com um indivíduo que sabe o que é, para onde vai e que, talvez mais importante, não se importa com a reacção do politicamente correcto. Azar. Só lê quem quer.

3 : Causa polémica? Ainda bem. É para isso que isto serve. Mas, atenção, exijo respeito e boa educação. Sim: apaguei coisas. Coisa de um profundo mau gosto e infantilidade. V. diz que é censura. Bom, se o conceito de “censura” também engloba o apagamento de comentários que, entre outras coisas, falam de “rotos” e “mamadas”, então sim, fiz censura. Mas, se me permite, o que eu fiz tem outra descrição: zelar pela boa-educação de um espaço que se quer público.

4 : Sei que não concorda comigo. Também não escrevo para convencer ninguém. Escrevo para debater no espaço público. Por isso, escusa de falar com essa raiva interior. Parece que estamos aqui a definir o futuro do mundo. Isto é só um blog.

5: Jacobino não é um “insulto”. É um termo político usado na historiografia e na teoria política. Quando o apelidei de jacobino, não o estava a insultar, meu caro. Estava, apenas, a situá-lo enquanto “filho” de 1789. Estou a introduzi-lo numa cosmovisão com dois séculos.
Na nossa era pós-moderna, as “definições” são apelidadas de “rótulos”. Mas, se V. é um jacobino, logo um “moderno”, deveria ajudar-me no combate aos pós-modernos. Tenho um amigo marxista que diz: «os conservadores e os marxistas têm um inimigo em comum: os pós-modernos». Se não existir uma definição, os nossos raciocínios serão apenas um vento que passa.


Se, por exemplo, V. me apelidar de “neo-liberal”, eu dar-me-ia ao trabalho de refutá-lo. Diria: “não, meu caro! Não sou neo-liberal. Não me revejo em Hayek. Sou apenas um conservador liberal ou, se quiser, um liberal clássico. Ao contrário do que se diz, Hayek não é uma cópia integral de Adam Smith”. Se V. acha que não é jacobino, então, tem de me provar. Não basta afirmar.

6: V. nunca apresentou “argumentos”. Um “argumento” não é uma “afirmação”. V. diz “a figura do século só pode ser uma escritor ou cientista”. Ora, no momento a seguir tem de provar o que diz. É por isso que os bons “posts” são longos. Argumentar leva tempo, meu caro.

7: Não sou católico. Sou agnóstico. Tal como Maquiavel, desconfio da “Cristandade” enquanto projecto ou influência política. Mas não tenho nada contra a fé em Cristo (esfera do privado). A minha análise a João Paulo II (frisei isso no post: veja bem) tem um prisma político. Só isso. Como inimigo do Comunismo, não posso deixar de perceber a influência da fé privada dos polacos na queda suave do Comunismo.
Mais: apesar de não ser crente, atacarei sempre aqueles que atacam a “fé”. As pessoas têm o direito a ter a sua “fé”, mesmo que eu não concorde com essa cosmovisão. E aqui, meu caro, está a diferença entre um maquiavélico (ataca apenas a Cristandade e não Cristo) e um jacobino - não distingue o político (Cristandade) do privado (fé em Cristo)

8 : Não argumento? Meu caro, quando lhe respondi, fiz exactamente isso: argumentei. Peguei no seu texto e analisei. Dei-me ao trabalho de “refutar”. Não fiz uma “afirmação” alternativa. Gostaria que fizesse o mesmo com aquilo que eu escrevo. É sinal de humildade.

9: Se responder, não responda com a raiva que o caracteriza. Tenha calma. Argumentar não é o mesmo que afirmar. Isto conduz-nos a outra coisa. Eu acho que os blogs devem ser locais públicos. Por isso, assino com o meu nome. V., aparentemente, acha que os blogs são locais privados, ou, ainda pior, lugares de impunidade protegida pelo anonimato ou pelo “nick”. Por isso, assina com um “nick”. Quando me responder, peço-lhe um favor: assine com o seu nome. Quando fizer isso, vai sentir a necessidade de medir melhor as palavras. Responda com calma e ponderação.

Mas, mais uma vez, obrigado pela atenção que dispensa ao Sinédrio.

Um abraço,
Henrique Raposo

quarta-feira, abril 13, 2005

“The Economist” e a “Newsweek”. Que têm em comum? São publicações liberais clássicas.

No meio do frango com caril, um amigo pergunta-me:

- ‘Tás sempre a falar do “liberal clássico”. Mas, afinal, o que é isso? Mas não és um conservador?

Aqui fica a explicação, companheiro:

Um liberal clássico é filho do Iluminismo Escocês (Smith ou Hume) e do Iluminismo Americano (Madison ou Hamilton). Tocqueville e Constant, por exemplo, são liberais clássicos (sim, a França criou alguns dos melhores liberais clássicos).

