terça-feira, maio 31, 2005

Ode a um amigo

Hoje, um grande amigo escreveu uma frase olímpica:

«Desmontadas algumas verdades absolutas do léxico das opiniões públicas...» E continua.

Um abraço

Sou o porteito das "noites à direita"

Vai abrir um boteco novo: chama-se “noites à direita”. À quinta-feira é “ladies night”. A vodka é importada directamente da Sibéria. O vinho é nacional. Aliás, deixo já um aviso: neste boteco só se venderá vinho e vodka. Não há cá essas mariquices dos shot’s. E, mais importante, eu serei o porteiro. Requisitos para a entrada no estaminé: laço ou gravata; risco ao meio; e senhora pelo braço.

Agora a sério.

Finalmente, começa a surgir um movimento liberal em Portugal. Finalmente. A direita liberal e a esquerda liberal devem e podem juntar-se. Porquê? Porque são minoritárias em Portugal. O mainstream português é dominado por esquerdas e direitas velhas, reaccionárias, cheias de pó.

É tempo.

É tempo de acabar com a brincadeira reaccionária em Portugal. É tempo de começar a fazer a transfusão de sangue que este cadáver com 862 anos precisa.

Noites à Direita

Ao que parece, a direita liberal, na qual me incluo, começa a mobilizar-se em volta da iniciativa Noites à Direita.
Segundo esta ideia, a qual subscrevo na totalidade, - e julgo não ser excessivo se disser que a esquerda liberal também se regozija com o debate intelectual - discutir civilizadamente, desconstruir alguns mitos inerentes à direita portuguesa e, acima de tudo, juntar definitivamente pessoas ideologicamente próximas, são os objectivos principais do Noites à Direita.
Vale a pena levar a sério a iniciativa. Debate, pluralismo e um Portugal mais liberal são os propósitos a alcançar. Mobilizar não é uma coisa de esquerda, por isso apareçam.

Saudades



Via Arte da Fuga (o Sinédrio agradece a luta que estão a dar), descobri um grande e mítico blog.
Honra os 80's e faz esquecer o facto de o Henrique Raposo ser, a partir de hoje, cidadão francês.
Saudade para Henrique Raposo!

segunda-feira, maio 30, 2005

Vou ser francês. Vou votar Sarkozy

Via João Marques de Almeida, na Atlântico deste mês

Já gostava do tipo. Certa vez, ouvi Sarkozy pronunciar a palavra proibida para cá da Mancha: “Ocidente”. É verdade: Sarkozy é dos poucos ocidentais vivos na Europa Continental (Qualquer dia, o “ocidental” passa a ser espécie protegida – e, aqui, acaso brilhante, contaremos com a protecção dos ambientalistas-barra-multiculturalistas. Ou não? Os ocidentais não merecem protecção culturalista?)

Bom, mas agora não chega dizer que gosto do homem. É tempo de dizer que o homem é divino. Repare-se no que disse Sarkozy: «a grande conquista do modelo social francês é o dobro do desemprego do que em Inglaterra». Brilhante. Mais: diz que o problema da França «não é o excesso mas a insuficiência de liberalismo».

Já tenho os papéis da naturalização. Vou ser francês. Vou votar Sarkozy em 2007.

A demência francesa

Via Luciano Amaral, na Atlântico deste mês.

A empresa Google pretende digitalizar cerca de 15 milhões (repito: 15 milhões) de livros, a fim de os colocar gratuitamente (repito: gratuitamente) na net.

Qual foi a resposta do director da biblioteca nacional de França? Em vez de ficar feliz por esta fabulosa democratização da cultura, J-N Jeannerey afirmou que esta iniciativa era uma espécie de dominação americana da memória mundial. Brilhante. Brilhante reaccionário. Brilhante reaccionário francês. Os franceses, hoje, são reaccionários brilhantes.

Este indivíduo lança estas barbaridades porque nunca precisou de contar tostões para comprar livros. É porque é um dos dignos representantes da casta de privilegiados do estado social. Mais: se fosse o estado francês a fazer a coisa, esta iniciativa já seria uma “grande iniciativa cultural, comprovativa da especificidade cultural francesa”.

500 suspeitos de terrorismo detidos em Bagdad

A detenção de mais de 500 suspeitos de terrorismo na madrugada de ontem, em Bagdad, foi o resultado do novo plano de segurança do Governo iraquiano denominado "Operação Relâmpago". Mais de 40 mil efectivos da polícia e do exército neutralizaram ainda vários depósitos de armas no mesmo dia em que os atentados em Bagdad provocaram a morte de 23 iraquianos. Em Khala, a sul do país, um ataque à bomba causou a morte de um soldado britânico. A "Operação Relâmpago" provocou a reacção do grupo liderado por Al-Zarqawi, que colocou ontem na Internet um comunicado em que ameaça responder ao plano lançado pelo Governo iraquiano "Os esquadrões e as brigadas, dirigidas pelo xeque dos mujaidines Abu Mussab al- -Zarqawi, lançaram no domingo [ontem] uma operação, denominada 'Conquista do mártir Abderrahman al-Basri', planificada e supervisionada pelo nosso xeque". Mas, segundo revelou ontem o jornal britânico The Sunday Times, o líder da Al-Qaeda no Iraque, deixou o país para ser tratado de urgência no Irão, depois de ter sido atingido no peito por estilhaços de obus. Teerão, porém, desmentiu de imediato esta informação.

E ninguém diz nada!! O Iraque só é notícia se ocorrer um atentado fotogénico? Só se fala do Iraque quando as coisas correm mal?

Esta "sociedade da informação" é mesmo muito bem informada. Informa-se acerca daquilo que lhe interessa. Isto é, cria uma “actualidade” que não é necessariamente a “realidade”.

O Ácaro Europeu

Continuando o excelente post do Francisco,

Portugal, dada a sua posição geográfica, vai ser a porta de entrada desse estimável museu. Mal posso esperar. Aliás, já enviei os papéis para concorrer ao lugar de porteiro/segurança. Já existe uma delegação desse futuro museu em Bruxelas. Fica junto à delegação do azeite e por cima do escritório dos vândalos anti-globalização que usam fato e gravata (sim, porque a anti-globalização não é só coisa daqueles meninos que fazem cruzadas contra a água corrente).

Quando estiver a trabalhar à porta desse museu, vou espancar qualquer neo-liberal engravatado que ousar colocar o pé no "museu do pó". Eis o nome do museu: "museu do pó europeu". Será pó, mas como é pó europeu... não faz mal. É nosso. É pó de índole cultural.

Depois surgirão um multiculturalistas-barra-ambientalistas a defender a especificidade do ácaro europeu. Já estou a ver o slogan: “a América não tem ácaro como o nosso. A China nem sequer tem ácaro. Viva o ácaro europeu.

A França Reaccionária

Sarsfield Cabral acerta no alvo em “Reaccionários”, hoje no DN

As esquerdas francesas recusaram o dito tratado por medo do dito neoliberalismo.

(1) Onde é que está o “dito-cujo”? Neoliberal? Onde? Um liberalismo envergonhado e dissimilado, talvez.

(2) As pessoas que lideraram o protesto têm medo do liberalismo. Porquê? Em primeiro lugar, interessa saber quem são. E aqui a questão é simples: não são os desempregados e os mais pobres. São, isso sim, aqueles que estão entrincheirados nos lugares protegidos pelo modelo social europeu.

A questão central é esta: o liberalismo anglo-saxónico é mais eficaz no desenvolvimento económico e, atenção, na redução do desemprego. O que o liberalismo não faz é garantir empregos para a vida, ou seja, não protege os empregos já existentes. Injustiça? Pelo contrário, o estado social protector dos empregos existentes é injusto para quem não tem emprego. O estado social cria uma casta de privilegiados. Por isso, quando se cai no desemprego no modelo social, cai-se no desespero. Num modelo liberal, quando se cai no desemprego, cai-se no desespero, mas todos sabem que existe uma economia a funcionar pronta a receber novos trabalhadores. E, acima de tudo, toda a gente sabe que não existe uma casta de privilegiados.

É por esta e por outras razões que a taxa de desemprego da França é superior a 10%. É por estas e por outras que a taxa de desemprego dos EUA circunda os 5%.

Agora, quem é que é injusto?

Orgulhosamente Sós



Sem surpresa o "Não" à Constituição Europeia venceu em França. No entanto, não me parece que os franceses tenham votado contra o texto constitucional em si. Apoiando as posições dos partidos dos extremos, os franceses votaram contra tudo e contra todos: contra a entrada da Turquia na U.E., contra o liberalismo de inspiração americana, contra uma eventual perda da supremacia francesa na Europa. Poderia ter dito soberania, mas disse propositadamente supremacia. Os franceses vivem convencidos de uma realidade há muito inexistente: de que são superiores! E isso fê-los votar, com um sorriso nos lábios, contra. Isso fá-los dar quase 20% dos votos às ideias de Le Pen. Isso fá-los dar importância a um senhor chamado José Bouvé que tem como especialidade a destruição de MacDonalds. Convencidos que estão a demonstrar a sua força, a verdade é que os franceses acabam por revelar as suas fraquezas.Um dia acordarão e constatarão que vivem num país lindo, com uma cultura secular, com uma óptima gastronomia, mas com que futuro? Esperemos que não acordem tarde de mais. Com a força da Inglaterra, da Espanha e com a ascensão dos novos países, daqui a poucos anos, será a França a necessitar mais da Europa, do que o contrário.A Europa tem que seguir o seu caminho e compreender que está no meio dos E.U.A. e da China. Se não se une, se não aposta sem reservas num modelo liberal, se não se faz ouvir a uma só voz, qual é que será o seu papel no futuro? Ser o museu do mundo?

Não temos televisões

As nossas televisões não são bem televisões. São plataformas do “vox populi”. Já não há reportagens. Há apenas directos de meia-hora, repletos com a pergunta-chave da TV tuga: “como é que se sente?”.

Que tal começar por Chirac?

"A soma de todos os medos"

Estranha Era esta em que vivemos - uma Era de medo.
Medo do terrorismo.
Medo do liberalismo.
Medo da Imigração.
Medo da Turquia.
Medo do Islamismo.
Medo do Medo.
O não francês à Constituição Europeia tem uma leitura primordial - é a soma de todos os medos!
Vivemos tempos inquietantes.
E é nestes momentos que o ser humano se revela - ou atinge a grandeza ou se reduz à inexistência.
Vamos ver se o tempo do medo se transforma no tempo da grandeza.

