quarta-feira, agosto 31, 2005

Beslan e o Eurocentrismo

O eurocentrismo é mesmo uma praga. E, às vezes, na maioria delas, dá para o esquecimento.

Beslan foi há um ano.

terça-feira, agosto 30, 2005

Haass: Índia. Kristol: clichés em redor de Hobbes

Grande Bernà,

Tanta pressão!! Estás a jogar com uma pressão demasiado alta. Em losango ou não?

Vamos lá aos livros, camarada liberal:

1. Acabei o Opportunity”, Richard Haass.
Tirando algumas ingenuidades em relação à China e Rússia (no sentido de Pequim e Moscovo fazerem o jogo pretendido pelas democracias), fica aqui espelhada aquela que será a grande estratégia americana do XXI: um multilateralismo liberal, à escola inglesa, à realismo liberal. Não o multilateralismo da “jurisdição mundial” da ONU, mas o multilateralismo que nasce da aliança entre potências demo-liberais. Existe a óbvia intenção de criar uma rede de grandes potências democráticas. Para quê? Em nossa opinião (a nossa Diana é o motor deste tema), os americanos querem fazer duas coisas: (1) dar sustentabilidade político-estratégica à globalização; finalmente perceberam que não há “fim de história”. (2) Preparar a Ásia para a “recepção” da China. Daí a nova prioridade: a Índia. Aliás, a aliança Washington-Nova Deli é revolucionária em termos do sistema internacional. Mais: é um passo notável – ao qual não se deu cavaco aqui na Europa – para a construção da “sociedade internacional”, ou melhor, para a aprofundamento da “sociedade internacional”. É que a utopia de Kant já existe em alguns sítios.

2. Estou a reler o “Neoconservatism, an autobiography of na idea”, do Irving Kristol, a bíblia do neoconservadorismo.
Os neoconservadores, em definitivo, não têm qualquer semelhança com qualquer escola de “direita”, “conservadora”, “liberal clássica” conhecida. Por que razão isto é assim? Porque têm uma visão completamente religiosa e/ou esquerdista (tendo a escolher a solução “e”. É que na América, o progressismo começou por ser um património da religião, dos movimentos evangélicos) de Maquiavel e Hobbes. E isto é muito grave quando se tem como meta a expansão da democracia liberal.

Maquiavel é despachado com esta expressão: “political pornographer”. Hobbes é despachado com o cliché do costume: é aquele que considera o Homem como besta-quadrada. Com tudo isto, não percebem que os regimes demo-liberais – sobretudo… os Estados Unidos da América – assentam em bases constitucionais que são completamente hobbesianas. Consequência no exterior: não sabem encarar um processo de democratização, de nation-building. Os nossos estados demo-liberais são hobbesianos. Vivemos em cima de Hobbes. Literalmente. Sobretudo os americanos, regidos que são pela constituição de 1787.

É que Hobbes não criou o poder absoluto mas o poder soberano. Qual é a diferença? O Absoluto não precisa de consentimento. É de cima para baixo. É uma imposição. O Soberano, ao invés, nasce de um pacto consciente e voluntário dos membros da sociedade. Vai de baixo para cima. No estado natural, naturalmente caótico, os homens têm liberdade para fazerem uma associação que coloque ponto final na desordem. Não só porque o “homem pode ser o lobo do homem” mas também porque há diversas concepções de Bem concorrências. Por isto, é preciso uma unidade - Leviathan - que coloque ordem (a montante) nesta conflituosidade, transformado o conflito em pluralismo. Sem Hobbes, não haveria o nosso pluralismo. Vou mais longe, seguindo Isaiah Berlin: sem Maquiavel, não haveria o nosso pluralismo. Maquiavel, quando destruiu a Cristandade, abriu o espaço – involuntariamente, é certo – para o Ocidente pluralista.