Para percebermos bem o “liberalismo clássico”, temos de distinguir esta corrente de correntes posteriores. Ou seja, dentro do Liberalismo, temos de distinguir o “liberalismo clássico” (primeira geração) do “utilitarismo” (segunda geração) e do “liberalismo social” (terceira geração).

- Ao nível político, os “liberais utilitários” (Bentham e, em menor escala, J. S. Mill) também defendem o estado liberal. Mas, numa escala moral, criaram uma ética perigosa: tudo da vida deve ser feito no sentido de dar prazer e evitar a dor. Ora, ao criar esta ética materialista, Bentham criou as condições para a terceira geração de liberais, que emergiu já no final do XIX.

- Se tudo se resume à satisfação pessoal, então, o Estado tem o dever de intervir na sociedade, a fim de proporcionar igualdade… prazenteira. Assim, nasceu o “social liberalism” ou “liberalismo contemporâneo”. Começa em T. H. Green (no final do XIX). Keynes e Rawls foram os grandes representantes desta corrente no XX. Estes autores exigem intervenção do estado, mas, atenção, o seu ponto de partida continua a ser o indivíduo e não uma massa anónima e irreal de gente, a dita classe.

Mas, acima de tudo, importa perceber o seguinte:

- Burke era um liberal clássico (apoiou a Revolução Americana). Quando em 1790, escreveu “Reflections on the Revolution in France”, Burke fez o seguinte: colocou os valores do Iluminismo Escocês no combate aos valores do Iluminismo Francês consubstanciados na Revolução de 1789. A reacção do maior liberal clássico perante a cosmovisão jacobina representa, no fundo, a fundação do conservadorismo moderno.

Portanto, "tento ser" um conservador burkeano ou, se quiseres, um conservador liberal. Como dizia Benjamin Disraeli: tendo ser alguém com princípios Whig, mas com uma predisposição Torie.

Intérpretes actuais da cosmovisão liberal clássica ou conservadora liberal? Fareed Zakaria (director da “Newsweek”), o “The Economist”, Peter Berkowitz, etc. Em Portugal, podem encontrá-los na revista “Atlântico”.

Um grande abraço e obrigado pelo frango a caril,
Henrique Raposo

Para Itália: Nelson Rodrigues

Bernardo, se me “conseguirem” ouvir, responde-me: Nelson Rodrigues é ou não o maior? Escusas de responder. Era uma pergunta retórica.

Acabei de comprar a “A Cabra Vadia” na Fnac. É um conjunto de crónicas do fatídico ano de 1968. Aqui, o bom Nelson lança ataques deliciosos aos “idiotas da objectividade” e à “esquerda festiva”, que, já nessa época, tinha o seu sustento no ódio aos EUA.

E: "Só os profetas enxergam o óbvio».

Um abraço,
Henrique

Revista de imprensa


Posted by Hello
"Bolton's the One ", William Kristol , The Weekly Standard
"Le non s'enracine ", Guillaume Perrault , Le Fiagaro
"Security Beyond Borders", Leslie S. Lebl, Policy Review
"The Rise of "Muslim Democracy", Vali Nasr, Journal of Democracy(PDF)
"The Orange Revolution", Timothy Garton Ash e Timothy Snyder, NYRB
"Billions of Promises to Keep", Kofi Annan, NYTimes

Duplos parabéns Acidentais e agradecimentos Extra - Terráqueos

O Acidental cometeu a proeza de se esquecer do seu próprio aniversário, mas os leitores não podem esquecer o seu contributo. O Acidental preencheu um espaço na blogosfera que cedo se tornou seu por direito. Da Esquerda à Direita o Acidental é a “potência indispensável” e está aí para ser odiado, amado ou ambos. Agora está duplamente de parabéns, pelo seu primeiro aniversário e pela sua transposição para as estantes de qualquer livraria perto de si.
O Sinédrio gostaria também de agradecer ao Pedro Mexia por nos apresentar ao seu público e por nos incluir nos seus favoritos. Já há muito que retribuímos a parte dos favoritos e o Fora do Mundo dispensa apresentações. A todos o Sinédrio agradece.

terça-feira, abril 12, 2005

Ainda os comentários

Penso que todos os blogs que permitem comentários já passaram por estas situações. O ímpeto para a criação do Sinédrio passou pelo aproveitamento das muitas divagações diárias que atormentam os seus autores. Quando algum de nós publica algum post gosta de saber que é lido, gosta de ser comentado ou criticado e de promover o debate. É com muito gosto que cada um de nós olha para o marcador de comentários e descobre que alguém resolveu conversar um pouco connosco. No entanto, tal como um post o comentário pode ser mordaz, irónico, satírico ou saturante, inquisitório ou complacente mas tem ter o mínimo de educação.
Por detrás da sondagem que foi apagada havia apenas a intenção de promoção do debate acerca de duas formas de divulgação e de crítica cultural e política. Cada um dos autores deste blog tinha o seu preferido, mas não deixam de ser duas pessoas que todos respeitamos, prezamos e lemos quotidianamente. Não foi nunca a nossa intenção criar um placar de supermercado barbaridades boçais, por isso pedimos as nossas sinceras desculpas aos visados e às várias pessoas que educadamente expressaram a sua opinião e as viram apagadas.
O Sinédrio não será nunca um espaço para ofensas ou insultos. Nenhum dos membros do Sinédrio tem tempo, disponibilidade ou paciência para ser “controleiro” de caixas de comentários. O censório lápis azul não faz parte de nenhum dos nossos estojos e não gostamos ter de apagar comentários, mas não nos escusaremos a fazê-lo. Disponibilizamos caixa de comentários mais liberal possível e gostamos de ler e de discutir opiniões. Em troca só pedimos educação e bom senso.