Robespierre reloaded


Ontem, na Praça da Bastilha a França Republicana mostrou novamente o seu seio revolucionário. Mas este é um seio enrugado, mirrado e ressequido. Pertence a uma matrona septuagenária nas suas últimas incursões pelo Pigalle.

domingo, maio 29, 2005

« Sua cachorra »

Leio no Expresso que Miguel Cadilhe atribui a paternidade do presente défice, a.k.a. “o monstro”, ao Sistema Retributivo da Função Pública de Cavaco Silva, o que é apenas parcialmente verídico. Na realidade a paternidade do presente défice dissemina-se entre todos aqueles que, alguma vez, se referiram ao Estado como “Eles”. Um exemplo:

-“Quero abrir um negócio inovador em Portugal, com provas dadas em mercados estrangeiros, mas isto só vai para a frente se “Eles” me derem um subsídio por ser jovem empresário.”

O que é obviamente justificável. Toda a gente sabe que a melhor altura para se ser empresário é na pré-reforma.
O Estado não deve ser mais do que o garante das melhores condições para uma economia de mercado, promotor da coesão geográfica e social, mas em Portugal a subsidiocracia destronou qualquer vontade meritocrática. As razões históricas perdem-se no tempo, algures entre o Estado corporativo e o Estado “nacionalizador”, mas a consciência económica portuguesa ainda aspira a um Estado omnipresente, um grande latifundiário novecentista com interesses e participações tentaculares. .
Se a Economia de mercado pedisse um “Teste de Fidelidade” ao cidadão nacional, a “tentadora” só poderia ser a cartilha económica marxista.
Poderemos nunca vir a saber quem é o pai biológico do défice, mas cientificamente, estamos em condições de assegurar que a sua mãe era uma prostituta.

Túnel do Tempo

Deslargem-me que eu vou-me a eles.
















Concedo a derrota se encontrarem uma imagem dos míticos “Homens da Segurança” onde pontificavam Tozé Martinho e Nicolau Breyner envergando um boné dos New York Yankees.

Oh meus amigos....


Meus senhores, cá em casa mandamos a gente!

Oui à la défense de l'Europe !

"Pour que la notion de communauté de sécurité et de défense ait un sens, il convenait d'affirmer la solidarité entre les pays de l'Union ; c'est une autre innovation essentielle du projet de traité. Cette clause de solidarité s'applique en cas d'agression armée contre l'un des Etats membres, tous les autres lui devant «aide et assistance par tous les moyens en leur pouvoir».
Mais le progrès le plus essentiel réside dans la possibilité, pour une partie des pays membres, d'aller de l'avant, pour approfondir notre défense, sans fermer la porte à ceux qui souhaiteraient s'y joindre ultérieurement.
Les engagements, pris par les Etats sur les capacités militaires mises à disposition, sont placés sous le contrôle de l'Agence européenne de la défense instaurée par le projet. Tous les Etats membres qui le souhaitent peuvent en faire partie, et tous, sauf un, y ont adhéré par la décision de principe du 14 juin 2004.
Placée sous l'autorité du Conseil, l'agence est instaurée pour réaliser l'objectif global d'amélioration progressive des capacités militaires de l'Union et sera, à l'évidence, un puissant moyen pour le développement de nos industries de défense, secteur important en matière de recherche, de croissance et d'emplois.
Pour ces progrès considérables dans le domaine de notre défense et de notre sécurité communes, le projet de traité constitutionnel doit être ratifié par nos concitoyens. Il conviendra ensuite de le prolonger et de l'enrichir afin que notre communauté tienne toute sa place sur la scène internationale."

GUY TEISSIER, “Oui à la défense de l'Europe ! », Le Figaro

Peut-on encore être "tocquevillien" ?

"S'il convient de rester "tocquevillien" , a par exemple suggéré Alain Finkielkraut, c'est au nom de l'effroi qu'inspiraient à Tocqueville les dérives d'une démocratie qui s'imposait comme le régime à venir pour le meilleur et pour le pire. "Je veux imaginer sous quels traits nouveaux le despotisme pourrait se produire dans le monde" , avait ainsi écrit Tocqueville dans un texte célèbre. "Je vois une foule innombrable d'hommes semblables et égaux qui tournent sans repos sur eux-mêmes pour se procurer de petits et vulgaires plaisirs, dont ils emplissent leur âme. Chacun d'eux, retiré à l'écart, est comme étranger à la destinée de tous les autres." Au-dessus d'eux règne un pouvoir absolu qui ne cherche qu'à fixer les hommes "irrévocablement dans l'enfance" . La perspective d'une civilisation égalitariste dans laquelle l'esprit de grandeur civique et de solidarité cède la place aux loisirs abrutissants et ravageurs constituerait le principal motif de rester attaché à la pensée tocquevillienne."

« Peut-on encore être "tocquevillien" ? », Nicolas Weill, Le Monde

sexta-feira, maio 27, 2005

Notícia do mês

índia-paquistão Avança discussão sobre fronteiras

O Paquistão e a Índia iniciaram em Islamabad negociações sobre a desmilitarização do glaciar de Siachen, uma zona disputada pelos dois países, no extremo norte de Caxemira. As delegações reuniram durante três horas e deverão reencontrar-se hoje. No final destas discussões, está prevista a divulgação de um comunicado oficial. O Paquistão deseja o regresso à situação existente em 1984, contestando a ocupação pelos indianos de um território a grande altitude com escassos 10 mil metros quadrados. Embora a questão pareça pouco importante, o facto é que os dois países lutaram várias vezes a mais de 6 mil metros de altura para conquistarem pequenas vantagens. O glaciar em disputa fica numa região mal demarcada, nos Himalaias, entre a Índia, o Paquistão e a China. Em 1989, Nova Deli e Islamabad assinaram um acordo de desmilitarização que nunca foi cumprido. A luta pelo glaciar de Siachen insere-se no diferendo mais vasto da disputa pelo território de Caxemira, cuja ocupação pela Índia o Paquistão contesta. Mas a importância estratégica do glaciar esbateu-se após os dois países terem construído armas nucleares, em 1998. A negociação de hoje pode abrir caminho a discussões mais difíceis sobre Caxemira.

Um mau Primeiro-Ministro dá um bom diplomata

Um amigo rezingão:
- O Guterres vai fazer na ONU aquilo que fez em Portugal: porcaria.

Respondi:
- Não, meu amigo. Guterres vai fazer sucesso na ONU precisamente porque não teve sucesso como primeiro-ministro em Portugal. Um mau primeiro-ministro é um óptimo diplomata. Um diplomata não decide

42%

O governo anunciou um conjunto de medidas para combater o défice.
Claro está que nada de essencial é atacado: "é a vida"!
Não merece que se perca muito tempo.
Porém, umas linhas para uma das medidas anunciadas pelo primeiro - ministro: a introdução do escalão de 42% para rendimentos superiores a 60 mil euros ano.
Vamos ver se as minhas contas estão certas:
60 mil euros é igual a 12 mil contos.
12 mil contos a dividir por 12 dá mil contos por mês.
Como as declarações são por agregado deve-se contar o ordenado do Homem e da Mulher, o que dá 500 contos por cabeça.
Ou seja, um casal em que ambos ganhem 500 contos por mês passa a ser tributado a 42%.
Se as minhas contas estão certas não há dúvida de que se trata de uma medida contra as "grandes fortunas"! (embora se perceba o sentido político; em quem vota geralmente este tipo de pessoas?)
Acresce que por este andar, mais vale um dos membros do casal deixar de trabalhar. Pois o seu ordenado vai praticamente todo para o Estado. Se deixar de trabalhar e se tornar dependente talvez ainda receba mais...

IVA - Espanha = 16% / Portugal = 21%

Cada vez estamos mais competitivos.
Estou em choque...fiscal.

quinta-feira, maio 26, 2005

Para a Marta

Assim sou sem ti: tudo passa em vão no extremo de um inacabado círculo, incompleto planeta que menos se vê, nem o céu lhe assiste na íngreme descida sem destino ou deriva.
Agora, fica, digo, não vás, quando jamais irada a teu lado durmo qual sangue em que ferve o mundo. Quieto ser.
Talvez colhamos inteiro em seu tempo o fruto.
Hoje inamovível teu rosto enxuto, nunca morrente, em mim se eleva como o sol do meio-dia inclinando-se doce e suave nas asas de um anjo.

[Ana Marques Gastão, Nocturnos]

quarta-feira, maio 25, 2005

Digno de Monty pythons

A Al-Qaeda anunciou, num comunicado [itálico nosso], que Al-Zarqawi foi ferido...

Burke e o défice

Poiares Maduro é um dos melhores cronistas da praça. Aqui fica a lucidez de hoje:

O défice é "democraticamente" decidido por uma geração e pago por outra geração. Muitos daqueles que acarretarão com os custos não têm ainda direito de voto. Neste sentido, as decisões orçamentais, ao vincularem cidadãos que não participam nelas, sofrem de um défice democrático.

Esta é a grande verdade do défice. Eu, com 25 anos, vou ser escravo de quem tem agora 55 anos.

Burke acreditava, e bem, que a melhor sociedade é aquela onde existe um contrato tácito entre mortos, vivos e, talvez mais significativo, aqueles que ainda não nasceram. Ou seja, os vivos não devem hipotecar o futuro das gerações futuras. Ora, com um défice de 7%, os portugueses de hoje estão a dizer o seguinte às gerações futuras: “Vocês que se lixem”.

Maus Tratos

Relatório da Amnistia Internacional denuncia maus tratos por parte da polícia portuguesa. Pena que não se lembrem também de publicar um relatório sobre os maus tratos sofridos pela polícia portuguesa...

Sugestões de Leitura

Muitos tugas juntos dá nisto

Como não sou de esquerda nem tão pouco ressabiado, felicito António Guterres pelo cargo alcançado ontem. Já temos um tuga na ONU, um tuga na presidência da Comissão Europeia, um tuga melhor treinador do mundo, um tuga quase-Papa, um tuga top na ciência, um tuga na Fórmula 1, um tuga aqui.... um tuga ali....
Chego à conclusão que o mal é existirem muitos tugas juntos. Dá no Portugal que conhecemos.

terça-feira, maio 24, 2005

finalmente

«O terrorismo islâmico é a maior ameaça contra o Ocidente para os próximos 20 anos», Philippe Massoni, do Conselho de Segurança Interior de França (DN).

É bom ouvir franceses que ainda usam a palavra proibida, a palavra que foi banida pelos capatazes da esquerda reaccionária: "Ocidente".