Mais: Como dizem, e muito bem, Tunhas e Gil, Kant é mais a continuação do que a negação de Hobbes. Habermas, Kagan e Kristol estão completamente enganados em relação a Hobbes. Kristol deveria conhecer melhor a sua própria constituição, criada por dois maquiavélicos, por dois hobbesianos, por dois humeanos: Madison e Hamilton. Sem a constituição de 1787, ou seja, sem o legado de Hobbes, não haveria EUA. Poderia haver uma certa América, mas estes EUA não existiriam.

Na Europa, os grandes génios políticos escreveram livros. Na América, os grandes génios políticos fizeram o maior país dos últimos dois séculos.

NOITES À DIREITA NO S.LUÍS

António Mega Ferreira e Pedro Mexia são, como já é conhecido, os dois convidados iniciais da próxima sessão das "Noites à Direita.projecto liberal" a ter lugar no próximo dia 22 de Setembro, no Teatro S. Luís, em Lisboa (ali bem perto da Brasileira).
Mega Ferreira será aquilo a que chamamos o agente provocador de uma conversa sobre "A Direita e a Cultura", uma relação muitas vezes complicada e polémica. Pedro Mexia dirá depois de sua justiça, seguindo-se uma espécie de "ponto de ordem" dos promotores das "Noites", desta vez da inteira responsabilidade de Rui Ramos. O debate será alargado a toda a assistência e aos restantes promotores.Contamos consigo. Não falte.

Os promotores das "Noites à Direita.projecto liberal"António Pires de Lima, Filipa Correia Pinto, Leonardo Mathias, Luciano Amaral, Manuel Falcão, Paulo Pinto Mascarenhas, Pedro Lomba e Rui Ramos.

Promessas...







Henrique, ontem disseste que "Os livros ficam para amanhã".
Estamos à espera. E não vamos esperar mais um mês e meio.

Leituras

Ao contrário do meu caro Henrique que se apaixona pela ideia e pelo conceito, eu devo confessar a minha preferencia pela acção e pelos jogos de poder. O prazer e obrigações académica têm-me levado para os lados da política externa e doméstica espanhola e pelo passado recente da relação peninsular.
Entre várias leituras não posso deixar de fazer algumas recomendações:

Sebastián Royo (ed.), Portugal, Espanha e a Integração Europeia

Gillespie, Rodrigo e Story, Democratic Spain: reshaping external relations in a changing world (obrigado Bernardo)

Paul Preston, Juan Carlos: Steering Spain from Dictatorship to Democracy

Maxwell e Spiegel, The New Spain: From Isolation to Influence

Balfour e Preston, Spain and the Great Powers in the Twentieth Century

Gil e Tulchin, Spain’s Entry Into NATO

Preston, The Triumph of Democracy in Spain

Armero, Política Exterior de España en democracia

Wiranda, The Iberian-Latin American Connection: Implications for US Policy

23-F de 1981

Tajero de Molina ainda nao sabe, mas mais do que a disparar para o tecto, está a dar um tiro no pé


Para se compreender a política externa espanhola importa ter em conta o seu profundo pragmatismo e para uma real conceptualização da relação peninsular é obrigatório exorcizar mitos e fantasmas, como os que afirmam um paralelismo romântico entre as duas transições democráticas ibéricas.
Ao contrário da folk tale tradicional, mais do que inspiração, a Espanha do imediato pós-fraquismo foi buscar ao Portugal de 74-75 o temor insurreccional e o exemplo da desagregação política e económica que a impeliu para uma transição pacífica e pactada.
Portugal e Espanha, nas suas políticas externas partilham a dicotomia entre o Atlântico e a Europa e, em Democracia, ambas contrariaram o novecentista Talleyrand que um dia afirmou que “a Europa acabava nos Pirineus”, mas foi a política externa espanhola que mais sofreu mutações.
Exemplos como o recurso ao atlanticismo pragmático com a adesão à NATO (1982-confirmada por referendo popular em 1986), como etapa necessária à integração europeia; a promoção histórica de relações preferenciais com o Magrebh e a revitalização recente da Hispanidad Latino-Americana, provam que a política externa espanhola é movida pelo interesse e pela projecção nacional.
Um exemplo seguido e a seguir atentamente.


segunda-feira, agosto 29, 2005

Perceber os americanos? Ler australianos

Grande Bernardo,

Então, ouvi dizer que a Roma deu “3” à Juve!