Muito obrigado a tod@s
Gonçalo Curado

Obrigado, "Professorices"

Três vivas para o estimado JVC do "Professorices". Apoiado a 100%. Mande sempre. Apareça.
A ler no "Professorices":

«Já tinha dado por encerrado o dia bloguístico quando a DK (sempre ela, provocadora como ninguém, ainda me dá cabo do repouso merecido) me mandou para outras paragens. Antes de seguir o seu conselho, devo dizer que me tenho sentido desconfortável, ultimamente, com as minhas criticas frequentes à nossa blogosfera. Sinto-me a escrever para um shopping, com meia dúzia de pessoas a valer no meio do cortejo dos barrigudos de fatos de treino roxo com faixas fluorescentes e de madamas com casacos de peles plásticas. Devo ter criado muitos anticorpos entre os bloguistas desprovidos de sentido de autocrítica. Mas insisto: com muito de bom, ela é, no geral, o espelho da mediocridade portuguesa. Sentimentalismo piegas, má poesia, crítica política rasteirinha, humor rasco, futebol, alguma quase-pornografia, é o mais lido, em versão internética de toda uma cultura pimba»

Bloggers de casa de banho

No sábado, o Sinédrio lançou um questionário público: prefere Pedro Mexia ou Prado Coelho ao nível da crónica cultural? Julgávamos que iríamos lançar um debate interessante, visto que exigíamos a justificação da escolha. Ou seja, pedíamos argumentos e não alarvidades.

Ora, boa parte das pessoas preferiu escrever alarvidades. Por vezes, temos a sensação que Portugal tem qualquer coisa de pré-cartesiano. Não existe “razão” ou “argumentação”, apenas emoção e uma espécie de defesa tribal do que é “nosso”.

Dada a “qualidade”dos “posts”, retirámos a votação do Sinédrio. É que as pessoas até podiam ser "seres tribais", desde que fossem bem-educados. Em Portugal, as pessoas confundem “ironia” com “falta de educação”. Estas pessoas, sob a conveniente capa do anonimato, dizem as maiores barbaridades. Barbaridades que nunca terão coragem de dizer na vida real (aquela coisa que está lá fora, longe da virtualidade salvadora). Para esta gente, a Internet funciona como uma espécie de escape, um divã de psicólogo grátis.

Os Blogs poderiam ser um espaço de debate sério e público. Mas para a maioria das pessoas parece que são apenas caixotes de lixo. Temos um conselho a dar: voltem a escrever no suporte favorito da imbecilidade: as portas das casas de banho públicas.

Para aqueles que levaram isto a sério, as nossas desculpas. Mas, novas votações surgirão no Sinédrio. No futuro, as pessoas que quiserem realmente dialogar poderão enviar os comentários para um e-mail. Depois, esses comentários serão publicados directamente no Sinédrio.

O Sinédrio é um espaço de debate público e não uma sala de comprazimento privado.

Grumpy Tasmanian Morning

Mãe: Joana, acorda filha! Já são horas!
JAD: NNNNNNNNNãããããããaããoooooo! Oh Mãe, ainda é cedo!!!! Fiquei até às 3 no Agito a discutir “Chiapas e o zapatismo campesino pós- Comandante Marcos”!!!!
Mãe: Vá tens de acordar, aqueles senhores simpáticos do DN telefonaram a pedir o teu artigo.
JAD: Esses liberais globalizados!

segunda-feira, abril 11, 2005

O Culto dos Deuses


Os "Deuses"