Força, Ângela

Estou ansioso pelas próximas eleições na Alemanha. Angela Merkel, a líder da CDU, poderá chegar a chanceler. Será, aliás, a primeira mulher a candidatar-se a primeiro-ministro na Alemanha. Criticou a posição alemã em relação à guerra do Iraque. Não engole sapos multiculturalistas para agradar ao politicamente correcto. Tem o meu voto.

O PS, o Governo e...Nós

Temos o défice mais alto da zona Euro - 6,83%. Após alguns anos em que nos enfiaram na cabeça que algo de relevante estava a ser feito para combater o monstro, chegamos a 2005 e verificamos que afinal todo o pseudo esforço do Estado foi em vão. Perante esta triste realidade, os nossos governantes e o partido que os suporta parecem ter ficado totalmente surpreendidos e chocados. E agora? Por um lado, temos o aparelho do PS que não está disposto a nada que não seja deixar tudo como está e, se possível, que se arranje mais uns jobs. Ainda na Sexta-Feira passada assisti a um belo espectáculo de Jorge Coelho em Faro que gritava que não seriam instaladas portagens na via do infante, que seria construído o novo hospital do Algarve, no fundo, que tudo seria um mar de rosas. Por outro lado, a manchete do Expresso dizia que se o governo PS não aceitasse tomar medidas difíceis para combater o défice, o Ministro das Finanças demitir-se-ia. Em que é que ficamos? Sócrates tem um mandato para mostrar quem é que manda: se o aparelho socialista no governo, ou o contrário.

Parece que está para muito breve o anúncio das medidas do governo para combater o défice. Não gosto de fazer prognósticos, mas arrisco afirmar que não serão as medidas propostas que matarão definitivamente o monstro.
A razão do défice excessivo está há muito identificada: despesa do Estado. Os governos PSD aumentaram os impostos e cortaram em meia dúzia de despesas relativamente insignificantes do Estado. O resultado está à vista. Temo que o caminho do actual governo seja exactamente o mesmo. Se for essa a solução, aposto que daqui a uns tempos estaremos com os mesmos lamentos. O problema do Estado não é falta de dinheiro, mas sim, falta de organização. Quando aparecer um Governo corajoso, disposto a enfrentar todos os interesses corporativos que se movem em Portugal e com um objectivo claro de organizar o Estado, de o reduzir, de o desburocratizar, de o tornar eficiente, talvez possamos um dia mudar de assunto. Até lá, contentamo-nos com o futebol, as p.... e o vinho verde.

segunda-feira, maio 23, 2005

"Grande Lapa"

O "Grande Lapa" tem um blog. O "Grande Lapa" é um velho amigo de liceu, noites da linha e vida romanista. Roma pôs-nos em contacto próximo, como bella città que é. Sei que está em Londres agora, a trabalhar na BBC (dá notícias!). Agradeço-te, André, as simpáticas referências que aqui me fizeste. Tenho lido o teu blog. Continuas em grande. Abraço de Lisboa!

Post Para Tirar Aquela Foto do Écran IV!

Post Para Tirar Aquela Foto do Écran III!

Balanço da BT da GNR refere 39 feridos graves: Acidentes de viação fizeram 17 mortos na semana passada

Post Para Tirar Aquela Foto do Écran II!

Ministro Luís Campos e Cunha: Défice público é de 6,83 por cento do PIB

Post Para Tirar Aquela Foto do Écran!

Schroeder está quase a ir embora...

domingo, maio 22, 2005

Grazie SLB

sábado, maio 21, 2005

"Réflexion faite"

sexta-feira, maio 20, 2005

atenção: operação de propaganda em curso!

Li ontem o artigo do Pacheco Pereira no "Público". A não perder.
Há algum tempo que pretendia escrever sobre o assunto, agora basta recomendar a leitura do artigo.
Digo apenas que também não gosto que me tomem por parvo!
Por isso sr. Primeiro - Ministro, sr. Presidente da República, sr. Governador do Banco de Portugal, srs. Jornalistas (ou alguns srs. Jornalistas): a manipulação também requer sofisticação. Ao menos sejam excelentes e não óbvios.
Peçam ajuda ao Prof. Marcello Rebelo de Sousa...

Procura-se


Saci Pererê

O Sítio do Pica Pau Amarelo está em alvoroço. Saci desapareceu. Pior: foi visto na Guiné Bissau utilizando o nome de Kumba Ialá. Pior ainda: autoproclamou-se presidente daquele país.
Volta para o Sítio Saci.

Oui, bien sur !


Ninguém quer ver a Europa de costas

Ainda que a iniciativa de Pacheco Pereira possa constituir um dínamo válido para a promoção do debate doméstico, ela parte de premissas erróneas. Ao contrário do que afirma JPP, uma Europa constitucionalmente integrada, não só sobreviveria à crise do Iraque como minimizaria eixos Paris-Berlim e práticas de cherry picking como os “Vilnius 10”. Fantasmas de “cadeiras vazias” não podem assombrar a viabilidade de um uníssono europeu em política externa e a legitimação da UE como actor internacional.
De facto, o texto constitucional europeu é “pesado”, “burocrático” e de "difícil compreensão", mas este é um documento legal que procura integrar institucionalmente 25 Estados europeus, não é um flyer para a Festa da Espuma na Kadoc.

Insultos insultuosos

Não é que goste particularmente do Benfica, mas até um insulto deverá ser uma forma de arte, sórdida e sibilante. O consagrado “Benfica é merda”, não só falha em apresentar o ónus da prova como só poderá ser o produto de um poeta frustrado da Brandoa nas suas primeiras incursões por haikus.

quinta-feira, maio 19, 2005

Terrorismo judaico e as 4 guerras

O novo chefe do Shin Bet (serviços secretos internos israelitas), Yuval Diskin, afirmou-se ontem inquieto com os riscos crescentes no país face à eventual emergência de um "terrorismo judaico". Em declarações perante a comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, Diskin considerou ser "necessário preservar o direito democrático de protestar, mas impedir a eventual emergência de um terrorismo judaico", revelou a rádio israelita. "A sociedade israelita não iria tolerar um outro assassínio de um primeiro-ministro. Isso provocaria uma onda de choque estratégica", disse Diskin, citado pelo diário Haaretz, numa alusão ao assassínio, em Novembro de 1995, do então primeiro-ministro trabalhista Yitzhak Rabin por um extremista judeu que se opunha ao processo de paz com os palestinianos

Infelizmente, é muito provável o surgimento de atentados perpetrados por fanáticos da direita religiosa israelita. Caso sucedam, serão um efeito perverso e indirecto de uma causa positiva: o avanço do processo de paz. Para o processo ganhar vida, Israel vai ter de sair dos territórios que anexou depois de 1967. Felizmente, lá mais para o final do ano irá retirar da Faixa de Gaza. Finalmente. Mas isto, claro, provocará (aliás, já provoca) irritação junto dos sectores radicais da sociedade israelita, junto daqueles que sonham com o “Grande Israel”. Nem por acaso: estes radicais vivem sobretudo nos colonos… Por isso, é muito provável que sucedam alguns actos de terrorismo israelita. O fanatismo religioso não é exclusivo muçulmano.

Mas, atenção, os (hipotéticos) autores destes atentados terão sempre uma certeza: serão presos ou julgados. Ou, caso optem por morrer como mártires imbecis, serão abatidos pelo exército ou pela polícia do estado democrático de Israel. Por isso, queiramos ou não, a grande questão continua a ser a mesma: conseguirão as legítimas autoridades palestinianas controlar os fanáticos do seu lado?

Porque, como já afirmou Michael Walzer, existem quatro guerras neste cenário. Duas legítimas; duas ilegítimas.
1ª Legítima: guerra israelita pela segurança de Israel dentro da fronteira de 1967.
2ª Legítima: guerra palestiniana para criar um estado independente.

1ª Ilegítima: guerra israelita em nome do Grande Israel
2ª Ilegítima: guerra palestiniana para empurrar os israelitas para o Mediterrâneo.

A chave do problema sempre foi o controlo dos grupos que conduzem as duas guerras ilegítimas. Israel, sendo um estado de direito, tem as condições para minimizar os efeitos dos seus radicais. Arafat, ao invés, nunca teve a coragem para pôr termo às actividades do Hamas e companhia. Arafat nunca quis ser um estadista (quem é herói romântico um vez, será sempre herói romântico). A grande esperança actual reside precisamente na postura de estadista de Mazen. Resta saber se conseguirá os meios para controlar o Hamas.
E, neste sentido, Israel tem de ajudar o novo líder. Pode começar por fazer o seguinte: retirar de Gaza em coordenação com Mazen. Esta coordenação impediria que Gaza ficasse à mercê do Hamas. Se Sharon retirar sem dar cavaco a Mazen, estará a criar um duplo problema: (1) enfraquecerá a autoridade palestiniana, pois o Hamas ficará dono e senhor daquele território; (2) Gaza transformar-se-á num enclave para os terroristas do Hamas, logo, será um problema para Israel.

Good enough for Angelina, good enough for me…


A Spectator mais uma vez prestou um serviço público, agora em dose dupla. Primeiro deu-nos a conhecer o gosto de Angeline Jolie pela literatura erótica do Marquês de Sade (auch!), o que só por si fará maravilhas pela circulação subcutânea de muito boa gente. Segundo, ficámos a saber que no seu sofá repousa a mais recente obra de Jeffrey Sachs.
Não se deixar enganar pelo prefácio de Bono. Jefferey Sachs não é o protótipo intelectual anti – globalização, mas antes o produto académico de Harvard, responsável pelo Earth Institute da Columbia University e conselheiro de inúmeros executivos inflaccionários.
O que é surpreendente em Sachs é que ao contrário de todos os recorrentes planos para a erradicação da pobreza, o seu não faz o meu (delicioso) Spaghetti Alla Boscaiola depender da capacidade de produção de manjerona de um pequeno agricultor no Mali.
Para Sachs a solução passa pela disseminação de capital de uma forma global. Incursões maciças de capital ocidental em África sob a forma de investimento ou produção deslocalizada é a receita liberal para a elevação do capital infra-estrutural e humano local. Para Sachs o outsourcing ocidental da produção, ao contrário da cartilha anti-globalização, será benéfico para o Terceiro Mundo, uma vez que o livre capitalismo empresarial trará como resultado directo a difusão in loco de capitais.
Good enough for Angelina, good enough for me…

quarta-feira, maio 18, 2005

Live From Los Angeles, California...


Poesia e música juntam-se postumamente ao sabor de Jack Daniels. Não é o melhor álbum de Doors, mas é o melhor para quem os quiser compreender.
Obrigatoriamente em vinil.