Leituras?

1.Bom, tenho andado muito – mesmo muito - pela Policy Review. De 2001 até 2005, já está quase tudo lido (no que diz respeito à política externa e ao pensamento político). Em meu entender, é a melhor publicação de Política dos EUA. É do Hoover. O Hoover é um think tank conservador, ligado à universidade de Stanford. Quando digo conservador – no sentido americano – refiro-me, obviamente, ao legado do liberalismo clássico. O conservador Hoover é distinto do neoconservador AEI e a Policy Review não é, com certeza, a Commentary ou a Weekly Standard. Na Policy Review, escreve o tipo que mais admiro na intelectualidade americana: Peter Berkowitz, O liberal clássico.

2.Depois, ando a descobrir uma coisa: se queremos perceber os americanos, temos de ler australianos e canadianos. Explico-me: australianos e canadianos também são filhos do Império Inglês, mas não têm aquela pulsão moral sabiamente designada de Excepcionalismo americano. Ou seja, têm uma forte matriz do liberalismo clássico mas recusam sempre a arrogância ou ingenuidade (depende do ângulo) moral dos americanos. Por outras palavras, sabem criticar o excepcionalismo/wilsonianismo/neoconservadorismo através das lentes do liberalismo clássico. Recomendo esta revista australiana: Policy. Ler, sobretudo, estes dois autores: Edward Rhodes e Owen Harries.

3. Os livros ficam para amanhã. Agora é tempo de ir… ler.

Grande abraço,
Henrique "O Sinédrio" Raposo.

Alguém advinha quem é?


Angola 1972

Estás Vivo Homem?


Henrique Raposo, podias partilhar connosco o que andas a ler?
E já agora, após um mês e meio de ausência, o que andas a pensar?
Se não for pedir muito...

Antes de 2007, para ver se ainda ficas na História...

Leitura Recomendada

De Regresso



Pois é rapazes, estou de regresso. Não vos trago uma medalha Lenine, mas esta grande estrela. Deixo-vos também uma pequena recomendação de entre as minhas leituras de férias- Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire de Witney W. Schneidman.
De Kennedy e Salazar a Ford e Spínola, esta é uma obra fundamental, tanto para a análise das nossas relações bilaterais com os Estados Unidos, como para a conceptualização de Portugal e da África Portuguesa no contexto da Guerra Fria e das aventuras da nossa política externa entre o isolacionismo forçado e o terceiro-mundismo doutrinário. Um excelente complemento, por exemplo, à investigação de Luís Nuno Rodrigues e de José Freire Antunes com a qual tem até certos paralelos, como a inclusão de pormenores subterrâneos e o recurso à História oral.
É curioso que este livro, apesar de ter tido uma grande projecção nos Estados Unidos (recomendado e recenseado pela Foreign Affairs), passou despercebido no nosso mercado. O mesmo já havia acontecido com algumas obras de Kenneth Maxwell e com a investigação do curioso Scott MacDonald, preteridos, talvez, pela rectidão académica de Fernando Rosas e Francisco Louçã.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Revista Atlântico






Já está nas bancas a Atlântico Nº6. Entre outros:

«Imagine-se!», Helena Matos.

«Portugal e Espanha, os Nós e os Laços», Luciano Amaral, António Nogueira Leite, Marcello Duarte Mathias, Joaquim Aguiar.

«Iraque: Libertação não Significa Liberdades», Henrique Raposo.

«Tony Blair: Em Busca de Uma Liderança Perdida», Bernardo Pires de Lima.