Continuando a análise do Gonçalo Curado sobre o editorial de José António Saraiva, acrescentaria um pouco mais:
José António Saraiva não vê razões para o endeusamento de personalidades como António Vitorino ou António Borges. Concordo, por princípio, não devemos endeusar ninguém. No entanto, consigo entender o sentimento que se tem generalizado em torno destas personalidades.
Todos nós conhecemos os resultados de vários anos de governação por parte de políticos profissionais. Pessoas que fizeram uma carreira política dentro do sistema assente: começaram cedo numa Jota, presidiram a uma secção do partido, no fundo, fizeram uma carreira de funcionalismo partidário, até chegarem a um lugar de destaque num qualquer governo ou município. Uma grande parte dos políticos de hoje, nunca construiu uma carreira, para além da política. Nunca geriu um negócio, uma empresa, nunca sequer trabalhou por conta de outrém, que não o Estado ou o partido. Até há pouco tempo tivemos um 1º ministro que se gabava de não ter casa, nem carro próprio, como prova de dedicação à causa pública. Sinceramente, não vejo nada de positivo nisto. Infelizmente, olhando também para o que se passa nas juventudes partidárias, não se vislumbra um futuro diferente.
Na verdade, o país necessita de pessoas cujo talento, trabalho e mérito, tenham possibilitado a compra de uma casa ou de um bom carro. Não é condição essencial serem ricos, mas se o forem, qual é o problema?
O que tem faltado à causa pública portuguesa nos últimos tempos, são homens e mulheres de sucesso. Homens e mulheres com uma visão mais abrangente do que a da simples construção de uma carreira política.
Os dois Antónios são, de certa forma, a personificação deste género. São homens que se têm destacado pelo mérito, construindo carreiras de sucesso além fronteiras. Mas, não deixam de ser também, apenas, dois exemplos, dos muitos portugueses de valor que têm vingado em Portugal e no mundo e que poderiam enriquecer a nossa actividade política.
No estado em que as coisas estão, é difícil a política atrair este tipo de pessoas: um sistema partidário fechado pelos profissionais, uma comunicação social que vasculha a vida pessoal e profissional das pessoas e que não suporta sinais de riqueza; uma remuneração muito abaixo das que as pessoas de sucesso recebem normalmente.
Uma larga maioria dos portugueses já entendeu que o sistema do carreirista político puro e duro tem sido mau para o país e daí o tal “endeusamento” destas personalidades.
José António Saraiva termina o seu artigo, dizendo que o endeusamento “Revela uma sociedade frágil, carente e ansiosa, pronta a correr atrás da primeira ilusão“.
Eu pergunto: porque será que a nossa sociedade está frágil, carente e ansiosa?

A ONU e o Escândalo

Primeiro: em Portugal, ninguém fala do escândalo que envolve a ONU (No Iraque, o programa de “Petróleo por alimentos”, ainda no tempo de Saddam, deu dinheiro a muitos burocratas da ONU). Percebo porquê. Não se pode criticar o Vaticano dos tempos modernos.

O nosso tempo vive marcado por uma obsessão: como destruir "Westfalia". Em 1648, o tratado de Westfalia colocou ponto final na intromissão do Vaticano nos assuntos dos diversos estados. Hoje, os defensores do ideal pós-nacional ou pós-Westfalia (Habermas à cabeça), precisam, exactamente, de uma entidade supra-nacional que tutele os estados. O ONU surge, assim, como o “Vaticano” desta nova Utopia legalista.

Segundo: na imprensa internacional, o debate tem girado em redor da pessoa do “Papa” da ética comunicacional, Kofi Annan. Sinceramente, não interessa saber se o “Papa” do diálogo resolveu dar uma ajuda à empresa do filho (“quando Deus mandou alguém à terra, mandou o filho”). O problema da ONU não reside em pessoas concretas mas no próprio funcionamento institucional. Com o perfil actual, a ONU é um desafio aos valores demo-liberais (Líbia, Sudão, etc. na presidência de comités relevantes…).

É preciso dizer: os estados não são todos iguais. Não estamos a falar de dimensão e poder, mas de valores e preceitos institucionais. Não podemos aceitar que um regime ditatorial tenha a mesma legitimidade de um regime demo-liberal, seja ele Portugal ou a Coreia do Sul (sim, porque a outra, a do tipo da poupa, até pode ser uma democracia, mas não é uma democracia liberal – era isto que o deputado do PCP queria dizer, não era?).

Se a ONU não der este passo qualitativo, continuará a ser um depósito de gente pouco recomendável. A ONU deve libertar-se do espartilho politicamente correcto, sobretudo dos complexos da agenda multiculturalista. Esta “corrente” impede qualquer crítica sensata sobre regimes não-ocidentais, e, simultaneamente, afirma que o Ocidente precisa de um suplemento vitamínico de outras culturas. De acordo em relação à segunda parte. Mas, francamente, não é nada de novo: o Ocidente sempre foi uma civilização de síntese.

Bomba Inteligente e Dean Martin

Cara Carla,

Muito Obrigado pelo “You’re nobody ‘til Somebody Loves You”, cantado pelo grande Dean Martin. Foi uma companhia neste fim-de-semana. Se o seu contador disparou para níveis estratosféricos, então, já sabe: fui eu.

É bom ouvir música que “fala” para o mundo e não para o próprio umbigo.

