quarta-feira, junho 29, 2005

"of the people, by the people, for the people"

Caro Henrique
Perdoa-me a frontalidade mas a porca “torceu o rabiosque” muito antes do medley ontológico/prático neocon. Temo que o rabiosque venha já torto desde que procuraste aliar-me ao moralismo neoconservador.
Poderá ser, porventura, uma fácil retórica pública, mas nunca deixará de constituir um défice argumentativo.
Como tu sinto-me à vontade, de gravata desapertada e mangas arregaçadas, junto de Fareed Zakaria ou de James Madison, mas devo dizer que tenho algumas dificuldades em te encontrar aqui:

The happy Union of these States is a wonder; their Constitution a miracle; their example the hope of Liberty throughout the world”, (Madison, James, Letters and Other Writings of James Madison)

Ou, especialmente, aqui:

We hold these truths to be self-evident that all men are created equal; that they are endowed by their Creator with certain inalienable rights; that among these are life, liberty, and the pursuit of happiness”. (Declaration of Independence)

Não tenho, no entanto, qualquer dificuldade em encontrar paralelos tácitos entre o teu argumento e o excepcionalismo democrático postulado, por exemplo, pela Central European University com o patrocínio Soros.
Gostaria de continuar a ler Burke, mas o único Burke que me resta é este, e por muito que retorne às páginas de A Philosophical Inquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful mais não consigo encontrar do que “Mr. Locke has somewhere observed, with his usual sagacity, that most general words, those belonging to virtue and vice, good and evil, especially, are taught before the particular modes of action to which they belong are presented to the mind”. Sim, “the style is called bombast”, mas a carga moral é um pré-requisito para a fundação das instituições, por sinal, democráticas.
Perdoa-me a planificação desmesurada, mas penso que o conceito precede o acto e a sua construção. Da mesma forma, a forma democrática na sua condição metafísica e moral deverá preceder a construção institucional.
Duvido que o oprimido pela tirania autocrática sobreviva na sua resistência democrática, apenas alimentado por uma nuvem metafísica do ideal democrático.
Escrevo-te isto enquanto vejo na televisão o resumo do debate de hoje na House of Commons e não deixo de me lembrar que um dia, Burke havia apelidado a revolução americana como a “filha ilegítima” da “gloriosa” revolução inglesa. Perdoa-me se aí encontro um reconhecimento da validade da promoção idealista e institucional (superiormente institucional).
Claro que a “good order” institucional é o preceito democrático por excelência, bem como a responsabilização de um Governo limitado perante o cidadão. Essa é a substância institucional de um Estado de Direito, de uma Democracia Liberal presente na tal nuvem metafísica do idealismo democrático. Quando o cacetete repressivo toca nas costas do idealista democrático é essa a natureza estatal limitada pelo direito positivo que alimenta a sua esperança. Pergunto-te mais uma vez, será condenável o patrocínio dessa esperança?
Ou será que, hoje de manhã, quando o David Hume bateu à porta e tentou acordar-te do teu “sonho dogmático”, tu pediste para "dormir mais 5 minutos"?

Um grande abraço
P.S.- Tenho de reconhecer que debater contigo tem uma piada do caraças!

3 Comments:

Blogger Joao Galamba said...

Caro Gonçalo,

Desculpa intrometer-me neste debate, mas fazes uma citação com a qual discordo em absoluto: “Mr. Locke has somewhere observed, with his usual sagacity, that most general words, those belonging to virtue and vice, good and evil, especially, are taught before the particular modes of action to which they belong are presented to the mind”

A Ética a Nicomaco de Aristóteles é dirigida a uma audiência que JA DISTINGUE o diferentes bens. Se a ética fosse ensinada a "tábuas rasas" ela não faria sentido nenhum pois eles não seriam capazes de a entender.
As palavras Bem, Mal, Liberdade não têm autoridade por si só. Elas são abstracções e nunca se podem substituir às práticas onde elas têm significado.
Wittgenstein escreveu que a nossa imagem do mundo (e a ética é uma forma de apreender o mundo)não é adquirida por raciocínio, mas por termos sido introduzidos a práticas onde esses termos têm significado.
O conceito não precede a prática, isso é platonismo.

Cumprimentos,
Joao Galamba

6:04 da tarde  
Blogger Joao Galamba said...

dois filósofos morais que abordaram este assunto: Alisdair MacIntyre (After Virtue) e Charles Taylor (Sources of the Self).

6:06 da tarde  
Blogger Ma Tin Long said...

Henrique e Gonçalo:
Continuem o debate. Assim dá gozo ler um blogue. Henrique, ainda bem que voltaste à escrita a sério no Sinédrio que acompanho com atenção e sentido crítico.
Lanço mais uma dica para o debate, agora noutra direcção...
Gonçalo, o que pensas do neoidealismo de Richard Falk?

1:42 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home