Bicho Carpinteiro

Há um Bicho Carpinteiro que se vai sentar ordeiramente na novíssima lista de Links. Promete animar.

terça-feira, maio 17, 2005

Conversas com o Estado

Depois de vários meses em que fomos embalados pelo governo PS ao som de lindas promessas: Scuts sem portagens, emprego para todos, choques tecnológicos, TGVS, aeroportos, hospitais, eis que o Estado acordou e constatou: "Mas eu não tenho dinheiro!!!"

Pois é, que grande chatice, não tens dinheiro, não tens credibilidade, prestas maus serviços, no fundo, estás falido. Como é que isto se vai resolver? Lamento, mas não me parece que resolvas esta situação com aumentos de impostos ou através do recurso a receitas extraordinárias. Podes nos enganar mais uma vez, mas não te curas. Além disso, qual é a justiça de nos tirares mais dinheiro, não para nos dares melhor educação, justiça e saúde, mas para pagares ao Manel e à Maria que estão há 20 anos sentados na secretária a fazer comentários para o fórum TSF. Oiço muitas vezes comentários que dizem que tens que ir buscar mais impostos aos grandes grupos empresariais, aos ricos, aos poderosos. Bom, podes fazê-lo, mas não duvides que no dia em que anuciares uma medida do género, já as grandes fortunas estarão algures bem guardadas no paraíso. Tudo isto para te dizer que o problema de teres um défice de 7% não está, principalmente, no lado da receita, mas sim naquilo que gastas diariamente para te alimentares. Pois é meu amigo, estás gordo. Se não emagreces, se não passas a ser mais selectivo naquilo que comes, qualquer dia rebentas...Booooom. Aliás, se não fosse a tua madrinha U.E. onde é que tu já estarias? Pensa bem. Pensa nas razões profundas que te levaram a esse estado...Pensa em ti e já agora, uma vez na vida, pensa em nós...

Jantar Sinédrio

Sinédrios: jantamos os cinco na próxima Terça, 24 de Maio?
Digam qualquer coisa. Abraço!

História

Verão Azul

Larguem a China, meus amigos!!
Ponham os olhos nisto!
Adolfo e António, esta é a série mais mítica da nossa geração!
Temos de fazer uma almoçarada para reviver isto!

Ps: «A mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração: O Verão Azul. Ainda hoje se trauteia e assobia a música do genérico, grande fenómeno nos anos 80 em Espanha e Portugal, que aborda temas como o companheirismo, a ecologia e o amor».

The Illusion of 'Managing' China

"The security structures of East Asia, the Western liberal values that so dominate our thinking, the "liberal world order" we favor -- this is the "international system" into which we would "integrate" China. But isn't it possible that China does not want to be integrated into a political and security system that it had no part in shaping and that conforms neither to its ambitions nor to its own autocratic and hierarchical principles of rule? Might not China, like all rising powers of the past, including the United States, want to reshape the international system to suit its own purposes, commensurate with its new power, and to make the world safe for its autocracy? Yes, the Chinese want the prosperity that comes from integration in the global economy, but might they believe, as the Japanese did a century ago, that the purpose of getting rich is not to join the international system but to change it?"

Robert Kagan, "The Illusion of 'Managing' China", Washington Post

Para quando a civilização?

Devo confessar que sou homofóbico. Aliás, sou profundamente homofóbico. Tenho uma fobia do caraças a HOMens que se aproximem da minha mulher com intenções dúbias. Aí posso alternar entre o gentlemanI beg your pardon?!” e a minha pessoal interpretação do marialva em pleno Elevador da Bica a manifestar o seu ultraje pela clássica “cabeçada à Cais do Sodré”.
Este é o único tipo de homofobia que eu posso admitir numa sociedade democrática do século XXI. Situações como esta (via O Insurgente) ou esta só posso interpretar como resquícios proto-históricos ou medievos.
Não sou grande entusiasta dos Dias Mundiais temáticos, mas penso que o Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia deve ser assinalado. Porque "liberal" não deve ser só a economia ou a política, mas também a sociedade civil.

Para ti, Henrique.

segunda-feira, maio 16, 2005

A obesidade burocrática portuguesa

Um chapa cem moçambicano (Toyota Hiace tranformada em taxi comunitário) é parado num controlo policial. Lá dentro, a dois colegas estrangeiros é pedida a identificação. O suíço apresenta um documento do tamanho de um cartão de crédito que ostenta uma flashy bandeira da Confederação Helvética. O português saca de um Bilhete de Identidade enrugado, amarelado, dactilografado, tamanho “saboneteira”, que o polícia tem a amabilidade de mostrar aos outros passageiros com um sorriso gozão.
Desde esse dia passei a andar de passaporte.
Nunca gostei muito de carteiras, mas hoje fui obrigado a comprar uma. Quando acabei de a abarrotar com todos os documentos indispensáveis à salubridade burocrática de um português, o meu Bilhete de Identidade saía de fora e a carteira parecia uma sande de couratos.
Portugal não tem rabos gordos. Sem a carteira burocrática seríamos os anoréxicos da União Europeia.

Depois do post do ano, um para me alegrar

Acabei de presenciar um grande momento (no meio desta tristeza dos últimos dias).
O AnarcoConservador é o maior! Amigos da Arte da Fuga ponham os olhos nisto!

Ode ao meu carro


Eu e o meu carro Posted by Hello

Tal como eu, o meu carro cumpre este ano um quarto de século de vida.
O meu carro é um esteta, capaz de converter a Av. de Ceuta em hora de ponta numa qualquer savana africana.
O meu carro é egoísta, nunca deixa ninguém falar mais alto que o seu egrégio motor.
O meu carro incita-me à reflexão intelectual, os seus 70kmh de velocidade máxima (sem rádio) transformam uma ida ao pão numa viagem fantástica pela psique.
O meu carro gosta de parar ao lado de um novíssimo Nissan Primera e dizer-lhe: “no meu tempo chamava-te um Datsun!”
O meu carro é fiel, nunca parou na A5 para “fazer chichi” ou encostou à berma porque já estava “com dor de burro”.
O meu carro gosta de ser seduzido, gosta de receber Bala pela manhã como o meu outro amor recebe um beijo.
O meu carro incute em mim a vocação de liderança. Em estradas nacionais sou capaz de ser o líder absoluto de 2 quilómetros de seguidores em fila.
O meu carro, ultimamente, tem vindo a descobrir técnicas de tortura. A todo o minuto cai-me um pingo de água na testa. Hoje deixei-lhe uma cópia da Convenção de Genebra e um remendo em cima do banco.
Amanhã tudo será diferente.
É o meu carro.

Soljenitsine falará mais alto


Estarei eu surpreendido com a tentativa de comunista de reabilitação de Estaline? Não. Para a fantasia comunista, Estaline sempre foi o mal compreendido, o vilipendiado pelas “forças obscuras da contra-revolução”. Esta tendência revisionista não tem nada de original. A mente comunista sempre considerou Estaline “não tão mau quanto dizem” e “autoritário”, mas em prol da revolução e do dogma. Mas será isso preocupante? Mais uma vez, não. Ao contrário do, também genocida, Che Guevara, Estaline será sempre demasiado gélido, autocrático ou institucional para ser romântico. O seu sorriso homicida e demente não engana e nunca o “Uncle Joe” será um ícone popular, contra cultural.
No crepúsculo do seu eleitorado e na sua senilidade ideológica, o PCP só reabilita Estaline para aqueles que nunca o renegaram. Como duas aristocráticas senhoras recordam a Índia Imperial na Palm Court do Ritz Londrino. Soljenitsine falará sempre mais alto.

Glorificar um Assassino em 2005!



O Avante!, órgão central do PCP, "reabilitou" nas duas últimas semanas o dirigente comunista mais polémico de sempre. Após um longo período de silêncio, Estaline voltou a estar em foco no semanário comunista a propósito do 60.º aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa. O jornal dedicou mesmo uma notícia, na sua última edição, ao antigo ditador soviético sob o título "Estaline homenageado".

Muito pouco se pode dizer sobre isto, de facto. Glorificar Stalin é tão asqueroso como glorificar Hitler. A surpresa não reside no palavreado do Avante. O escândalo reside no facto deste ser o jornal oficial de um partido político, com representação parlamentar numa democracia ocidental e que, em 2005, obteve 7,54% dos votos, isto é, 433.243 votantes portugueses.
Muita coisa vai mal numa democracia como esta e não vi até agora nenhum guardião de Abril abrir a boca para dizer o que quer que seja.
Ou será que milhões de mortos (entre 20 e 30 milhões, calcula-se) já não são motivo para alarme??

Lisboa? Não! Paris, Londres, Nova Iorque

Tenho de voltar ao assunto.
Vi ontem a entrevista de Manuel Maria Carrilho à Maria João Avillez.
Apreciei a pele de cordeiro... Foi um bom esforço.
Gostei que repetisse 30 vezes a palavra projecto. Fiquei esclarecido.
E quanto ao probelma do trânsito: fácil, pedagodia e mais pedagogia (talvez pudesse convidar a Ana Benavente para vereadora...)
Foi bom.
Já as inumeras referências a Paris, Londres e Nova Iorque foram "um disparate".
Cosmopolitismo ou provincianismo? Como é ténue a fronteira. E lá voltamos de novo ao Eça...

domingo, maio 15, 2005

Merecemos...

Parece que vamos ter um défice de 7%. Mas nada se passa... Só se fala de futebol. Merecemos, portanto, o dito défice. Aliás, merecemos um défice de 10% ou de 20%. Para os portugueses seria igual. Primeiro, está o futebol. Não temos cidadãos. Melhor: antes de ser cidadão, o português é benfiquista, sportinguista ou portista. Venha o défice.

Pink Floyd



Quando a melancolia musical nascia da solidão introspectiva em vez da chatice de se ter nascido num trailer park do Arkansas.