«A Nova Europa Existe. E a Velha Também», Henrique Burnay.

«Escolhas», Vítor Cunha.

quinta-feira, agosto 25, 2005

APOIOS PRECISAM-SE!

Um projecto liberal precisa de sustentação. De se enraizar culturalmente na sociedade portuguesa. Que melhor veículo para essa expansão do que o Livro? Para tal são necessárias duas coisas: uma boa livraria, e gente com vontade de levar a tarefa para a frente.
Seria bom que Lisboa tivesse um - ou vários - espaço(s) de culto liberal, onde a literatura, nas suas diversas vertentes, fosse a alavanca para uma sociedade mais pluralista, liberal e culta.
Por isso apelamos aos senhores capitalistas deste país a atenção devida para este pequeno/grande projecto.
Portugal só tem a ganhar.
[Bernardo Pires de Lima e Henrique Raposo]

terça-feira, agosto 23, 2005

Esta é para ti Francisco!

Portugal: esse país de gente esperta

Foguetes animam festas, enquanto fogos alastram

«Uma festa popular em S. Gens, Gondomar, com lançamento de fogo-de-artíficio à mistura, acabou por provocar um incêndio, anteontem de manhã, que demorou mais de 12 horas a ser combatido».

Para os que têm memória curta

Poluição Autárquica

Uma pequena volta pelo país e os nossos olhos são confrontados com os mais monstruosos outdoors com os candidatos às autarquias portuguesas. É impressionante a falta de gosto e de bom-senso. Já não há limites. Coloca-se a “linda” cara do candidato onde quer que seja. Não interessa se fica enquadrado com a paisagem, se está a tapar uma publicidade paga por um qualquer empresário. A única coisa que importa é que o povo veja o olhar sábio e paternal do candidato e se sinta tocado pelos “originais” slogans de campanha.
Será que ainda há alguém que vote por causa do outdoor??
Será que são necessários outdoors tão grandes?
Será que temos que temos mesmo que levar com este fenómeno vários meses antes das eleições?
Já não há paciência para tanto 3º mundismo...

sexta-feira, agosto 19, 2005

Stasera, ore 21.15


Começa hoje a época 2005-2006.
Já não consigo ver o Sporting na televisão. Aliás, há muito que não consigo ver futebol na TV.
Esta vai ser mais uma época de sofrimento até ao fim. A minha 12ª consecutiva a acompanhar o Sporting jogo sim, jogo sim. Confesso que já fui mais maluco: ia a todo o lado, casa, fora, treinos, chegadas de aeroporto, jantares de aniversário, etc (o etc não é para aqui chamado...). O ano passado ainda tive forças para fazer algumas destas coisas. Mas a coisa correu mal...
Este é ano de Centenário. Renovei o meu cativo e lá vou eu.
O que vale é que eu já nem gosto de futebol.
Só gosto do meu Sporting.

ps: E da minha Roma, mas isso é outra história...

Já começa a irritar

Agora foi o Aviz. Até breve.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Atlântico

Fora do Mundo

O Pedro Mexia, o João Pereira Coutinho e o Pedro Lomba são da minha geração. São três "colunistas" (não arranjei melhor termo comum para os caracterizar) que me habituei a ler desde o Indy. Acompanhei-os na Coluna Infame, depois no João Pereira Coutinho e, no último ano e meio, no Fora do Mundo (este com participação de Francisco José Viegas). Sigo o que escrevem nas páginas do DN e, de vez em quando, no Expresso, no caso do Pereira Coutinho.
O Fora do Mundo acaba hoje. É mais um excelente blog que se vai. Tem sido norma ultimamente. Era um blog essencialmente cultural, não descurando algumas intervenções políticas, mas essencial para quem gosta de ler, sobretudo nas entrelinhas.
Sei que muita gente da minha geração - que afinal é a dos autores, também - os tem tomado como referência. Talvez porque se revêm no que escrevem. Talvez porque estejam fartos de ler os "suspeitos do costume". Talvez porque percebem que o talento ainda pode ser premiado e reconhecido num país assente num politicamente correcto que até mete nojo.
Em nome do Sinédrio, obrigado ao Fora do Mundo e aos autores. Voltem sempre.