Um abraço,
Henrique Raposo

domingo, abril 10, 2005

O "felicific calculus" de Borges

No seu editorial do Expresso José António Saraiva interroga-se sobre as reais capacidades políticas de António Borges. Como arquitecto, José António Saraiva deveria saber que uma parte fulcral na construção de um edifício sólido são as estruturas. É óbvio que é nesse departamento que Borges actualmente se concentra. A sua comparência em Pombal permite-lhe marcar presença no imaginário a curto-prazo das bases sociais democratas como um impulsionador não-divisionista que escolheu o momento para o contributo e não para o assalto arrogante à liderança. Daqui a dois anos, quando se entrar na segunda etapa da corrida pelo regresso ao poder menos vozes basistas se interrogarão sobre “o que é que ele já fez pelo partido” e Borges será a principal ameaça à liderança transitória de Marques Mendes. Sustentado por uma plataforma liberal, Borges segue uma estratégia de médio prazo com “fundações anti-sismo” na qual o próprio procura personificar o puro espírito meritocrático de Bentham.

Tédio borracheiro = “José quem?”

O tédio salazarento era uma morte lenta em que os portugueses estavam todos condenados a viver, calar e esperar. O tédio democrático do Governo Sócrates será como o bom tédio da vida real o genuíno; saudável; que ajuda a dar valor às coisas realmente excitantes deste mundo. Que bem que me saberia, na véspera das próximas legislativas, não me lembrar se o Governo tinha sido bom ou mau! Aliás, nem sequer fazer ideia. Adoraria. Perguntaria à minha mulher e o que ela dissesse, pronto, aceitaria cegamente. Coisa que nunca faço nem fiz. Mas - lá está - são as vantagens do tédio democrático. E falo com o mero turista que sou. "Querida", direi eu quando tiver chegado à última página do Spectator, "desculpa interromper a tua leitura - mas, como amanhã tenho de votar, tens ideia se este Governo do Sócrates que agora acaba foi bom, aceitável ou mau?" O mais provável seria ela pensar um bocadinho e dizer "Ai, querido, se queres que te diga, também não sei Como era o nome do primeiro-ministro?" Não há melhor sinal que terá sido um bom Governo.”
Miguel Esteves Cardoso, "Bendito Tédio", DN

sábado, abril 09, 2005

O êxodo


O pai tirano

Daniel Oliveira é guardião da salubre ortodoxia, salvaguarda da doutrina revolucionária e orientador da auto-crítica. O mestre-escola do dogma e magnânimo disciplinador.

Lamerica, de Gianni Amelio, França/Itália, 1994 (review aqui)

O Sinédrio, via as suas entidades consulares em solo albanês, gostaria de comunicar a sua disponibilidade para receber refugiados políticos que aspirem à liberdade democrática.

sexta-feira, abril 08, 2005

Worst-case scenario

Espero que o MNE esteja a equacionar os próximos meses da Guiné-Bissau em termos de worst-case scenario. O regresso físico de Nino Vieira e o “regresso político” de Kumba Ialá não permitem que a diplomacia portuguesa fique presa a envergonhados pesadelos pós-coloniais.

"Raymond Aron and the End of Europe"

"Aron’s wisdom was, if you’ll pardon the expression, phenomenological. He cared about things and actions more than he did about ideological labels. I’ll give you an example. A key theme in much of his work--and one that I’ll return to before the end of this talk--is that until very late in the 20th century, people were judging events according to 19th-century conceptions. Particularly intellectuals, who had an understanding of socialism that time had already shown to be largely mythological. “In theory,” Aron wrote, “a revolution is defined as a liberation. Yet the revolutions of the 20th century seem, if not revolutions of enslavement, at the very least revolutions of authority.”

O Regresso



Amanhã volto a "casa".
Ci vediamo ragazzi!

Transição em centímetros



No Independente de hoje Adelino Cunha interroga-se se os 7 centímetros que dividem Marques Mendes (1,63m) e Luís Filipe Menezes (1,70m) podem fazer a diferença. Se as conspirações em fato de banho com Eurico de Melo, terão deixado ao jovem Marques Mendes tempo para ler Pessoa, este poderá responder com recurso a Caeiro:

"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."

Mas duvido que tenha tempo para o fazer. No mesmo jornal uma entrevista a Jorge Bleck permite antecipar a estratégia para “transformar Portugal” e que passará por um apoio transitório a Marques Mendes até António Borges, após conquistar séquito, conseguir conquistar as bases. Na lógica de Bleck e, decerto, de Borges, a liderança de Marques Mendes será como o “lusco-fusco”, 5-7 minutos e D. Sebastião vai a Pombal, não em rodagem, mas em test-drive. Duvido que vá de BX como Cavaco Silva.

Captar o momento

Lamento Bernardo, mas há momentos em Cascais que não se podem repetir.

quinta-feira, abril 07, 2005

Hospitais S.A., mas que não são S.A.

“Desejamos que haja nos hospitais um sistema empresarial que garanta uma maior flexibilidade e melhores condições para a gestão, mas queremos que sejam empresas públicas” - José Sócrates.