De Gramsci à regionalização realista


Kiev, Novembro de 2004

Caro Ma Tin Long

Apesar de este ser um blog ideologicamente plural, de facto, duvido que algum dos seus autores se reveja em Gramsci e no seu marxismo revisionista. Ao contrário da paralela Escola de Frankfurt de Marcuse e Horkheimer (Henrique, deixo Habermas para ti), penso mesmo que o experimentalismo do bloco contra-hegemónico de Gramsci só terá real expressão na contra-cultura astística. Gramsci, apesar de proveniente da mesma linha marxista de Bordiga, não é propriamente o ideólogo político. A sua hegemonia não é política, mas cultural e orientada para a reinterpretação do contributo subversivo ou revolucionário da sociedade civil.
No espectro oposto encontramos Waltz e o seu realismo clássico (enfatizo clássico), onde toda a atenção reside na solidez da supraestrutura institucional do Estado, abstraindo-se da sua composição orgânica plural. Apesar do artigo remontar a 2000 (muito obrigado pelo link), o argumento de Waltz continua perene no seio realista, como um último e inglório sopro pragmático. O problema de Waltz e de outros como Robert Pape é que sempre esboçaram um sorriso irónico quando leram Aristóteles e a sua premissa de que “todas as sociedades têm como meta alguma vantagem, e aquela que é a principal e contém em si todas as outras se propõe à maior vantagem possível. Chamamo-la Estado ou sociedade política” (Política). Aqui o realismo vislumbrou o Estado realpolitik de Bismarck e não um corpo compósito, civil. De facto, nada garante que um sistema internacional democrático seja plenamente pacífico. Mas não será menor a propensão para o conflito entre dois Estados que partilham a forma democrática/liberal de governo?
Num sistema democrático a hostilidade do Estado no sistema internacional tem de ser justificada perante o eleitorado. Na derrota, a sobrevivência do executivo democrático dependerá tanto do beneplácito da outra potência beligerante como da expressão eleitoral da sociedade civil. Teria Saddam Hussein sobrevivido à derrota de 1991 se o Iraque fosse uma plena democracia liberal? A multiplicação de focos democráticos poderá não ser uma garantia absoluta para o equilíbrio e pacificação da política internacional, mas nenhuma outra alternativa chegará tão perto. Por isso, meu caro, tenho de rejeitar veemente Waltz quando este afirma que “democracies may live at peace with democracies, but even if all states became democratic, the structure of international politics would remain the anarchic. The structure of international politics is not transformed by changes internal to states”. Será precisamente na resposta de executivos democráticos a imperativos internos, que residirá o equilíbrio pacífico da Política Internacional. Mas este não é de todo o único erro realista.
Logo no fim da Guerra Fria vozes realistas previam uma unipolaridade de curta duração que cedo seria substituída por uma multipolaridade hobbesiana. Enquanto Kupchan e Huntington previam uma unipolaridade completada pela emergência de uma multipolaridade regional e a França já falava em termos de hiperpuissance, ainda Christopher Layne defendia a iminência da multipolaridade compensatória do século XXI. A tese realista (ou neo-realista) de que, face à unipolaridade da hegemonia americana os estados fracos e excluídos tenderiam a agregar-se em estruturas de resistência, vinculada por Layne e Waltz, caiu pela mão da liderança assertiva da presidência Bush pós- 11 de Setembro. A era de Bandung faz parte do passado, bem como as suas motivações e coesão ideológica. A experiência presente demonstra que a coerção pro-activa leva o Estado pária ou autocrático a buscar o apreço da potência hegemónica e a evitar uma confluência de resistência com os seus similares.
Da mesma forma, as vozes realistas não foram profícuas em antever que a potência hegemónica procurasse salvaguardar a unipolaridade. As suas considerações abstractas do sistema internacional regido pelo balance of power ou pelo balance of threat, nunca anteciparam o Defence Planning Guidance que procurou preservar a unipolaridade durante as presidências Bush I e Clinton. No lugar das previsões realistas de uma multilateralidade emergente , o momento unipolar de Krauthammer ganha espaço. Será nesse contexto que devemos considerar como benéfica, não a multiplicação de centros de poder, mas de paralelos democráticos.
É na proliferação da paridade democrática que reside a chave para a progressiva pacificação do sistema internacional. Mais do que simples dogmatismo liberal, é uma obrigação da era democrática a demanda pela uniformização global dos parâmetros democráticos. Como afirma Robert Cooper, “the realist world of rational policymaking, equilibrium and the balance of power worked best when we were govern by rational oligarchs- Richelieu, Pitt, Palmerston or Bismarck. Democratic ideas mean that policy requires a moral basis” (“Imperial Liberalism”, The National Interest).
Acredito, no entanto, que podemos vir a assistir a uma emergente multipolaridade regional. Na Ásia poderá sobreviver a interdependência bipolar realista. A retirada americana e soviética no crepúsculo da Guerra Fria tendeu a promover a cooperação multilateral num enquadramento bipolar. Mas esperemos pela sua análise do artigo de Samuel S. Lim (obrigado pela referência).

Cumprimentos

Frango assado


Bernardo,
Era deste frango que falavas?

1 mísero ponto para o sonho...

Uma traição

"...José Sócrates é simultaneamente pós-Blair e pré-Blair. É "no nonsense" - e nisso é muito português. Vai resolvendo alguns problemas - aguerrida e inteligentemente - e não se importa se são grandes ou pequenos ou se enchem as primeiras páginas dos jornais.Em suma, estamos - como se diz isto sem ofender? - na situação de quem acaba de fazer amor. Fodidos. Aquele "Habituem-se!" do António Vitorino, em vez de ser vilipendiado, deveria ser catalogado no ficheiro "Quem Te Avisa Teu Amigo É". Mesmo que não tenha sido dito com amizade - antes com rancor, vingança e uma satisfação- zeca napoleónica que não nos queria, de maneira nenhuma, agradar.
Arquive-se, desprezando a regra alfabética, junto de "Triunfalismo" e "Pessoas a Lixar". Mas tenho de confessar que me sabe bem ser governado por quem trabalha sem o show off algarvio do "Deixem-nos trabalhar" do prof. Cavaco. E nós, jornalistas, também teremos de fazer o nosso trabalho. Há-de fazer- -nos bem. Leia-se muito mal. Era tão giro dantes! Mas não somos menos do que ele e, daqui a uns anos, já será outro o primeiro-ministro e a vela, amada bandalheira - vos garanto - recomeçará!"
MEC, "Uma traição", DN

sábado, maio 14, 2005

Kant vs. Habermas

Prosseguindo…

Como herdeiro da Modernidade, Habermas repete uma “vocação” dos iluministas franceses: a Razão é uma virtude em si mesmo. Quem quiser contestar Habermas deve recuperar as perspectivas do iluminismo britânico e do iluminismo americano. Para Hume e Madison, não existia Razão, mas somente razão. A razão não é uma entidade semi-divina. É apenas um instrumento ao serviço de causas substantivas.

Isto leva-nos para a questão do “diálogo” e para o confronto entre kantianos e habermasianos, aqui na Europa. Porque ao contrário do que julga Robert Kagan, a ideia de Europa de Paris e Berlim não é kantiana mas sim habermasiana. Kant era um liberal clássico. A Paz Perpétua pressupunha o diálogo entre Repúblicas. A possibilidade de desacordo e guerra entre Repúblicas e outros regimes não era negada. Ao invés, a Ética da Discussão de Habermas pressupõe a possibilidade de diálogo com qualquer interlocutor, pois existe, segundo o filósofo alemão, um princípio regulador universal com a capacidade de gerar consenso (o monismo não deixa de marcar a agenda da filosofia alemã). Esse princípio universal é o "Diálogo", elevado à condição de entidade semi-divina. Para Habermas, o Diálogo, tal como a Razão para Diderot, é uma virtude em si mesmo. Ao invés, em Kant, o diálogo é apenas um dos instrumentos na protecção das Repúblicas. Habermas dá mais atenção à “forma” (o que interessa é a exaltação de um procedimento). Kant não esquece a “substância” (o que interessa é a protecção efectiva dos regimes demo-liberais - repúblicas).

quinta-feira, maio 12, 2005

Realismo vs Idealismo ou Realismo + Idealismo?


Caro Ma Tin Long

Desde já, muitos parabéns pelo Sínico, que foi directamente para os meus “favoritos”. Devo dizer que não encaro as várias teorias das Relações Internacionais como blocos sólidos não dialogantes, detentores de respostas absolutas. Daí que tenha que enquadrar Waltz e a sua análise sociológica do comportamento do Estado no sistema internacional, como uma base demasiado abstracta e generalista, absorta de considerações morais ou programáticas.
Em Man, The State and War e em Theory of International Politics, Waltz tentou a simples identificação do agente regulador das relações internacionais, mas procurou-o erroneamente no estruralismo clássico da sua “systems theory” e na aclamação da bipolaridade sua contemporânea e da auto-suficiência nacional, que considera matrizes de um equilíbrio não beligerante.
Esta era a era MAD de cortinas e blocos ideológicos dicotómicos e Waltz nunca poderia antever a natureza híbrida da União Europeia ou antecipar a implosão soviética, daí que o seu argumento constitua ainda hoje a base teórica do realismo clássico. Em Waltz, tal como em Morgenthau ou Mearsheimer (The Tragedy of Great Power Politics), impera o cepticismo realista face à natureza humana e seu carácter benigno. Mas a pedra basilar do realismo clássico reside na interpretação do Estado-Nação como único protagonista internacional autorizado, o que minou a sua capacidade de resposta às ameaças transnacionais e tentaculares do pós- 11 de Setembro.
Ainda que Brent Scowcroft e vários nomes ligados à Coalition for a Realistic Foreign Policy tenham tentado inspirar a veia realista na Administração Bush, foi a ala liberal que cedo ganhou algum terreno. O Millenium Challenge, a National Security Strategy de 2002, o State of the Union Address de 2005 e iniciativas como o National Endowment for Democracy (ainda que este remonte a 1983), comprovam que um liberalismo parcial conquistou espaço, ainda que sem o papel central que originalmente atribuía a organizações internacionais. Não será tanto um regresso da interdependência da vulnerabilidade e da sensibilidade de Keohane e Nye, mas à crença liberal no valor do Estado de Direito democrático como actor no sistema internacional.
Enquanto isso, numa Europa integrada assistimos à reemergência idealista ou “construtivista” que enfatiza linhas diplomáticas e culturais de persuasão e legitima a Política Internacional pela moralidade e legalidade estrita da acção. Aqui, o “interesse nacional” é preterido em função de valores vinculados a redes de acção não-governamentais e globais, enquanto o “diálogo crítico” abstrai-se de soluções de força. Ao contrário de Waltz, e tal como em Power and Interdependence, para o idealista construtivista, o equilíbrio do sistema internacional reside no multilateralismo transnacional, onde o Estado perde o seu tradicional primado.
Pessoalmente, dificilmente me revejo estritamente em qualquer uma destas hipóteses. Acredito que o realismo clássico ou Kissingeriano perdeu a sua actualidade logo na unipolaridade original do pós-Guerra Fria, e o liberalismo clássico de Ikenberry surge demasiado desprovido de garantias de segurança e de força. Parece-me (e Kissinger concorda), que a teorização futura sobre as relações internacionais passará por soluções mitigadas e conciliatórias. Tanto o realismo democrático de Krauthammer como a proposta de Kristol e Kagan tendem a deixar a periferia e a enquadrarem-se como a essência do actual debate académico. Quando Condoleezza Rice apelidou a política externa da presente administração como uma união pragmática entre realismo e liberalismo wilsoniano, comprovava uma tendência que procura integrar o pragmatismo realista com o idealismo democrático liberal. Embora na Europa impere, ainda, um idealismo com resquícios liberais julgo que cedo será evidente a lacuna coerciva deste modelo. A persuasão é um ponto essencial na política internacional, mas nunca poderá ser apenas substanciada e suportada por moralidade e ideais. O seu sucesso depende também da presença de um recurso coercivo e aí reside a chave para o futuro da Europa no sistema internacional. No sticks, no deal...