quarta-feira, agosto 17, 2005

15 Agosto 2005

O dia 15 de Agosto de 2005 vai ficar marcado na História do Médio Oriente. Pela primeira vez, desde a criação do Estado de Israel, este procede à redefinição das suas fronteiras com o intuíto de promover um novo relacionamento com a Palestina, desmantelando os colonatos na Faixa de Gaza. Sharon, esse "tirano" para a esquerda/anti-globalização/boaventura sousa santos/rosas-anacleto, fez aquilo que muito poucos tiveram coragem de fazer: ir de encontro ao seu próprio povo em favor da coexistência de dois Estados soberanos e vizinhos.
Claro que esta é, também, uma jogada política: com este passo, passa-se a "batata quente" para o lado da Autoridade Palestiniana que se vê, assim, obrigada a lidar com duas responsabilidades. Primeiro, em corresponder à sua parte no processo de paz e instauração de dois Estados que coexistam; segundo, em sobrepôr a sua vontade legítima à dos grupos radicais como o Hamas.
Israel deu um passo fundamental (saliente-se os esforços diplomáticos e financeiros das potências europeias e da Administração W. Bush - recorde-se que o presidente dos EUA foi o primeiro líder norte-americano a reconhecer como inevitável a coexistência dos dois Estados, como única solução para o problema). A Palestina tem e deve corresponder. Pode não haver outra oportunidade e uma desilusão no campo israelita provocará, certamente, uma escalada de violência, terrível para a região e apetecível para as redes terroristas.
Aguardaremos os próximos episódios.

Por falar em escândalos...

Que dizer das férias na Tanzânia do Eng. Sócrates enquanto o país arde, cidadãos ficam sem nada e bombeiros morrem em funções?
Em Espanha, Zapatero já interrompeu as suas férias devido ao desastre das tropas espanholas no Afeganistão, provocando 17 mortos.
Andamos a brincar ao governos, de certeza.

ps: Onde está a Oposição quando o Governo socialista comete erros desta gravidade? De facto, a direita portuguesa tem o que merece.

quinta-feira, agosto 11, 2005

A Era do Escândalo

Vivemos na era do escândalo! Qual é o interesse de uma notícia que não tenha algo de verdadeiramente escandaloso?
Neste espírito, a comunicação social portuguesa anda apostada em fazer uma verdadeira inquisição às últimas entidades prósperas do nosso país: as nossas maiores empresas.
O novo episódio desta saga dá pelo nome de “mensalão”. Ao ler a última edição do Expresso e não conhecendo pormenores e principalmente os intervenientes brasileiros deste escândalo, quase fiquei convencido que duas das nossas grandes empresas, o BES e a PT, poderiam estar envolvidas nesta história de corrupção.
No entanto, ao longo desta semana, ao estudar um pouco mais o caso e ao assistir ao espectáculo que nos chega do outro lado do Atlântico, começo a ficar totalmente esclarecido sobre o papel de empresas portuguesas no “mensalão”: Nulo!
Ao assistir ao rol de intervenções estapafúrdias e contraditórias por parte do deputado denunciante Roberto Jefferson, típicas de um político do 3º mundo a gozar os seus momentos de glória, fico estupefacto como é que a comunicação social portuguesa pode ir a reboque de tais artistas.
A verdade é que os próprios protagonistas já vieram desmentir o envolvimento de empresas portuguesas neste escândalo brasileiro, que muitos gostariam que fosse português. A verdade é que no Brasil nunca foi objectivamente referido o envolvimento de empresários portugueses no “mensalão”.
No entanto, mais uma vez, os danos na imagem e nome das instituições já estão feitos. Mais uma vez também, a generalidade da opinião pública portuguesa, já está convencida que isto é só mais um episódio protagonizado pelos malandros dos poderosos empresários portugueses. Não nego que também existem empresários pouco sérios. No entanto, um dos maiores riscos da democracia é juntar tudo no mesmo saco: aldrabões e sérios; culpados e inocentes.
Caso se venha a confirmar que todas estas notícias são infundadas, será que os responsáveis vão pagar pelos prejuízos que causaram? Claro que não! Mais uma vez, os mesmos jornalistas partirão para outra.
É inegável o importante papel que um jornalismo de investigação sério e rigoroso tem na sociedade. No entanto, a deturpação deste tipo de jornalismo, só contribui para a fomentação de um clima de suspeição, muitas vezes infundado, sobre as instituições portuguesas. É muito negativo que os cidadãos não tenham confiança nas suas instituições e em nada contribui para a elevação da nossa auto-estima (que já está tão baixa).
Só espero que o feitiço não se vire contra o feiticeiro e num futuro próximo os portugueses deixem de ter confiança também nos seus órgãos de comunicação, passando a juntar todos os jornalistas no mesmo saco: competentes e incompetentes; sérios e desonestos.
Permitam-me um pequeno desabafo: já tenho saudades de ler o Expresso com a certeza de que o que está escrito nas suas páginas é fruto de uma investigação séria e rigorosa .

