sábado, fevereiro 25, 2006

Isto, com calma, ainda chega a bom porto

Caro Bernardo,

Sabes perfeitamente que partilho contigo a vontade de ver emergir uma alternativa liberal de Direita. No entanto, devo dizer que sou um pouco mais optimista e ainda acredito na possibilidade de conversão programática e ideológica do centro- Direita e da Direita partidária já existente. Os suspeitos são os do costume e dispensam apresentações, e por eles poderá passar a evolução orgânica no sentido de uma meta liberal. Ainda assim, surgem as óbvias dificuldades.
No caso do PSD há a, mais que certa, incompatibilidade a priori da estruturas de base e intermédias; a mobilidade estratégica a caminho do poder; ou a polarização de facções personalizadas ao nível de decisão. Se bem que, a actual dificuldade de competição com o PS no centro reformista e social-democrata, poderá obrigar o PSD a uma reconversão da presente vocação catch-all para uma maior selectividade ao nível de apoios provenientes do sector económico e investidor. O debate europeu, nos próximos anos poderá ser, também uma fonte de fractura, mas sem grandes consequências para este tema.
No caso do CDS-PP, qualquer facção emergente com propósitos liberais e contemporâneos terá que enfrentar o dogmatismo inabalável da tradição democrata-cristã. Mas tudo depende, também, do estado eleitoral e orgânico do partido.
A continuidade da presente linha não deixa advinhar um futuro risonho e as ressurreições personalizadas do CDS-PP não são um recurso infinito. Também, se reparares, ao contrário dos seus parceiros do arco constitucional que, apesar de alguns percalços necessários, evoluíram gradualmente, o CDS-PP tem tido uma vida atribulada com constantes mudanças de rota, inversões programáticas e flutuações orgânicas. Independentemente de indiscutíveis momentos de qualidade política, a credibilidade do CDS-PP enquanto parceiro de Poder, no longo curso, não deixa de sofrer com essa herança de instabilidade.
Paulo Portas compreendeu, decerto, a necessidade de uma reabilitação do CDS-PP enquanto parceiro de coligação, ao longo dos executivos Durão Barroso e Santana Lopes, mas não antecipou o retrocesso que se seguiu à sua saída. A presente linha suicida de Ribeiro e Castro não augura um futuro risonho e, algures, down the line, vai-se levantar a questão se vale realmente a pena a reabilitação do partido numa óptica liberal. Daí a urgência na mudança de rumo.
Por outro lado, se for, de facto, impossível a emergência liberal dentro das estruturas partidárias já existentes, os problemas serão maiores. A criação de um novo partido terá de olhar com muita atenção para o exemplo de Manuel Monteiro e da Nova Democracia. Várias fontes de financiamento, estrutura partidária implantada, liderança carismática, publicidade mediática e, até, a Dina, nem sempre prometem um sucesso eleitoral. Aliás, o PND é um study case de insucesso eleitoral, por razões, algumas, desconhecidas.
Qualquer vontade para a criação de um partido de Direita Liberal terá de olhar com muita atenção para a viabilidade deste projecto no mercado ideológico e eleitoral. Não se deve confundir a projecção de uma vontade liberal ao nível de uma elite cultural e política jovem, informada e urbana com o todo eleitoral. O recurso à transformação orgânica no seio do PSD e do CDS-PP tem esse trunfo crucial: a, já existente, estrutura e um eleitorado que, com alguma habilidade estratégica, se poderá converter ideologicamente.
Um partido novo, neste aspecto, estará demasiado órfão, especialmente, num sistema eleitoral como o português, cristalizado há 3 décadas com a única excepção para a emergência de uma coligação de mensagem política periférica e extremada, mas com facilidade mediática.
O Bloco de Esquerda e a sua estratégia, hábil, de valorização do voto urbano podia servir de boa lição para um partido liberal. Mas as vocações ao nível do eleitorado e da herança são algo diferentes. Enquanto que o Bloco nasceu da coligação de forças já periféricas, um partido de Direita liberal seria, inquestionavelmente, o fruto de facções dissidentes do PSD e do CDS-PP. E na criação de um partido de facção com sucesso eleitoral é necessária uma habilidade minuciosa.
Entre outras, é imperioso que a facção seja alargada, e heterogénea no que diz respeito ao passado político dos seus membros. Tens de ser capaz de ver caras novas, com qualidade e vontade, mas também caras tradicionais, com longo passado que tragam credibilidade e alguma personalização à liderança. Mesmo que privilegies uma inicial implantação urbana, tens de ser capaz de garantir financiamentos latos. E aqui entras num ciclo vicioso: os financiamentos só chegam se o partido tiver hipóteses de ser Poder no médio/longo prazo e o partido só chegará perto de alguma sombra de Poder ou de oposição se tiver financiamentos e um dispersa implantação geográfica.
Estes e outros problemas, são as fontes da minhas reservas em relação à viabilidade de uma Direita liberal fora das estruturas partidárias já existentes. Aliás, olhando para os presentes fluxos ao nível partidário e executivo europeu e, até mesmo, para as dissidências internas no PSD e no CDS-PP, há sinais claros que seja esse o sentido para o futuro. As evidências não deixam muita margem de manobra, só que em Portugal, como sempre, mexe-se um pouco mais devagar.
Um grande abraço