Cumprimentos

Finais...



Este post é dedicado a todos os benfiquistas que vão assar frangos e beber tinto do garrafão para a mata do Jamor.
Final é a da Taça UEFA!
Sporting Sempre!

Saddam pagou a ex-ministro francês com petróleo

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=172975
Pois é, parece que o governo francês tinha fortes razões para se opor à intervenção americana no Iraque. Sempre apreciei a moralidade francesa ao longo de todo este processo.
Vive la France!

Realists vs. idealists

"In fact, the United States is probably the only country in which the term "realist" can be used as a pejorative epithet. No serious realist should claim that power is its own justification. No idealist should imply that power is irrelevant to the spread of ideals.
The real issue is to establish a sense of proportion between these two essential elements of policy.
"

Henry Kissinger, "Realists vs. idealists", IHT

quarta-feira, maio 11, 2005

Design Constitucional

Jantar com grande amigo argentino. Digo-lhe o de sempre. A Argentina é um grande país. Pátria de Borges e Maradona. Terra onde nasceu a mulher mais bela: Valeria Mazza (quando Valeria Mazza passa, deus está por perto).

O amigo argentino interrompe o meu fausto. E reclama realisticamente:

- Pois, mas precisamos de uma nova constituição.

Disse-lhe:

- Junta-te ao clube.

Ainda o relativismo do multiculturalismo

Caro Bruno, caro João, caro Tiago (sem bem-vindo, Tiago)

As tiradas sarcásticas “inspiradas” em Leo Strauss tinham um alvo preciso: as orgulhosas feministas ocidentais que fecham os olhos à forma como as mulheres não-ocidentais são tratadas noutras paragens. Se isso não ficou explícito, peço as minhas desculpas.

Este relativismo em relação à situação das mulheres é uma coisa que me enerva profundamente. Quando digo que “a excisão dos órgãos sexuais de meninas de 7 ou 8 anos é uma coisa nojenta, inenarrável”, logo surge alguém a dizer que “é a cultura deles”. Paradoxalmente, este reaccionarismo culturalista costuma ser liderado por mulheres.

Reaccionarismo? Exacto. O multiculturalismo normativo é conduzido por pessoas revoltadas com o sucesso do ocidental. Portanto, usam a sacrossanta cultura como forma de arremesso contra o Ocidente. Tudo seria legítimo se não ocorresse o seguinte: neste processo, os multiculturalistas legitimam os piores regimes e desculpam maus-tratos asquerosos que são infligidos a mulheres.

Este multiculturalismo normativo é uma espécie de “racismo ao contrário”. Os seus agentes negam a individualidade a pessoas de outra cultura. Quando dizem que é a “cultura deles”, estão a reduzir os indivíduos a meros títeres de uma cultura, uma coisa supostamente imóvel e sagrada. Sempre Tönnies. Sempre o reaccionário Tönnies na boca de quem se julga muito progressista.

Pior: negam a individualidade e a vontade própria às crianças que sofrem estes atropelos inqualificáveis. Ou será que pensam que as miúdas desejam ardentemente a lâmina?


Um abraço,
Henrique Raposo

Tensões e Saudosismos



Nem sempre estes senhores olharam na mesma direcção. 60 anos depois estiveram lado a lado em Moscovo, com a Rússia a demonstrar enorme saudade de outros tempos. Aliás, Putin, «o pequeno Czar», afirmou há poucos dias que a implosão da URSS tinha sido a maior catástrofe do séc. XX.
Tenho para mim que as divergências transatlânticas fortalecem a relação. Acho mesmo, por exemplo, que a própria UE beneficia com algumas tensões internas, desde que elas não ponham em causa o processo de construção no seu todo.
Agora, uma coisa são tensões pontuais. Outra são saudosimos imperiais, numa tentativa desesperada de colocar um Estado numa posição cimeira do sistema internacional quando não tem condições para lá estar.
Atenção à Rússia nos próximos anos.

O meu candidato

Devo dizer-te, Gonçalo, apenas uma coisa: para mim, quanto mais apagada for a personagem candidata à Presidência, mais simpatia nutro por ela.
Só presta um favor ao país.

The Hedgehog and the Fox*


Posted by Hello
A política externa russa contemporânea é unipessoal, produto do pragmatismo errático de Putin. Tal como Putin flutua entre o autoritarismo reaccionário de suporte apparatchik nostálgico e o reformismo democrático, também “depending on the time and the setting, Russia is European, Asian, Eurasian, a regional power, a global player, one of the poles in the emergent multipolar world order”. Nas celebrações moscovitas dos 60 anos do VE Day, a Rússia foi indubitavelmente soviética, força motriz de um revisionismo histórico que nos levou em time warp para idos 7 de Novembro na Praça Vermelha.
Para a quase totalidade da Europa Ocidental, 8 de Maio de 1945 significa o início de uma longa jornada de integração europeia, de reconstrução económica e social, de pacificação da “questão alemã” e de uma era de segurança continental com garantias transatlânticas. Para os Estados Bálticos e do Caucaso, como a Estónia e a Geórgia, o fim da II Guerra Mundial recorda a consagração das disposições do pacto Ribbentrop-Molotov pelos “argonautas” da Yalta e o início de meio século de imposto jugo autoritário soviético. É, por isso, particularmente significativo que depois do revivalismo moscovita e da datcha de Putin, o Presidente Bush tenha escolhido terminar o seu périplo na Geórgia.
Pode-se optar por interpretar esta escolha como mau cálculo político, como uma desnecessária antagonização do “urso russo” ou como a viabilização de contrapartidas americanas no futuro do pipeline Baku- Tbilisi- Ceyhan (BTC), mas aqueles que, em 2003, observaram uma multidão pacífica desalojar Eduard Shevardnadze têm de analisar esta opção segundo outros parâmetros.
Desde 2003, circunstancialmente ou não, o aroma das rosas revolucionárias de Tblisi estendeu-se à Ucrânia, ao Quirguistão e ao Líbano, e a presença de Bush na Geórgia vem assegurar, não só o futuro da difusão dos valores democráticos do Estado de Direito nas antigas áreas de influência soviética, como a viabilidade do processo de democratização orgânico na Geórgia.
Ao assegurar a assistência de Washington no diálogo com Putin para a retirada da presença militar russa na Geórgia e para o fim do litígio territorial acerca da Abkhazia e da Ossétia do Sul, Bush não está a expressar a sua particular aversão russa, mas a despender o seu capital político em salvaguarda de um parceiro estratégico. Este é um processo do qual a União Europeia não se deveria imiscuir. Mais do que a dúbia estratégia de aproximação bilateral, sentindo o pulso ao jogo de equilíbrio que é a política internacional, uma Europa a uma só voz deverá incorrer num “diálogo crítico” com Moscovo face à necessidade de coesão democrática na sua periferia alargada.
O “interesse nacional” europeu residirá também na sua capacidade de, sem perturbar a contribuição russa para a revisão em curso do Tratado de Não Proliferação Nuclear, suster o recrudescimento de uma Rússia revivalista.

Tráfico de influências = a cunha?

Cheira-me que Portugal vai ser constituído arguido...

O candidato de Ribeiro e Castro é... Carvalhas

Caro Bernardo,
Sou obrigado a discordar, o argumento de Miguel Coutinho assenta em premissas demasiado circunstanciais e alegóricas para ser válido.
Seguindo a sua lógica, permite-me elaborar um paralelo idêntico. Tal como o PCP, o CDS de Ribeiro e Castro incorreu na defesa autista da sua ortodoxia originária e das sua fileiras endogâmicas. Fechando a porta a dissidências endógenas, o CDS “2009” optou pelo dogma matriz da Democracia Cristã e ausentou-se da actualidade nacional. Tal como o PCP, vive o crepúsculo do seu eleitorado na intransigência reformista e assusta-se sempre que ouve a palavra “liberal”. Tal como o PCP de Jerónimo , também o CDS se aliena de todas as estimativas ajuizadas que apontam para um decréscimo da sua presença política em função da sua inflexibilidade vigente.
Assim, seguido a linha retórica de Miguel Coutinho, só posso deduzir que o candidato presidencial de Ribeiro e Castro seja... Carlos Carvalhas.

Política jurássica

“Há dinossauros que ainda não perceberam que já se extinguiram”, da minha amiga Helena Carrapiço

O candidato de Sócrates é... Cavaco.

Muito bom o editorial de hoje do Miguel Coutinho.
Os ovos ficarão todos no mesmo saco. Do bloco central, claro.

terça-feira, maio 10, 2005

Se tudo é relativo...

«Se tudo é relativo, o canibalismo é uma questão de gosto», Leo Strauss.

Acrescentaria:

Se tudo é relativo, uma violação é uma questão de fluidez e profundidade.

Se tudo é relativo, a excisão vaginal é uma questão de técnica.

Se tudo é relativo, a “burka” é uma questão para estilistas.

segunda-feira, maio 09, 2005

Tony Blair

Tony Blair, um dos líderes políticos mundiais que mais aprecio, afirmou hoje ao periódico alemão Bild (link via Público), que "a Alemanha é responsável pelo início da guerra. E todos nós temos de viver com as consequências". Uma frase algo cruel, numa altura em que se comemoram os 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. No entanto, creio que Blair teve outra intenção. Existem minorias na Alemanha - felizmente minorias - que se têm vindo a manifestar pelo orgulho nazi e pela vitimização dos cerca de 35 mil civis que morreram nos bombardeamentos à cidade de Dresden - uma cidade com uma expressiva comunidade neo-nazi bem activa. Neste sentido, Blair procurou reforçar a ideia que o fortalecimento da democracia alemã - um regime que se impôs, ou foi imposto, como queiram - foi fulcral para a paz que reina na Europa há 60 anos, apelando ao fim da cultura de vitimização "de alguns povos germânicos". E, como bem sabemos, todas as culturas de vitimização que tiveram lugar no séc.XX, deram nos piores totalitarismos.