Eis o complexo socialista de Sócrates a funcionar. Mantém-se tudo na mesma, mas muda-se o nome para fingir que o Papá Estado é que manda. O país precisa de medidas importantes, não de malabarismos políticos.
Será que os portugueses nunca irão perder o medo da sigla S.A.?

"Imperial Liberalism"

"In a democratic age, ruling others is problematic. The notion that all men are equal does not sit comfortably with empire. Nevertheless, the idea of spreading the democratic system of government has great attractions. We need an orderly world, and democracies are in the long run more stable than dictatorships. Besides, like it or not, our democratic values are universal. If all men are equal, then oppression anywhere is offensive; it may not threaten our security, but it threatens our self respect, for we are involved in mankind...
...We are now in a democratic era...
Europeans talk of human rights and the rule of law while Americans talk of freedom and democracy, but they mean the same thing. For America the way to be good in a world of power used to be to isolate itself. That is no longer possible. Instead it seeks to remake the world in its own image. This is the European project also, though on a more modest, regional basis. We are all Wilsonians now. And we should understand that the true Wilsonian institutions are not bodies like the UN, but rather NATO and the EU, embodying the values of democracy and law."
"Imperial Liberalism", Robert Cooper, The National Interest

Vá em frente e vire tudo à esquerda. Quando entrar num beco sem saída chegou ao seu destino

Alguém usou o Yahoo para encontrar “o combate à ética paternalista cristã pelos pensadores liberais” e chegou até ao Sinédrio. Compreendendo a desilusão do recém-chegado leitor, permita-me redireccioná-lo para o Barnabé, que por estes dias vive o seu “cisma sino- iconoclasta”.

Depois de um post sobre o Dramático de Cascais um post sobre os pós Modernos! É assim o Sinédrio!

Tenho um dicionário/glossário para quem queira decifrar o post do Henrique.
Henrique, pá, sou teu amigo na mesma!!!!!!!

Para Toronto: Pluralismo não é Relativismo

Mau, Maria.

Um amigo:
- Pá, parecias um pós-moderno.

Calma. Não lhe bati. Aliás, percebi o que ele queria dizer. E, por isso, escrevi estas linhas para... Toronto. Destino: um grande amigo, outrora pós-moderno, o Gil.

Um liberal clássico é um “céptico pluralista”. Um pós-moderno é um “relativista niilista”. O primeiro não nega a existência da Verdade. Mas tem a perfeita consciência de que a Verdade está fora do alcance dos homens. Só conseguimos construir "conhecimentos" ou "significados" históricos sobre essa Verdade. A Verdade é eterna, mas o Conhecimento não. (o erro de monistas religiosos e racionalistas é pensar que podemos atingir a Verdade absoluta, isto é, a salvação absoluta – Berlin dixit).

Para um céptico nada é certo em definitivo, porque o conhecimento que temos da verdade é sempre histórico e, necessariamente, plural. E isto leva-nos para o centro da questão: não há “Homem” mas “homens”. Isto é, cada cultura ou escola de pensamento cria a sua versão, ou melhor, a sua narrativa sobre a verdade. Estas diversas teorias têm como objectivo tornar o mundo inteligível.

Ora, os relativistas pós-modernos não aceitam nem a verdade nem os diversas teorias. Não querem tornar o mundo minimamente inteligível. Não querem percepcionar o mundo.... o mundo é que deve percepcionar o pós-moderno. Não há pluralismo epistemológico, apenas relativismo epistémico. Não interessa aprender. O importante é afirmar.

Isto põe em causa a própria noção de realidade. O pós-moderno coloca-se no centro da realidade, que, de repente, é transformada num barro maleável, à mercê do capricho individual. O pós-moderno recusa qualquer “chão comum” que permita o diálogo, a discussão, a crítica. No fundo, repete a cosmovisão do ultra-romântico do XIX e do sofista da Antiguidade Clássica.

Um liberal clássico "procura ser" um intelectual público: a grande tarefa dos homens é questionar e comparar muito, afirmando pouco. Para um pós-moderno, a tarefa resume-se a isto: afirmar, afirmar e, se possível, voltar a afirmar. O verbo “questionar” desapareceu do seu curto dicionário. O pós-moderno "é" um intelectual privado. Vive fechado num quarto sem abertura para o mundo. Lá dentro, encontramos uma legião de gente. Que função tem esta gente? Resposta: oferecer um par de ouvidos.

Immortality



Pede-se a comparência destes senhores para um terceiro memorável concerto, algures no Coliseu ou no mítico Dramático de Cascais.
Sei que sabem porque o peço.
Há momentos na vida que nunca mais se repetem. Que este caso seja uma excepção à regra...

SBSR 2005

Entre 27 e 29 de Maio realiza-se mais um Super Bock Super Rock. O 11º, aliás. Que me lembre acho que só perdi o primeiro, numa altura em que ainda havia festivais e concertos à borla por aí.
Este ano a não perder: Audioslave, New Order, Iggy Pop, Moby e Incubus.