3 Comments:

Anonymous Bravo said...

A criação de um partido Liberal só poderia ocorrer no quadro de uma refundação do sistema partidário português, semelhante à ocorrida em Itália em 1993/94, que fizesse implodir os partidos existentes (nomeadamente o PSD e o CDS) e emergir novos partidos. Enquanto tal não ocorrer, a criação de um novo partido estaria condenada ao mesmo destino de PRD e PND.
A "conversão" de PSD ou CDS às teses liberais é mais possível, mas não mais provável. O PSD precisamente porque disputa o centro (pelo que concluo o contrário, i.e., para mim tal facto vem reforçar a sua vocação de catch-all party). O CDS porque o conservadorismo não-liberal parece-me bastante enraizado (embora conheça menos bem este partido).
Independentemente de tudo isto, falta ao movimento liberal (partindo do princípio que existe) passar da tal "elite cultural e política jovem, informada e urbana" para a opinião pública. O que não tem acontecido.

3:21 da manhã  
Blogger AA said...

Muito bem Gonçalo, há aqui food for thought!

10:38 da manhã  
Blogger Ricardo Gonçalves Francisco said...

Sonhos de "liberalização" de partidos como o PSD ou o CDS, são isso mesmo, sonhos.

A impressão de alguém que está fora das máquinas partidárias, como eu, para o dizer é a seguinte:

1. Ambos são "partidos de poder". As estruturas são constituídas para a gestão deste poder. As estruturas reagem à diminuição do poder, quer seja na forma de tomada de medidas liberais, quer seja na forma da tomada de medidas impopulares (com efeitos negativso no curto przao)

2. Especialmente o CDS, mas tambem o PSD, embora tenham aulas que acreditam na bomdade da redução do estado, isto não resulta de ideologia liberal de fundo. Se assim o fosse assumiriam outras posições no que toca à liberdade no campo social. Mais uma vez, são ambos partidos que sentem bastante a influência da Igreija católica e de visões mais conservadoras da sociedade.

3. De uma forma geral, e em larga medida devido ao 1. e 2. o que acontece no PSD e em menor medida no CDS é que não existe ideologia de partido. É o segredo para ir a atrás de todos os votos...incluindo as massas que votam em função dos benefícios à sua corporação e muitos que apenas estão fartos do estado (das coisas) e que se recusam a abster de votar, escolhendo o mal menor.


O nosso "centro" é-o por ser moderado em tudo, por ser uma mistura de tudo e todos. Sem ideologia, baseado na força dos seus líederes do momento. É à antiga Romana, ganha quem tem mais "clientes".

O Bloco de esquerda ganhou votos com teses liberais no campo social, que extremaram. Começaram com um ataque brutal aos vícios do estado e com isto ganharam votos. Temas como corrupção nunca antes tinham sido discutidos com a boca tão aberta.

Acredito que existe espaço para um partido liberal. Tem é que estar enxuto e sem telhados de vidro, para poder dar o nome às coisas, sem medos de retaliação. Nas ruas as pessoas estão fartas da forma como o país é governado, do estado em geral e não vêm alternativas.

Dito isto, e caindo na realidade, concordo que é mais provável que exista a semi-conversão de um CDS com a liderança de Pires de Lima ou da semi-conversão de um PSD com a liderança de um António Borges do que o aparecimento de um partido liberal português...

PS: "Aliás, o PND é um study case de insucesso eleitoral, por razões, algumas, desconhecidas." Não acerescentou nada de novo, não respondeu à angústia dos Portugueses.

1:33 da tarde  

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