Blair referiu, ainda, que "nós [europeus] nunca devemos estar satisfeitos. O regime de Hitler foi único na sua crueldade. Mas a Jugoslávia provou-nos que nos anos 90 os actos de barbárie ainda são possíveis no nosso continente. E em muitas regiões do mundo, a ditadura é encarada com normalidade. A propagação da liberdade e da democracia deve continuar a ser o nosso objectivo". Este ponto entronca no segundo ponto da minha argumentação.

Tenho admiração por Blair pela simples razão que julgo ser o líder político que melhor entende o mundo actual. Ao fazer a "ponte" entre a Europa e os EUA, no que às relações internacionais diz respeito, Blair interpreta a acção externa das potências da seguinte forma: a comunidade internacional deve saber dizer presente a qualquer conflito interno que ponha em causa a segurança regional ou internacional. Precisamente porque a paz não está garantida e os totalitarismos ainda abundam por esse mundo fora. A sua "Doutrina da Comunidade Internacional", declarada por alturas da guerra do Kosovo, exprimia isto mesmo. Por outras palavras, não devemos ter ilusões: para haver liberdade, democracia, enfraquecimento do terrorismo e segurança internacional muitas guerras ainda terão de ser feitas e muita gente será injustamente morta.

É duro mas é a verdade. 35 mil morreram em Dresden há 60 anos. Para que muitos mais pudessem viver em paz desde então.

Sobre Burke

Caro João,

Para começar, deverias encarar Burke como alguém que fez a síntese entre a "predisposição conservadora" e os princípios do iluminismo escocês/inglês. Não te esqueças que Burke era um Whig. Por isso, apoiou a revolução americano. Por isso, era o grande crítico dos excessos do Império Inglês. Burke é a versão político-institucional daquilo que Adam Smith fez na economia e na moral (não esquecer: antes de ser economista, Smith era um homem da discussão Moral). Disraeli, anos mais tarde, resumiu o burkeanismo: “homem Torie com predisposição Whig”.

abraço,
HR

Levanta-te e ri


Francisco Louçã
O congresso do BE, peço desculpa, convenção, foi um verdadeiro concurso de stand up comedy. Mais uma vez, o líder da ala direita do partido, peço desculpa, o coordenador, foi declarado o grande vencedor deste certame. O revolucionário Louçã esteve no seu melhor com piadas como as que passamos a reproduzir:
"O BE é o único partido da democracia do século XXI";
"No Bloco de Esquerda não temos trono, pior ainda, confesso, não temos aristocracia, somos todos plebeus. Se há algo que nos distingue é o combate à aristocracia, não criamos nomenclaturas".

domingo, maio 08, 2005

Sobre Sebald

O passado é uma tartaruga vertiginosa (como nos paradoxos de Zenão; como nos pesadelos de Kafka; como nos labirintos de Borges).

Rawls-Keynes, Bentham e a esquerda caviar, etc.

Caro João Galamba,

- Em primeiro lugar, muito obrigado pela sua constante presença naquilo que escrevo. Gostava de ter tempo para lhe responder, mas, na maior parte das vezes, não tenho qualquer hipótese. Tenho que escrever para aqueles sítios que garantem o meu ganha-pão. Mas hoje é domingo… Já agora: como é que está a “nossa” LSE?

- Claro que Keynes e Rawls podem ser colocados no mesmo saco. Sim, um era economista e outro era filósofo político. Mas ambos são os dois monstros sagrados do “social liberalism” ou, se quiser, do “liberalismo contemporâneo”. John Rawls tentou (e conseguiu) redignificar o “Welfare State”. O Welfare deixou de ser apenas um instrumento político-económico e passou a ser a consubstanciação de uma teoria político-moral. Rawls, se quiser, reforçou a retaguarda de Keynes. Se não me engano, Fernando Gil percepcionou Rawls exactamente neste sentido: a teoria da justiça colocou-se a montante do Welfare e deu-lhe protecção ideológica.

- Volto a insistir: a ética de Bentham está enraizada nas “esquerdas caviares” que nasceram dos escombros do marxismo. Desde o aborto até ao regime escolar, os discursos das novas esquerdas são sempre marcados pela seguinte máxima: evitar a todo o custo a “dor” física e, sobretudo, mental do indivíduo. Na escola, por exemplo, não se pode ensinar nada difícil, pois isso, dizem as sumidades, causa angústia aos meninos. Por isso, não se pode dizer que “sequesso” não é “sexo” e que “k” não é “que”.

- Não se trata de mais ou menos pureza. Eu sou liberal clássico e, como tal, só posso ter duas reacções em relação à deriva pós-Bentham do liberalismo: (a) discordar na susbtância; (b) a minha discordância não me impede de ficar fascinando com esta evolução. Aliás, estudar esta evolução é fundamental para a compreensão dos últimos 200 anos.

- Com todo o devido respeito, acho que está equivocado. O conceito de “cidadão” nasceu com o liberalismo clássico. O “O Federalista” de Madison e Hamilton é isso mesmo: a criação de um espaço de cidadãos. Kant (outro liberal clássico) ao estabelecer o direito cosmopolita (os “estrangeiros” têm os mesmos direitos dos “nacionais”) estava a criar um espaço para cidadãos legais e não para membros de uma dada comunidade (a maior miséria intelectual alemã foi, precisamente, a ruptura romântica com o legado kantiano). Ora, Rawls fez uma espécie de up-grade: para Rawls, o cidadão, além dos direitos políticos, deve ter direitos económicos (mas isso, meu caro, começa em Green, senão em Bentham).

- Calma: o empirismo não tem nada a ver com o utilitarismo. O empirismo está relacionado com o nível epistemológico e não com o nível epistémico. O empirismo tem a ver com o seguinte: estudar os homens no seu habitat natural (a história); isto é, devemos evitar os conceitos abstractos, esses conceitos que nos esmagam com a maiúscula. Mais do que ninguém, Hume percebia o seguinte: há homens e o HOMEM é uma pretensão perigosa. O utilitarismo, ao invés, é uma solução epistémica, substantiva. É uma moral e não uma forma de apreender o mundo.

Um abraço,
Henrique Raposo

Blair não inventou a pólvora

Caro Gonçalo e caro Francisco,

Blair não inventou nada de novo. Aliás, Blair recuou na história do pensamento liberal. Deixou o consenso do pós-guerra, baseado no divino Keynes e estabeleceu-se nos primeiros autores do chamado “social liberalism”, nomeadamente T.H. Green.

Grosso modo, podemos dividir o liberalismo em três grandes fases.
1- século XVIII: liberalismo clássico (Madison, Hume, Smith e até Burke)
2- século XIX: utilitarismo (Bentham e os Mill)
3- século XX: social liberalism (Keynes, Rawls)

Como é que nasce o social liberalism? Em meu entender, parte da ética de Bentham. Bentham não colocou em causa as estruturas do governo liberal, mas criou algo mais perigoso: uma nova ética. Uma ética materialista, que fundia moral com economia (algo que Rousseau também já tinha feito). A ética utilitarista afirma que o bem é “prazer”e o mal a “dor”. Tudo deve ser feito para dar prazer. Prazer material, entenda-se. A longo prazo, a ética de Bentham subverteu o estado liberal (aliás, continua a subverter. As massas de hoje continuam a ser benthamianas; aliás, a "ética" da "esquerda caviar" é benthamina. Não se espantem. Keynes viu, e bem, em Bentham uma clara influência de Marx).

“Se tudo se resume a isso, então, o estado deve dar condições para que o indivíduo possa ter prazer” – foi este o raciocínio de T.H. Green (final do XIX). É este o raciocínio de Blair. Green ainda não pensava em termos de massas anónimas (classe), mas em termos de indivíduos. Blair faz isso: deixou as massas (welfare state) e concentra-se no desenvolvimento do indivíduo (workfare state).

Quando o líder da “direita” europeia é um “social liberal” moderado, está tudo dito sobre o ar do tempo que vivemos.

Um abraço,
Henrique Raposo

sábado, maio 07, 2005

Eles Quem?

BE: Alternativa Socialista

Já repararam na narrativa actual do Bloco?
"Alternativa socialista" é agora o lema.
A mudança para partido político e o tom pluralista inerente (apenas tom, diga-se...) fazem prever casamentos futuros.
Aceitam-se apostas.

Revisão Constitucional

O último goooooolo


Jorge Perestrelo

Teremos muitas saudades dos melhores relatos da rádio portuguesa...
"Ripa na rapaqueca"

sexta-feira, maio 06, 2005

5 Maio 2005

Poucas palavras. Momento único na vida de qualquer sportinguista. Muitas lágrimas de felicidade. Um grande amor: Sporting Clube de Portugal.

A vitória da única via

Como seria de esperar, Tony Blair venceu claramente as eleições. Apesar do desgaste político que a guerra do Iraque lhe causou, os ingleses, souberam, mais uma vez, reconhecer o brilhante trabalho que o seu 1º ministro tem realizado.
Contrariamente ao entendimento de alguns dos meus companheiros do Sinédrio, na minha opinião, o caso inglês, é a prova de que os conceitos de esquerda/direita estão hoje, de certa forma, gastos.
Apesar de ser líder do partido trabalhista, Blair deixou para trás qualquer tipo de complexo de esquerda e seguiu a sua via, conhecida como a terceira. Assentando a sua política num liberalismo equilibrado, o governo de Blair, contrariando a tendência da Europa, tem trazido prosperidade ao seu país.
Sei que o Henrique considera que esta coisa da 3ª via é algo que "não é carne, nem é peixe", que permite estar numa posição confortável algures entre a direita e a esquerda e que, sobretudo, morrerá com a saída de Blair. Para mim, esta é a vantagem da 3ª via. Foge das utopias da direita e da esquerda e segue em frente através de políticas pragmáticas e adequadas à realidade.
Foram vias deste género que contribuiram para o desenvolvimento dos E.U.A. de Reagan, da Inglaterra de Tatcher e da Espanha de Aznar. Tal como Blair, todos estes líderes tiveram algo em comum: pragmatismo, coragem e bom-senso.
Não me interessa se a 3ª via desaparecerá com o fim da era Blair, porque não é o nome que está em causa. O que é necessário é que a sua essência perdure, ainda que com outras denominações.

