quarta-feira, janeiro 25, 2006

Uma medida

O principal problema do país não é, ao contrário do que se diz, o défice orçamental, o principal problema do país é o défice comercial, que entre outras coisas afecta o défice orçamental. Um dos principais factores que agrava do nosso défice comercial é a dependência energética nacional. De pouco valem todos os sacrifícios e todos os cortes se continuarmos a comprar mais do que produzimos. Podemos incentivar aumentos de produtividade de maneira a aumentar as exportações, mas mais produção exige maior importação de energia, ou seja, entramos num ciclo vicioso. Uma Grande Política Energética que procure diminuir a dependência do país aumentado a produção energética é de importância vital para o nosso futuro e é uma matéria que deveria ser uma das primeiras a obter a atenção do novo Presidente, que pode e deve transformar esta questão num novo desígnio nacional.
Feita a descolonização, a democratização, a adesão à Comunidade Europeia e à moeda única, chegamos a um ponto onde não vemos maneira de alcançar a outra grande tarefa que nos tem ocupado nas últimas décadas: Atingir os níveis de desenvolvimento dos restantes países europeus. Não é acenando com subidas do PIB e descidas do défice orçamental que se consegue mobilizar a população. Uma ideia simples como esta, se bem estudada, aplicada e divulgada pode operar grandes mudanças no país em áreas tão distintas como as finanças públicas, a economia, o desenvolvimento tecnológico e o ambiente. Uma menor dependência neste domínio significa uma menor dependência do petróleo e do gás oriundo maioritariamente de regiões instáveis politicamente e uma menor exposição às crises internacionais que ciclicamente nos afectam, permite também a afectação de recursos que actualmente saem para o exterior para outros domínios onde eles são mais necessários. Uma aposta forte em novas fontes de energia pode também traduzir-se na fixação de novas indústrias tecnologicamente avançadas ligadas a este sector, com contratação de mão-de-obra especializada. Finalmente pode e deve contribuir para a diminuição das emissões de CO2.
O papel principal cabe ao governo: orientando e estimulando os investimentos públicos e privados para este sector; centrando o plano tecnológico nas questões energéticas com projectos de investigação vocacionados para estudo de alternativas às fontes de energia tradicionais, no melhoramento das performances obtidas no uso de energias limpas e no apoio à aplicação dessas inovações na indústria automóvel; analisando seriamente a questão nuclear; realizando pesquisas na vasta zona económica exclusiva portuguesa; promovendo e incentivando a construção de edifícios auto-suficientes em termos energéticos; combatendo o desperdício; implementando políticas de transportes nas grandes cidades; promovendo um verdadeiro ordenamento do território, etc. Mas o Presidente da República é a única pessoa que pode transformar todas estas políticas numa grande questão nacional que envolva todo o país e que não seja vista nem a curto nem a médio mas a longo prazo.