Os 10 mil

É um número redondo, apenas. Pequeno, mas extremamente importante para nós.
O Sinédrio não podia deixar passar o dia em que ultrapassámos os 10 mil visitantes. Começámos no dia 30 de Janeiro e já percebemos o que custa alimentar um blog com o mínimo de interesse. Modéstia à parte, agradecemos em especial a todos os que diaria ou ocasionalmente nos lêem e criticam.
O nosso obrigado.

Saul Bellow


O meu companheiro de muitas viagens decidiu apanhar um comboio diferente. Encontramo-nos por aí.

quarta-feira, abril 06, 2005

Greenpeace e o Folclore

Primeiro: a causa ambientalista não é de ninguém. Quando arrumo o lixo para a conveniente reciclagem, assumo o papel de ambientalista anónimo. Quando refilo com as madames que deixam os “lulus” fazer as necessidades no passeio, assumo a pele de ambientalista rezingão. Quando dou um “caldo” nos putos que deitam papéis para o chão, assumo papel de ambientalista violento.

Segundo: já não há pachorra para a Greenpeace e afins. Porquê? Em primeiro lugar, julgam que aquela causa é sua. Qualquer discurso que tente defender o ambiente tem de ter a sua benção. Depois, optam pelas formas de luta erradas. Suspeitam que certas empresas usam madeira ilegal? Então, provem as acusações. Não chega fazer folclore destinado ao “prime-time” do Telejornal.

- Ah, porque nós “calculamos” que esta empresa, eventualmente, está a usar madeira ilegal.

Reposta que merecem:

- Ah, pois, o vosso barco, eventualmente, está cheio de drogas leves, não é?

É muito fácil atirar acusações ao ar. Uma defesa séria do ambiente passa por um investimento na lei. Essas acusações até podem ser verdadeiras, mas têm de ser sustentadas legalmente. O folclore só beneficia os trastes que cortam ilegalmente a Amazónia (“os cães ladram e a caravana passa”). A Greenpeace e afins devem investir em advogados e em pessoas capazes de investigar os podres (vulgo: detectives).

Percebo porque não o fazem. Perderiam a fama de cavaleiros românticos. Se seguissem este caminho “legalista”, teriam de comparecer em tribunais, de fato e gravata, e não na TV, com as vestes... românticas.

Pergunta-se: querem realmente “salvar” o ambiente ou querem somente criar e manter uma fantasia ideológica? Querem ser os “bons” dum melodrama planetário que tem o “ “Ocidente” consumista como “mau da fita”?

Se realmente quiserem salvar o planeta, usem a lei e não o folclore.

terça-feira, abril 05, 2005

A Bolha do Falso Moralismo

Nada me diverte mais do que saber que George Soros, o grande ideólogo de política externa “daqueles dos quais não falamos”, foi condenado por um tribunal parisiense pela prática de insider trading. Um caso óbvio de “rebenta a bolha”!

Chefe Silva com consciência política

Para o fundador do New American Century e actual editor do Weekly Standard, William Kristol, o Chefe “Chomsky” Silva recomendou o doce da casa , enquanto que para Pat Buchanan (Henrique esta é para ti), a solução passou pela South Beach Diet: low on carbs and big on salads.

domingo, abril 03, 2005

O meu Papa, o Papa político

“L’histoire reconnaîtra qu’il a joué un rôle éminent dans la chute du communisme. Tôt ou tard, le système se serait effondré, mais le pape a accéléré cette évolution. Du jour où un Polonais accédait à cette fonction universelle, ce qui se passait en Pologne ne pouvait plus rester local et avait un retentissement dans les autres pays communistes. »
René Rémond, Le Monde
Não crente, mas de formação católica, curvo-me perante “o meu Papa”, o “Papa político” e o seu legado. Ao contrário do meu caro amigo Henrique, nem me vou dar ao trabalho de refutar o ridículo de certos comentários, mas não deixo de achar curioso a paixão de algumas vozes pelo acessório e a sua relutância em atacar o estrutural. É curioso e sintomático como se gastam parágrafos laicos (no bom estilo do livrinho de citações do presidente Mao) sobre o crucifixo e ninguém repara no quadro gasto e na fornalha oitocentista que aquece a sala de aula.

João Paulo II e os Jacobinos

Em resposta a um “post” do meu amigo Bernardo Pires de Lima, um simpático leitor jacobino espraiou a típica atitude totalitária. Gritou emocionado, fez afirmações explosivas, mas, naturalmente, não produziu argumentações. O costume. Mas agradeço. Assim temos algo para analisar. Aqui, meu caro, argumenta-se.