Imprescindível

O líder da direita

Se fosse inglês, acho que votaria sempre “Torie”. Mas fico contente pela vitória do líder (possível) da actual direita europeia: Tony Blair.

O Estadista

Caro Bernardo,

Só agora vejo a tua provocação sobre "o meu" Professor Cavaco Silva.
Trata-se de um assunto que implica uma análise de fundo, pelo que deixarei para a semana uma resposta mais detalhada.
Por ora escrevo apenas - e isto parece-me ser o fundamental - que Cavaco Silva esteve, e está, para além da esquerda e da direita.
Ele foi, e é, acima de tudo um estadista.
O estadista da economia aberta.
O estadista da sociedade aberta.
O estadista da moeda única.
Cavaco Silva poderia responder-te, como alguém o fez no passado, «Eu sou apenas um português, mas um bom português».

Um abraço amigo

p.s. Fico à espera da resposta. Embora saiba que estás de bom humor. Viva o Sporting!

Candidato independente?


José Sá Fernandes

Jorge Palma cantaria: "Deixa-me rir..."

3xLabour

quinta-feira, maio 05, 2005

É isso mesmo: manter a náusea

Precisamente, António. Temos de manter essa náusea activa. Temos de manter a memória do mal. Recomendo-lhe um livro do Todorov –“Memória do Mal, Tentação do Bem” (há edição portuguesa).

Levi e Soljenitsine

Estou com o Bernardo.

As aulas de história sobre o século XX deveriam começar pela leitura obrigatória de dois depoimentos essenciais: “Se Isto é um Homem” de Primo Levi (sobre Auschwitz) e “O Arquipélago do Gulag” de Alexander Soljenitsine (sobre o Gulag).

Sem estes livros, todos os tratados da historiografia fazem pouco sentido.

Foi há 60 anos

La mia città

O Henrique tocou no meu ponto fraco. Agora é que eu já não consigo trabalhar .

Jantarada Sinédria

Companheiros de blog, agora que estamos todos presentes, que tal deixar o Cavaco Silva para outro dia e combinar um jantar conspirativo? Aceitam-se sugestões.

A gravata e o laço

Excelente post do Pedro Mexia. Pedro, não te estás a esquecer do laço?

Relações Transatlânticas

Obrigado a todos os companheiros de blog. Obrigado pelas vossas palavras de boas-vindas.
Como não foi possível trazer para todos um presente dos EUA, deixo-vos aqui algo que considero precioso.
Li o último livro do Timothy Garton Ash. A não perder. É uma análise brilhante do actual estado das relações transatlânticas. Penso que, no futuro próximo, o debate vai anda em torno das suas ideias.
Um grande abraço

Cavaco e González

É sempre bom debater contigo, Gonçalo. Saúdo o teu regresso assim como os do Tiago e Francisco. Agora sim, podemos fazer todos uma jantarada pela primeira vez.
Mas queria só dizer uma coisa acerca destes nossos posts sobre o Prof. Cavaco (estou à espera que o Tiago não se fique...): não está em causa o relacionamento convergente com Espanha. Aliás, foi com González, Soares e Cavaco que os dois países, pela primeira vez na História, estiveram nas mesmas alianças internacionais (neste caso, NATO e CEE). Penso mesmo que, tal como hoje, Espanha deve ser um parceiro privilegiado de Portugal e deixar de ser visto como o papão tradicional.
Mas o meu ponto não era este. O meu ponto tem a ver com uma frase de Cavaco, devidamente contextualizada, que resultou numa provocação minha. Cavaco não é de esquerda nem de direita. Todos sabemos isso. Por isso conseguiu duas maiorias absolutas e será Presidente da República a partir de Janeiro de 2006.

Os três Maria

Carta aberta aos três Maria,

Ao Manuel Maria, homem de esquerda, sem gravata, com um blusão tipo Francisco Louçã. Tem razão V. Exa., Lisboa não precisa de ir para a frente, mas ... para a esquerda!

Ao Maria Carrilho, homem de direita, com gravata, fato Hugo Boss, tipo Miguel Horta e Costa. Tem razão V.Exa., para a direita é que é o caminho!

Ao Manuel Maria Carrilho, nem homem, nem mulher, nem de esquerda, nem de direita, nem de fato e gravata, nem de blusão operário (aliás, sem roupa pois assim compromete-se menos), nem Louçã, nem Horta e Costa. Será que ele existe mesmo?

Os lisboetas estão esclarecidos sobre quem é o candidato socialista a Lisboa.

Serve a presente carta para lhe agradecer por ser tão concreto na definição do seu perfil e das suas ideias. Não estamos habituados a tanta clareza em política.

p.s.Fico contente por, pela primeira vez em muitos séculos, alguém dizer que a prioridade para o país (e Lisboa) é a educação. Escolas modelo para todos. Boa. Até porque todos sabemos que esta é uma matéria tipicamente da competência das Câmaras Municipais...

Devolvido por incompatibilidade ideológica


Caro Bernardo, urge não confundir convergência democrática com uníssono ideológico. No momento em que Portugal caminhava para a estabilização institucional numa conjuntura de maioria e que Espanha ultrapassava o trauma da UCD, os paralelos entre as duas realidades sociais e políticas ibéricas teriam de conduzir à normalização das relações entre Espanha e Portugal, no quadro das Comunidades Europeias, da NATO e OSCE, das cimeiras ibero-americanas e, de forma bilateral, nas anuais cimeiras luso-espanholas. O próprio Cavaco Silva admite que:

“... era para mim claro que o relacionamento luso-espanhol devia assentar no desenvolvimento do intercâmbio económico e cultural, na cooperação e no diálogo político franco e cordial...”
Cavaco Silva, Aníbal, Autobiografia Política, vol. II, pp. 370

Mas, daí a se presumir uma identidade ideológica comum entre Felipe Gonzáles e Cavaco Silva vai um grande passo. O que é algo que aqueles que estiveram mais próximos de Cavaco Silva afirmam sem rodeios:

“Sem qualquer afinidade ideológica com Felipe Gonzáles, o que não sucedia com Mário Soares, Cavaco Silva procurou seguir a via pragmática para se relacionar com Espanha”
Lima, Fernando, O Meu Tempo Com Cavaco Silva, pp. 143

A paridade entre duas recentes experiências democráticas que partilhavam o processo de integração europeia só poderiam incutir em ambos os executivos uma estratégia de mútuo apoio em questões convergentes, independentemente da divergência de plataformas ideológicas. Cavaco Silva não é de Esquerda e duvido que cumpra os requisitos mínimos para ser de Direita. Aliás, penso que ainda está por ser nomeado o seu espaço político natural: algures entre o gabinete tecnocrata e a cátedra de York.

quarta-feira, maio 04, 2005

Direita 2005

A conversa com o Henrique continua. E continua nestes termos: Portugal tem três partidos democráticos - lamento informar mas nem o PC nem o BE são pela democracia ocidental liberal que nos gerou há 30 anos e que mantem a Europa em paz há 60 - o PS, o PSD e o CDS.
Destes, dois são social democratas. Um na sua estratégia actual (PS), outro desde a sua génese (PSD). O CDS é um produto do contexto da sua nascença, e produto das suas linhas ideológicas desde então. Por isto tem a História que tem.
Relembro, apenas, que aquando da legalização dos partidos políticos em Portugal, nenhum podia advogar qualquer linha ideológica à direita da social democracia. Por isto, também, houve cercos a Congressos, sendo a única solução uma apetência natural para a democracia-cristã, num país rural e profundamente católico. Diga-se, aliás, que esta foi uma estratégia inteligente para além da possível, na conjuntura de então.
O ponto em 2005 é, contudo, outro. onde está a direita liberal e conservadora representada politicamente? Onde votam, tradicionalmente, os não-socialistas? Onde votam, ainda, os não-social-democratas?
Obviamente no PSD. Porque o PSD, por ser tudo e não ser nada, conseguiu abarcar - desde Cavaco Silva - liberais de esquerda, liberais de direita, conservadores, católicos, monárquicos e democratas cristãos (anti-Portas). Por isto conseguiu duas maiorias absolutas e se tornou no maior partido português.
E hoje? Onde votarão liberais de direita, conservadores e democratas cristãos? Naquele que defenderá os seus interesses. Como grande parte da direita é liberal, votará inevitavelmente no PSD. Por pura incapacidade do CDS.
É esta a direita partidária em Portugal, no ano de 2005.

PSD não é de direita e o CDS não acorda, ou como Portugal será um país sem partidos de direita

Tens toda a razão, Bernardo.

O PSD não é de direita. Foi de direita na era de Sá Carneiro. Depois disso, estabeleceu-se a direita positivista. Perdão: “direita positivista” é uma contradição em si mesmo. Sejamos frios na análise: depois de Sá Carneiro, os positivistas tomaram conta do PSD. Cavaco e Durão não são de direita. São burocratas. O Dr. Marques Mendes é dessa linha. Vivem sob o mito do “centrão”. Atenção: têm todo o direito ao seu positivismo. Mas nós temos o dever de dizer que não são de direita. Nem liberais, nem conservadores.

O PSD tem um sério problema. O 11 de Setembro, como qualquer grande acontecimento geo-político, relançou o debate ideológico. Ouviu-se com frequência: «descobri que era de direita após o 11 de Setembro». Ora, a conversa ideológica voltou em força e, claro, o PSD não acompanhou esta deriva. O PSD é visto como o partido dos burocratas apolíticos. Esta visão é comum nas gerações mais novas. Ora, se isto não mudar, se o PSD não reencontrar o caminho de Sá Carneiro (partido que apresenta uma visão para a sociedade e não apenas contas para o estado), o PSD não vai conseguir renovar o seu eleitorado. A "malta" quer debate ideológico. A "malta" já não usa calculadora.

O PSD deveria ter o seguinte em atenção: o rotativismo não é uma inevitabilidade numa democracia madura. Por essa Europa fora, vários partidos “grandes” têm ficado fora do poder durante uma geração inteira. Porquê? Não souberam respeitar o “ar do tempo” ideológico.

Mas o drama não fica por aqui. À direita do PSD, o CDS também não percebe o “ar do tempo” e, por isso, continua agarrado a um eleitorado que vai morrer nos próximos 20 anos.

Se isto continua, os meus filhos viverão num país sem um único partido minimamente liberal. Se calhar, Portugal é um país estruturalmente anti-liberal. Se calhar, Portugal vai ser sempre uma colónia ideológica de França.