terça-feira, janeiro 10, 2006

Apenas, um Presidente mais


Agora que estão a terminar 10 anos de mandato presidencial de Jorge Sampaio, permito-me fazer um pequeno balanço.
Foi Sampaio um bom Presidente?
Porventura, a esta pergunta responderia a grande maioria dos portugueses com um convicto “sim!”. De facto, com as competências que o nosso sistema atribui ao presidente, não é fácil ser-se um mau presidente; no entanto, penso que é necessário algo mais do que boa vontade para se ser realmente um bom Presidente. Para mim, Sampaio foi um presidente “nim”!
Mas comecemos pelo princípio. Fruto de uma elite, Sampaio é um homem que tem tido alguma sorte na sua carreira política. Depois de falhar na liderança do PS, chegou à CML, vencendo as eleições contra uma direita desgastada por vários anos de poder, órfã de Krus Abecassis e enfrentando um adversário cujos comportamentos na altura, não poderiam merecer a confiança dos lisboetas, Marcelo Rebelo de Sousa (quem não se lembra do refrescante mergulho no Tejo?). Daí até à presidência, foi um ápice. Um ano antes das eleições, Sampaio anuncia a sua candidatura, concorrendo contra um Cavaco Silva que vivia tempos de arrogância e com a fragilidade própria de quem terminava 10 anos de poder. Apoiado por todas as forças de esquerda, Sampaio ganha as eleições, ou melhor, Cavaco perde-as.
Segue-se um primeiro mandato sem história, em que o Presidente assistiu impávido e sereno ao espectáculo Guterres, evitando qualquer deslize que pudesse comprometer a sua reeleição. O segundo mandato não seria muito diferente, se não fosse Durão Barroso ceder a uma tentação e seguir para Bruxelas, deixando como legado Pedro Santana Lopes. Nesse momento, Sampaio tremeu. Foram necessárias várias semanas de consultas às personalidades mais extraordinárias (como se não bastasse consultar um núcleo duro) para que o presidente tomasse a decisão de nomear Santana Lopes; enquanto isso, o país entretinha-se com especulações e afundava-se numa incerteza quanto ao futuro. Ainda assim, embora decidindo tardiamente, Sampaio teve a coragem de enfrentar o seu partido que, no entanto, viria a recompensar poucos meses mais tarde ao “oferecer” repentinamente o poder a Sócrates. Hoje, passado um ano, reconheço que foi uma decisão acertada.
A estas incidências juntou umas largas centenas de discursos, cujo conteúdo derivou entre um conjunto de “pás” e um conjunto de palavras confusas, cujo sentido nem sempre foi fácil de decifrar. Condecorou também inúmeras personalidades, seguindo, por vezes, critérios, no mínimo, estranhos (como, por exemplo, uma célebre bombista/nutricionista).
Em tempos de crise, Portugal precisava de um presidente com uma voz clara, forte e com capacidade para suportar um rumo que se afigurava (e afigura) inevitável com vista a assegurar o nosso futuro. Penso que Sampaio não foi essa voz. Na sua tentativa de se comportar como um árbitro isento e procurando agradar a gregos e troianos, as suas intervenções pautaram-se, não raras vezes, por, como se costuma dizer, “dar uma no cravo e outra na ferradura”. Tanto estava num dia a dizer que é preciso fazer muitos sacrifícios para combater o défice, como surgia noutro a dizer o óbvio, ou seja, que a vida não se resume ao défice. Tanto afirmava num dia que é necessário repensar o sistema judicial, como manteve uma confiança absurda num dos responsáveis pelo estado de completo descontrolo do sistema, Souto Moura.
Devido a um enorme conjunto de ambiguidades, as posições de Sampaio nunca conseguiram realmente ser interiorizadas pelos cidadãos e governantes, acabando por se diluir sempre numa panóplia de opiniões que nos entram diariamente pelos ouvidos.
Sampaio foi, apenas, mais um presidente. Estou convencido que a história não lhe guardará um lugar de grande relevo. Com isto não pretendo, minimamente, colocar em causa a sua boa vontade, a sua seriedade e o seu empenho. Simplesmente, por muito impopular que seja a minha posição, no cômputo geral, não apreciei a forma como exerceu o mais alto cargo da nação.
A verdade é que, bem ou mal, Jorge Sampaio ficará associado a um período em que a nossa sociedade foi minada por diversas crises: económica, de autoridade do Estado, de confiança, de valores...
Será que poderia ter feito mais?

4 Comments:

Blogger andarilho said...

Há um problema de chefia ou liderança que nunca esteve tão presente como nestas eleições. As expectativas que os portugueses têm da figura presidencial. Elabora no Exilio de Andarilho esta semana.

6:16 da manhã  
Blogger lusitânea said...

Eu conheci o sr numa altura em que a mulher era balconista na TAP no marqês de pombal pois que enquanto namoravam eu estava à espera com o carro cá fora em 2ª fila.Por isso nunca mais teve o meu voto.Repare-se na carreira fulgurante da senhora dentro da TAP.Os prejuizos são para todos nós...
Outra vez vim de Bruxelas atras do sr que passou a viagem toda a fazer teatro dando a ideia dum presidente de câmaro atarefadíssimo.Basta ver com que antecedência anunciou a sua candidatura a PR...como organizou aquelas tristes distribuições de medalhas e lanches (pagos por nós) para se reelegar.
Desempenho?Como é que estamos?Quem foi sempre o responsável?O sr NUNCA deveria ter sido eleito porque de facto não tinha nem teve categoria para o lugar!UM CONFUSO!Eu ainda vou escrever qualquer dia mais em pormenor acerca deste periodo negro...Vamos deixá-lo acabar com a dignidade que o cargo merece...

10:56 da manhã  
Anonymous Igrejas said...

nem para nota de rodapé nos livros de história...

11:02 da manhã  
Blogger cardealdealpedrinha said...

Parabens Francisco.Muito bem feita esta análise.Clara,independente e objectiva.
Um abraço

10:30 da tarde  

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