O dito leitor diz que João Paulo II “propagou a SIDA” em África. Brilhante é a ideologia aqui presente. Tão brilhante que ofusca os olhos do leitor. Ora, os responsáveis pelo avança dantesco da SIDA em África são os líderes (leia-se tiranos) dos diversos países africanos. Com raras excepções, os políticos de África encaram os seus territórios como coutadas privadas. Roubam, matam e enviam o dinheiro da ajuda internacional para a Suiça. Como é natural, os jacobinos “estão” proibidos de falar sobre isto. A santidade da congregação (leia-se: politicamente correcto) não deixa.

Mas o maior traço de jacobinismo é este: «os homens do século XX só podem ser filósofos ou cientistas». Destaco o “só podem”. É a velha cosmovisão totalitária a reaparecer em força. Aqui, a religião não tem dignidade e qualquer líder religioso “tem” de estar afastado das luzes da História. Para os filhos de 1789 e de 1917, João Paulo II, no máximo, mereceria uma nota de rodapé.

Percebo a raiva jacobina. A atitude cafeinada de João Paulo II reavivou a fé nos países do leste europeu. O atleta de Deus ajudou a comprovar o seguinte: “cultura” e “religião” não são presas fáceis para projectos políticos estruturalistas. Mais: ao reavivar a fé em regimes que negavam essa fé, João Paulo II contribuiu para a implosão quase silenciosa das estruturas comunistas. Sem uma linha de raciocínio que tenha em linha de conta a influência da fé cristã, não se percebe a queda suave do comunismo no leste da Europa. Não é por acaso que o KGB tentou assinar o João Paulo II. (E, atenção, não estamos a fazer qualquer declaração de fé. Isto é simples análise histórica).

Os marxistas (é verdade: ainda há marxistas) odeiam aqueles que venceram a URSS. Curiosamente, os homens que deram a estocada final no urso vermelho morreram com escassos meses de intervalo. No verão, Reagan (líder do “roll back” ocidental) deixou-nos. Agora, parte João Paulo II. Os dois receberam um tratamento injusto por parte da esquerda europeia. Percebe-se. Quando Fidel e o tipo da poupa da Coreia morrerem, aí sim, teremos lágrimas sentidas.

Estejam onde estiverem, Reagan e Wojtyla devem estar a conversar e a rir-se desta velha esquerda marxista, que, hoje, não passa de uma força reaccionária.

Giovanni Paolo II il Grande



Para mim, o Homem do Século XX.

sábado, abril 02, 2005

João Paulo II


Karol Wojtyla

Faleceu hoje, dia 2 de Abril de 2005, aos 84 anos, Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II.
A minha veia Católica resume-se, praticamente, à educação que tive; não vou à missa, não me confesso, não acredito e discordo de muitas posições assumidas pela a Igreja. Além disso, não sou de todo especialista em questões religiosas. Ainda assim, atrevo-me a fazer um pequeno comentário sobre João Paulo II.
Parece-me inegável que, nos seus 26 anos de pontificado, João Paulo II deixou uma marca muito forte no mundo. Conhecido como o peregrino, o Papa levou a sua mensagem aos quatro cantos do mundo, independentemente da raça, do regime, da religião de cada país; foi sempre uma voz de tranquilidade, paz, tolerância e respeito. Foi também um político, embora inteligentemente tenha sabido separar política e religião (ao contrário do que aconteceu em grande parte da história da Igreja Católica). Não nos podemos esquecer, por exemplo, do papel que teve no fim da “cortina de ferro” que dividiu a Europa até à queda do muro de Berlim. Foi sempre uma voz ouvida atentamente por todos os grandes líderes mundiais, da Direita à Esquerda, muitos deles nem sequer católicos. Foi um sofredor, sobreviveu a um atentado em 1981 que lhe tirou 30 cm do intestino (dois anos depois visitaria o seu agressor, o turco Mehemed Ali Agca, perdoando-o pelo seu acto), nos últimos anos lutou contra a doença de Parkinson que o consumia a cada dia.
Foi muito criticado por ser um conservador. É verdade! Para mim, o Papa e a Igreja Católica sempre defenderam ideias demasiado conservadoras. Por isso mesmo, respeito, mas não sou um seguidor. Mas, será concebível a existência de uma Igreja Católica liberal? Há coisas que são o que são e, se o deixam de o ser, perdem a sua identidade... Esfumam-se! É a mesma coisa que acreditar num comunismo democrático e liberal (não existe e nunca existirá).
João Paulo II cumpriu o seu papel ao ser um defensor dos valores fundamentais do Catolicismo.
Talvez não seja o momento adequado para discutirmos todas estas complexas questões.

O mundo perdeu um homem bom! Esteja onde estiver, que esteja em paz...

Pimp my ride

Caro Rui Tavares, não procuro reclamar alvíssaras, mas tenho a impressão que sei onde está o seu bólide (jantes de liga leve num Fiat Uno? Classy!). Já procurou na SIERRA-UNIFORM-CHARLIE-ALPHA-TANGO-ALPHA?

Hoje acordei assim...


Com o segundo aniversário do Bomba Inteligente. Muitos Parabéns do Sinédrio.