quarta-feira, julho 27, 2005

(h)O(r)TA(s) e otários

Campos e Cunha, pré – demissionário, apelou no Público ao investimento governamental contido e selectivo. Mais tarde, António Vitorino questionou as opções governamentais em matéria de investimento. Hoje, chegou a hora de um lato comité de sábios economistas se insurgirem contra “mais experiências fantasistas” de investimento público. Ainda que socialista, devo juntar a minha voz ao coro de protestos (consciência oblige).
Na passada segunda-feira desloquei-me ao Porto em Alfa Pendular. Foram 3 horas de viagem no conforto de um meio de transporte moderno, ainda que subaproveitado. A inadequação das linhas férreas impede o Alfa de atingir a sua velocidade máxima, enquanto que a sua má planificação obriga-nos a permanecer estáticos durante 10 minutos para deixar passar o Inter – Cidades e comboios regionais. Um expansão da linha Alfa Pendular poderia, perfeitamente, adiar o recurso ao TGV para melhores dias financeiros. Aliás, duvido que haja grande predisposição do grande público em pagar mais do que os 44 euros de uma viagem Lisboa-Porto-Lisboa em classe turística no Alfa Pendular.
Mas mais do que o TGV, é a recorrente insistência governamental na construção de um Aeroporto na OTA que me deixa incrédulo.
Bem sei que qualquer grande metrópole cosmopolita (NY, Londres, Paris, etc) recorre a dois ou mais aeroportos. Mas, Lisboa, antes da construção de um novo aeroporto, tem de se tornar uma metrópole cosmopolita. Hoje, o seu provincianismo periférico está bem servido com o aeroporto da Portela.
Após ter passeado pelos movimentados corredores do JFK ou de Schipol, não há nada como regressar ao exotismo da Portela. Lisboa terá o único aeroporto do mundo a onde os estudantes universitários se deslocam para estudar pelo seu sossego. Às 11 da noite, a principal zona de restauração da Portela não está repleta de malas e da emoção de partidas e de chegadas, mas de apontamentos, manuais e calculadoras.
O turista recém chegado nunca terá melhor imagem, do tão apregoado, “crescimento assimétrico português” como no exterior do aeroporto da Portela. Nada mais do que um velho e poeirento bimotor reconvertido em bar de strip. O mais experimentado duvidará, imediatamente, da qualidade do trabalho de varão da profissional da casa em espaço tão exíguo, para logo se perder na admiração da flora regional.
As inúmeras e visíveis hortas que rodeiam a Portela, constituem um parque botânico castiço e único e , algures no mundo, existirá um livro de culinária que preza o caldo verde da Portela pelo seu recurso a ingredientes enigmáticos (escape de turbina).
Na realidade, o taxista português não é “ladrão”, mas patriota. Mais do que o volume da bandeirada, é o seu orgulho pátrio que o leva a conduzir o turista até Cascais, para chegar ao Rossio pela marginal, evitando ,assim, o cenário bratislaviano da Rotunda do Relógio e da entrada das Avenidas Novas.
Em crise, e no momento de incremento da tributação fiscal, qualquer dividendo público deverá ser reconvertido para a reorganização, racionalização e redução do Estado, abrindo espaço a uma posterior redução da carga fiscal. O recurso a soluções keynesianas de aumento do peso económico do Estado serão, não só contraproducentes e inglórias, como conduzirão a novas tributações fiscais.
Um novo aeroporto na OTA não só não contribuirá para uma a melhor colocação de Lisboa nas rotas aéreas internacionais, como retirará Portugal da rota dos fluxos económicos globais.




6 Comments:

Blogger Francisco Proença de Carvalho said...

O meu amigo Gonçalo,
não obstante os magníficos posts que nos continua a oferecer, deverá estar com uma ligeira crise existencial. Não percebo tanta necessidade em dizer: "Eu sou socialista" "Eu sou socialista"!
Gonçalo,
O que é isso de ser socialista?
Serás mesmo socialista?
No fundo, tu sabes que não és...
Tu és um grande liberal.
Um abraço

ps: já tens o monóculo?

4:34 da tarde  
Blogger Bernardo Pires de Lima said...

Camarada Sinédrio!
Não andas a bater muito no PS? Como diz o gangster dos socialistas (Jorge Coelhone)"Quem se mete com o PS leva!!".
Tem cuidado Amigo.

ps: eu continuo na minha: se tu és socialista eu sou do benfas.

4:40 da tarde  
Blogger Senador said...

E convencê-los que a OTA é um erro? É mais fácil converter membros da Al-qaeda em católicos que os membros do governo em pessoas razoáveis neste ponto!

7:33 da tarde  
Blogger Paulo Trezentos said...

Concordo quanto ao aeroporto...
Já não concordo quanto ao TGV. :-)

O TGV é uma obra que pode trazer algum desenvolvimento e que se pode auto-manter após o arranque.
O RAVE espanhol conseguiu taxas espantosas desde que garantiu que devolvia o custo do bilhete aos passageiros se o comboio se atrasasse mais do que 5 minutos.

11:24 da tarde  
Blogger Gonçalo Curado said...

Bem vindo, caro Paulo

Concordo que o TGV seria uma boa solução para a uniformização da rede ferroviária ibérica, mas os preços praticados teriam de ser o mais conscientes possíveis. Ainda assim, não acredito que este seja o melhor momento económico para tal investimento.

9:09 da manhã  
Blogger Paulo Trezentos said...

Gonçalo,

Tenho uma teoria nada cientifica - pois já sabem que nós no ISCTE estamos em 14º da ordenação, o que faz de nós seres-cientistas um pouco acima da equipa redactorial da Maria e mesmo abaixo do jornal do Benfica :-) - que o investimento público se divide em "manter a máquina" e "acelerá-la".
Por "manter a máquina da economia portuguesa" entenda-se pagar ordenados, rendas e executar obras de manutenção. O dia-a-dia.
Por "acelerá-la" entenda-se induzir a mudança que melhora o país e diminiu o custo de "manter a máquina". (O PIDDAC era para isso, mas hoje é quase exclusivamente para manter a máquina.)

Contra o manifesto dos 13 (economistas, porque o dos 9 já lá vai) falo, mas como diria o editorial de um semanário somos uma país de brilhantes economistas - todos eles já ex-ministros - mas cuja economia definha de ano para ano.

O TGV é "acelerar a máquina" e o investimento se não for para o TGV vai para "manter a máquina". Todo por inteiro e sem benefícios. Não vai para construir hospitais. Não vai para melhorar universidades.
Isto não significa que qualquer investimento público seja bom. Se assim fosse, também defendia a Ota.

Quanto aos preços, estamos de acordo. Talvez com um esquemazinho de IVA mais baixo... :-) a Comissão Europeia também só percebe 9 anos mais tarde.

12:08 da manhã  

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