quarta-feira, agosto 10, 2005

A esperança

Em 1985 tinha 14 anos.
Lembro-me bem do dia em que o Prof. Cavaco Silva ganhou as eleições legislativas. Recordo-me de dizer ao meu pai: - isto agora é que vai ser a sério.
Tinha 14 anos. E tive esperança num Portugal desenvolvido, europeu, mais aberto, mais civilizado.
Cavaco Silva foi primeiro - ministro durante 10 anos. E durante essa década o país conheceu o seu período de maior desenvolvimento, de maior estabilidade, de maiores reformas estruturais, de maior autoestima, de maior esperança no futuro.
Cavaco Silva foi o Estadista do desenvolvimento, da abertura da economia, da abertura da sociedade e da moeda única.
Passaram-se dez anos desde o fim do "cavaquismo". De 1995 a 2005 o país estagnou, entrámos em crise, perdemos a confiança, perdemos a esperança.
Vivemos hoje uma das mais graves crises dos últimos trinta anos. Crise económica, crise financeira, crise moral, crise de ideais, crise de confiança, crise de esperança.
Mas há uma luz de esperança ao fundo do tunel... em Janeiro de 2006 Portugal pode retomar a rota de convergência com a Europa desenvolvida.
É certo que o Presidente da República não tem, nem deve ter, poder executivo. Mas pode inspirar, puxar pela autoestima, dar um exemplo de exigência e rigor, aconselhar e, acima de tudo, assegurar os portugueses que não alinhará com eleitoralismos, com interesses partidários ou outros.
Numa sociedade aberta - um dos créditos do Prof. Cavaco Silva -, compete a todos trabalhar pelo desenvolvimento do país. Mas, pelo seu exemplo, o Presidente da República pode devolver-nos a capacidade de voltar a acreditar. E sem esperança não se edifica o futuro.

p.s. A todos os companheiros de blog um grande abraço. Desculpem a prolongada ausência. Mas estou de volta. E cheio de vontade de trabalhar pois Portugal bem precisa de muito trabalho.

domingo, agosto 07, 2005

Ibrahim Ferrer - 1927/2005



Morreu uma das grandes vozes da música latina.
Ibrahim Ferrer, cubano, foi um dos nomes que fez parte do célebre Buena Vista Social Club, álbum produzido por Ry Cooder que deu origem a um documentário brilhantemente realizado por Wim Wenders.
Cooder viajou até Havana para fazer umas gravações com músicos africanos que, supostamente, iriam encontrar-se com ele aí. No entanto, não aparecerem e, em alternativa, Cooder resolveu procurar músicos que "transportassem" a verdadeira música tradicional cubana. O que encontrou foi uma velha geração de talentos esquecidos por uma ditadura socialista. A décadas de esquecimento, seguiram-se tempos de estrondoso sucesso mundial.
Ibrahim Ferrer foi um desses talentos perdidos que Cooder fez o favor de mostrar ao mundo. Encontrou-o num apartamento decadente da velha Havana e levou-o para os melhores palcos mundiais.
Não me esqueço do brilho que vi nos olhos de Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rúben Gonzalez e companhia, quando chegaram a Nova Iorque e sentiram o ar da Liberdade...

quarta-feira, agosto 03, 2005

Remember the Alamo.

Citando o grande Clemente, “vou partir naquela estrada” para férias. Prometo enviar um crónicas texanas ao jeito de Tocqueville. Entretanto, aguentem o forte rapazes!

Desemprego ou Parasitismo?

Já não é a primeira vez que vejo notícias de empresas que tentam arranjar trabalhadores e não conseguem.
Pedem ajuda aos Centros de Emprego onde estão registados milhares de desempregados e o resultado normalmente é sempre o mesmo: não se apresentam candidatos ou os que se apresentam encontram as mais variadas desculpas para se livrarem do sacrifício:
- ou têm um familiar doente;
- ou moram longe;
- ou faz muito frio;
- ou dá muito trabalho.

Por vezes, ainda aparecem uns sinceros que dizem: “entre andar uns km para ir para o local de trabalho, passar 8 horas a bulir, aturar os caprichos do patrão ou receber subsídio de desemprego, desculpem meus caros, prefiro a segunda hipótese. Adeus e até à próxima! Vou para o curso de formação profissional!”.
Apesar desta realidade, ainda temos uma grande fracção deste país convencida de que o Estado Social é que nos traz a prosperidade e a felicidade. Puro delírio!
A verdade é que esse mesmo Estado Social é, em larga medida, responsável, por um lado, pelo desemprego, por outro, pelo parasitismo.
Fomenta o parasitismo quando atribui prestações sociais “cegas” a quem não quer trabalhar e quando adopta a teoria de que um emprego deve ser para a vida. Esta teoria, protegida por uma Legislação Laboral inadequada aos tempos actuais e que confere uma rigidez absurda ao nosso mercado de trabalho, é responsável por muitos males do país:
Se eu sei que dificilmente sou despedido, que independentemente de produzir mais ou menos, recebo o mesmo, o resultado natural é não me preocupar seriamente em render e produzir mais; se eu produzo menos, a minha entidade patronal é menos rentável. Se o meu patrão tem prejuízo, eu fico com os salários em atraso e o Estado não recebe a receita dos impostos.
Se isto é assim, o meu país produz menos riqueza e é menos atractivo ao investimento.
Mas, mais do que isto, também o Estado Social é responsável, em larga medida, pela existência de verdadeiros desempregados, muitos deles jovens que não têm oportunidade de entrar no mercado de trabalho, porque este se encontra fechado.
Não tenho dúvidas que o dinamismo e flexibilidade contribuiriam para a redução, quer do desemprego, quer do parasitismo.
No estado actual, permitam-me um conselho a quem está sem emprego, seja parasita ou verdadeiro desempregado:
Filiem-se num partido do Bloco Central, façam a carreirinha como deve ser e verão que, mais tarde ou mais cedo, o emprego aparecerá. Mas, atenção, será um emprego precário, dependente das flutuações normais da alternância democrática.

terça-feira, agosto 02, 2005

Light


Estamos, indiscutivelmente, na era do “ligeiro”. Depois da margarina light, do tabaco light, dos iogurtes light e da literatura light, é surpreendente a ligeireza com que este executivo se lança na nomeação do ridículo. Armando Vara, da Fundação para a Prevenção e Segurança para cabeça-de-lista à Assembleia Municipal de Vinhais, para a administração da CGD.

Lá estou eu com as comparações

Se Nino Vieira regressou ao poder na Guiné Bissau;
se o novo rei da Arábia Saudita tem 82 anos;
se o Armando Vara foi nomeado para a Administração da CGD;
porque é que Mário Soares não há de ser candidato à presidência da República?

segunda-feira, agosto 01, 2005

A blogosfera e o país político em Agosto:

E mais uma baixa entre os clássicos. Jaquinzinhos tornam-se espécie protegida.

As Faces de Pedro



Parte da minha manhã de Domingo foi dedicada a ler a entrevista de Pedro Santana Lopes à Única. Gostei! Foi um bom entretenimento para aquelas manhãs de preguiça dominical.
Encontramos as várias facetas de Santana:
- Pedro o Conquistador, que cresceu no seio de uma família numerosa e remediada, que frequentou a escola oficial de bairro, que trabalhou arduamente para pagar o seu 1º automóvel e para ajudar a família (apenas comendo duas sandes de ovo mexido e um pacote de leite com chocolate), que lutou nos meandros da política para chegar ao topo;
- Pedro o Católico, que foi catequista e acólito, que fez a 1ª comunhão, o crisma, a comunhão solene, a perseverança e que frequentava assiduamente o seminário;
- Pedro o Bonus pater familias, pai de cinco filhos, que ajuda nos trabalhos de casa, que, apesar do mísero ordenado que recebe como Presidente de Câmara, se esforça para lhes poder oferecer as melhores condições possíveis;
- Pedro o Anti-Social, que não tem paciência para cínicos, queques, copos de leite, paparazzi e grandes ajuntamentos de gente (leia-se festas e discotecas);
- Pedro o Ingénuo, que por essa razão participou no programa “Cadeira do Poder” na SIC e que não tem “killer instinct”;
- Pedro o Supersticioso, que acredita em números da sorte (7 e 34) e em pulseiras mágicas;
- Pedro o Pobrezinho, que não tem casa e carro próprio e que é despegado de coisas materiais;
- Pedro o Museólogo, que em jovem ia todos os dias a museus, elaborando relatórios sobre os mesmos de modo a acrescentar 5$00 à semanada;
- Pedro o “enfant terrible”, crítico dos líderes, sincero e corajoso que diz sempre o que tem a dizer e que recusa cargos quando discorda das opções do partido/governo;
- Pedro o “Livro Aberto”, que prefere mil vezes sair à frente de toda a gente e beber um copo com os amigos do que andar escondido à tarde em hotéis com portas fechadas;
- Pedro o Soarista;
- Pedro o Injustiçado, que sofreu um golpe de Estado constitucional, que não tinha margem de erro no governo, que é vítima dos mais variados boatos (festas em São Bento, falta de pontualidade em encontros de Estado, que passa cheques sem cobertura, que não paga a renda, que faltou a um jantar de Estado para dormir uma sesta ...);
- Pedro o Resistente, que foi gravemente ferido em combate, mas que não morreu politicamente.

Nota-se que Santana faz sempre um esforço para construir a imagem de homem com um percurso de vida que lhe confira o carisma, a vivência e o sofrimento ideal para ser um verdadeiro líder.
Pessoalmente, simpatizo com Santana Lopes. Será, com certeza, um homem porreiro para tomar um copo, ir ver um jogo de futebol e até, sendo uma pessoa inteligente, para falar de coisas sérias.
Mas, a meu ver, para se ser um verdadeiro líder é preciso muito mais. Deve-se, pelo menos, saber transmitir confiança, ponderação, serenidade e até ser-se um pouco previsível. Além disso, deve-se saber rodear pelas pessoas certas. Definitivamente, Santana não possui aquelas características e muito menos se sabe assessorar.
Santana quer ser tudo e o que normalmente acontece às pessoas que querem ser tudo, é que acabam por não ser nada .
“Esperem por mim!” diz Santana .
Esperaremos...